O dia da virada econômica do Rio de Janeiro
O dia de hoje marca a solução da dívida de R$ 201 bilhões do estado fluminense com a União e o resgate das relações civilizadas entre os dois governos
22 de junho de 2026. A data de hoje entra para o calendário econômico do Rio de Janeiro como o Dia da Virada. A adesão do estado fluminense ao Propag - Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados - é bem mais que um alongamento de dívida ou uma obtenção de descontos sobre empréstimos consolidados. Estes elementos estão lá, e são altamente favoráveis para o fluxo de caixa do estado. Mas o significado mais profundo do documento assinado hoje entre o presidente Lula e o governador interino Ricardo Couto, com a presença também do prefeito Eduardo Cavaliere, está no resgate de relações republicanas e civilizadas entre os dois poderes executivos. O que nos últimos anos se caracterizou como um afastamento proposital do governo estadual frente ao poder central, a ponto de culminar no completo isolamento político do Rio frente a Brasília, agora inicia um movimento inverso, de cooperação.
O Propag assinado pelo Rio, acima das “conversinhas ideológicas”, como observou o ex-prefeito e pré-candidato ao governo fluminense, Eduardo Paes, liberta o estado de pesadas obrigações de caixa. A renegociação da dívida de R$ 210 bilhões do estado frente à União, assim que todos os termos estiverem assinados, inclui um abatimento de cerca de R$ 40 bilhões ao longo do prazo de 30 anos de pagamento do principal. As prestações recuam dos atuais R$ 490 milhões para R$ 113 milhões, com economia superior a R$ 3,1 bilhões apenas neste ano. Entre as condições para a adesão ao Propag está a da vinculação de até 60% dos juros das dívidas a investimentos em educação técnica e profissionalizante.
À parte a qualidade técnica do pacote de renegociação, sobressai a velocidade com que o acordo - ótimo para o Rio de Janeiro, repita-se - chegou a bom termo. Couto assumiu a interinidade da gestão estadual em 23 de março deste ano. Com uma das mãos, ele vem enxugando a máquina do estado em relação ao clientelismo das indicações políticas. Até o dia 10 de junho, a contabilidade dos cortes indicava uma folha de pagamentos com 3,6 mil ‘pendurados’ pelos políticos a menos, devidamente exonerados a bem da administração pública.
Com a outra mão, Couto deu curso a entendimentos com o Ministério da Fazenda que o seu antecessor, Cláudio Castro, mantinha travados em razão da mais pura pinimba política. Com interesses outros na gestão estadual, Castro fez de conta que tentava negociar o acordo, sempre imputando culpa ao governo federal pelo não fechamento. Vê-se, agora, que as condições objetivas do Propag para o Rio sempre foram muito positivas. Era preciso, apenas, trabalhar em termos técnicos, como Couto fez, em lugar de investir no bloqueio ideológico, a aposta de Castro.
O pragmatismo econômico venceu. A adesão do Rio ao Propag é um trabalho de técnicos. O interesse político entrou no ambiente da negociação pela porta da boa vontade, que antes estava trancada. Os novos termos do pagamento da dívida estadual com a União libertam o governo fluminense para retomar investimentos em programas sociais e obras. A reconstrução administrativa e financeira do governo do Rio de Janeiro acaba de ganhar a sua base de apoio mais sólida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




