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Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

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O diesel pode faltar — e isso muda a eleição

A guerra no Golfo recoloca a energia no centro da economia global. Mas no Brasil, a crise já não cabe na lógica dos preços — ela começa a afetar a vida nacional

Posto de combustíveis (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Há momentos em que o mundo deixa de funcionar como estamos acostumados a descrevê-lo. Este é um deles. A guerra no Golfo recoloca a energia no centro da economia global. Durante décadas, aprendemos a interpretar crises como variações de preço — movimentos bruscos, às vezes violentos, mas ainda assim compreensíveis dentro de uma lógica de mercado. O petróleo sobe, o consumo recua, os fluxos se reorganizam, e o sistema, com mais ou menos dor, encontra um novo equilíbrio. Mas agora não. O que se desenha não é apenas uma crise cara. É uma crise que falha.

O bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, somado aos danos à infraestrutura no Golfo Pérsico, deslocou o centro de gravidade do problema. O petróleo bruto continua sendo importante, claro — mas já não é o personagem principal. No centro da cena, quase invisível para quem olha apenas as manchetes, está o diesel. E diesel não é abstração. É o que move caminhões, colheitas, navios, cidades inteiras. Quando ele falta, não é apenas o preço que sobe — é o mundo que desacelera.

Durante muito tempo, acreditou-se que o mercado daria conta de tudo. Se faltasse oferta, o preço subiria; se o preço subisse, alguém produziria mais; e, se alguém produzisse mais, o fluxo se restabeleceria. Era quase uma fé — elegante, matemática, reconfortante. A vida real é diferente. Essa lógica depende de uma condição silenciosa: a infraestrutura precisa estar intacta. E ela não está. Após quarenta dias de bombardeios, os danos ao sistema de refino no Golfo — essa engrenagem menos visível, mas absolutamente crucial — criam um tipo diferente de escassez. Não é a falta de petróleo bruto. É a incapacidade de transformá-lo no que realmente usamos. Refinarias não se recompõem como gráficos. Não respondem a incentivos em semanas. São estruturas físicas, complexas, vulneráveis — e, quando quebram, o tempo passa a ser um fator econômico tão relevante quanto o próprio barril. Meses, às vezes anos. É isso que muda tudo.

Os sinais dessa desorganização já começam a aparecer como rachaduras no vidro: pequenas à distância, mas profundas quando observadas de perto. O preço do petróleo deixou de contar a história completa. Em alguns casos, deixou de contar sequer a história correta. Há um descompasso crescente entre o que se negocia nos mercados financeiros e o que acontece no mundo real — aquele onde cargas precisam sair, navios precisam chegar, caminhões precisam rodar. O mercado spot começa a gritar escassez, enquanto os contratos futuros ainda sussurram normalidade. Quando o preço deixa de ser referência, o mercado deixa de ser um mapa confiável. E, sem mapa, cada região passa a navegar por conta própria.

É nesse cenário que o diesel ganha um protagonismo silencioso e perigoso. Ele é o elo entre energia e cotidiano, entre geopolítica e supermercado, entre o Golfo Pérsico e a mesa do almoço. Sua escassez não é apenas inflacionária — é logística. E crises logísticas têm uma característica particular: não avisam com antecedência. Elas aparecem quando algo simplesmente não chega. Estamos entrando nessa fase.

O Brasil entra nessa história com uma vulnerabilidade conhecida, mas pouco sentida — pelo menos até agora. Dependente de importações de diesel e sustentado por uma matriz de transporte essencialmente rodoviária, o país está exposto de forma direta a esse novo tipo de disfunção global. Em tempos normais, isso significa pagar mais caro. Em tempos como este, pode significar não conseguir comprar — ou não conseguir receber. Porque, quando a oferta encolhe, o mercado deixa de ser universal e passa a ser seletivo. E nem todos têm prioridade. Essa é a mudança mais difícil de assimilar: não basta ter dinheiro. É preciso ter acesso.

A crise, no entanto, não para nos combustíveis. O Golfo Pérsico também é um dos grandes centros de produção e distribuição de fertilizantes — e seus insumos já começam a sentir os efeitos da desorganização. Rotas mais longas, custos maiores, entregas incertas. Para um país como o Brasil, cuja agricultura depende fortemente dessas importações, o impacto não é marginal. É estrutural. Menos fertilizante, mais caro — combinado com diesel escasso — forma um cenário que não precisa de dramatização: ele se traduz diretamente em alimentos mais caros e, eventualmente, mais difíceis de produzir.

Tudo isso acontece em um momento delicado dentro do próprio país. A percepção econômica já vinha se deteriorando, como indicam pesquisas recentes (Quaest), que captam perda de confiança e piora na avaliação das condições de vida. Em condições normais, haveria espaço para amortecer o impacto — políticas, discursos, ajustes graduais. Mas crises de abastecimento não respeitam esse tipo de gestão. São concretas, imediatas, visíveis. O frete sobe. O alimento encarece. O posto limita. A rotina muda. E, quando a rotina muda, a confiança costuma ir junto. A história mostra que governos raramente entram em crise apenas por preços altos. O ponto de ruptura costuma ser outro: quando as coisas deixam de funcionar, quando o fluxo quebra.

O que está em curso, portanto, não é apenas uma crise — é uma transição. Um deslocamento quase silencioso de um mundo integrado para um mundo fragmentado, de um sistema que operava com abundância relativa para outro que começa a lidar com escassez real. Os sinais ainda são dispersos, mas convergentes. O Brasil está inserido nessa engrenagem global e terá de rever uma de suas crenças mais confortáveis: a de que o mercado internacional estará sempre lá, pronto para suprir o que falta. Talvez não esteja.

O problema já não é apenas quanto custa o diesel. É se ele estará disponível. Essa diferença — sutil no papel, brutal na prática — redefine o tipo de risco que o país enfrenta. E, em um ambiente de fragilidade interna, a convergência entre crise externa e desgaste doméstico deixa de ser um exercício teórico. Passa a ser uma possibilidade concreta — e com prazo cada vez mais curto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.