O Estadão e seus simulacros e simulações da realidade
Editorial revela menos sobre o STF e mais sobre certa tradição da grande imprensa: a de confundir sua própria lente com o olhar da sociedade
Há algo de curiosamente anacrônico - para não dizer revelador - no editorial do O Estado de S. Paulo deste sábado que se debruça, com ares de solenidade científica, sobre uma pesquisa de avaliação individual dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao ler a tabela meticulosamente organizada, confesso: fui transportado, sem escalas, à década de 1970.
Mais precisamente, às salas de aula da Escola Alcebíades Azeredo dos Santos, o Polivalente de Viamão, no Rio Grande do Sul, onde o professor Francisco – em suas aulas de Moral e Cívica e OSPB - nos convocava a decorar, quase em tom litúrgico, os nomes das autoridades do regime ditatorial. Havia ali um certo fetiche pela lista, pela ordem, pela hierarquia. Um país que se pretendia organizado por meio da memorização dos seus próprios símbolos de poder.
Avançamos meio século - ao menos no calendário - e eis que o “jornalão” nos oferece algo semelhante: uma espécie de ranking afetivo dos ministros da Suprema Corte, como se o brasileiro médio, entre um boleto e outro, estivesse profundamente dedicado a distinguir, com precisão quase acadêmica, quem é mais ou menos confiável entre os integrantes do STF.
É aqui que a ironia se impõe. Não porque o Supremo Tribunal Federal esteja imune a críticas - longe disso. A Corte vive, sim, uma crise de imagem. Crise que nasce tanto de seus equívocos quanto, paradoxalmente, de seus acertos. Quando decidiu se posicionar como guardiã da ordem democrática, enfrentando arroubos autoritários e delírios golpistas, atraiu para si a fúria organizada de hordas extremistas que passaram a tratá-la como inimiga.
Mas entre reconhecer essa crise e acreditar que a população brasileira acompanha, com lupa e caderneta, o desempenho individual de cada um dos dez ministros, vai uma distância considerável. Uma distância que o editorial parece atravessar sem qualquer constrangimento - talvez porque parta de uma premissa silenciosa, porém recorrente: a de que a opinião publicada pode, com algum esforço retórico, se passar pela opinião pública.
A pergunta que fica é simples, ainda que incômoda: quem, de fato, teria sido ouvido nessa pesquisa? O trabalhador que enfrenta horas de transporte público? A mãe que equilibra orçamento e cuidado? O jovem que tenta ingressar no mercado de trabalho? O trabalhador de aplicativo que pensando ser dono do seu próprio nariz dirige, pilota ou pedala 12 ou 14 horas por dia? Ou estamos diante de mais um exercício de projeção de bolhas bem-informadas - e bem localizadas - que falam entre si e, depois, se apresentam como porta-vozes do país? Ou, pior, nenhuma das opções anteriores?
Há, portanto, um quê de desfaçatez no gesto. Não exatamente por divulgar uma pesquisa – isso, apesar de questionável, faz parte do jogo democrático, mas por fazê-lo com ares de retrato fiel da consciência nacional. Como se o Brasil profundo estivesse, neste exato momento, debatendo com afinco as virtudes comparadas de ministros que muitos sequer saberiam nomear.
No fundo, o editorial revela menos sobre o Supremo Tribunal Federal e mais sobre certa tradição da grande imprensa: a de confundir sua própria lente com o olhar da sociedade. Uma prática antiga, resistente, que sobreviveu à redemocratização e, ao que parece, também às transformações tecnológicas e culturais das últimas décadas.
Talvez o problema não esteja na pesquisa em si, mas na pretensão de transformá-la em espelho do país. Porque, convenhamos, se há algo que o Brasil real não tem hoje é tempo - ou disposição - para decorar, como nos velhos tempos de OSPB, a lista dos homens do poder.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



