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Fernando Capotondo

Jornalista argentino. Chefe de redação da revista Contraeditorial e diretor do site cultural Llibres

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O experimento viral dos robôs na China

Cerca de 70% das patentes mundiais de robótica registradas desde 2000 tiveram origem chinesa

Robô chinês compete em meia maratona em Pequim (Foto: Shi Gangze/Diário do Povo)
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Com 940 milhões de habitantes urbanos interagindo com milhares de máquinas, o país asiático transformou sua própria sociedade no maior laboratório de treinamento robótico do planeta. Os números preocupam os Estados Unidos.

Um robô deverá passar uma linha pelo buraco de uma agulha em menos de dois segundos, outro abrir uma garrafa sem quebrá-la e um terceiro participará de uma simulação de combate a incêndios. Esses serão alguns dos testes dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides 2026, que acontecerão em Pequim. Embora seja um evento esportivo, ele servirá para demonstrar ao mundo as possibilidades de aplicação cotidiana dos mais recentes avanços da indústria robótica chinesa.

Mais de 40% das provas integrarão um segmento especial chamado “Competições em Cenários Reais”, voltado para atividades da vida diária e tarefas de motricidade fina. Por trás da exibição, renova-se uma das principais questões do debate tecnológico global: qual país conseguirá treinar melhor seus robôs?

A China acredita saber onde está a resposta. De certo modo, Pequim pretende utilizar os jogos como vitrine de uma transformação global na qual leva vantagem, segundo analistas como Zornitsa Todorova, do influente banco britânico de investimentos Barclays. “A década da robótica pertence à China”, resumiu a especialista ao analisar uma série de indicadores da Federação Internacional de Robótica (IFR).

Segundo a IFR, a China instalou cerca de 295 mil robôs industriais em 2024, enquanto os Estados Unidos incorporaram pouco mais de 34 mil. Ao mesmo tempo, o parque operacional chinês ultrapassou dois milhões de unidades, contra aproximadamente 394 mil nos EUA.

A diferença foi tão expressiva que o debate ultrapassou a concorrência entre empresas e desencadeou uma ampla discussão sobre a capacidade dos Estados Unidos de reduzir a distância em relação à China em um setor considerado estratégico pelo presidente Donald Trump.

Relatórios do Barclays e da consultoria norte-americana IDC coincidiram ao apontar que, durante 2025, foram implantados cerca de 15 mil robôs humanoides em todo o mundo, dos quais aproximadamente 85% foram fornecidos por empresas chinesas.

No campo da inovação, o Escritório Europeu de Patentes (EPO) informou que cerca de 70% das patentes mundiais de robótica registradas desde 2000 tiveram origem chinesa. Somente em 2023, o país asiático apresentou mais de 30 mil pedidos de patente, segundo dados do China Daily.

A isso soma-se o fato de que a China controla cerca de 90% da capacidade mundial de refino de terras raras, minerais fundamentais para a robótica e outras indústrias de alta tecnologia, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA). “Tornou-se quase impossível construir um robô humanoide sem componentes de empresas chinesas”, admitiu Ming Hsun Lee, diretor para a Grande China da BofA Global Research, unidade do Bank of America, em entrevista ao The New York Times.

Entretanto, os números da produção não explicam tudo. Em Pequim, especialistas argumentam que a verdadeira vantagem chinesa talvez seja a possibilidade de contar com centenas de milhões de pessoas que, diariamente, interagem com robôs e geram um enorme volume de informações para treiná-los.

Um laboratório cotidiano

De fato, cada robô que recebe clientes, entrega alimentos ou orienta pacientes dentro de um hospital está fazendo mais do que executar uma tarefa programada. Também está aprendendo em tempo real, em uma convivência entre humanos e máquinas que já ocorre há mais de duas décadas em países como Estados Unidos e Japão, mas que atualmente alcançou outra dimensão na China.

O diferencial chinês está na escala. Com aproximadamente 940 milhões de habitantes urbanos, mais de 10 mil empresas competindo no setor e uma política industrial voltada para acelerar a robotização, a China dispõe de um campo de testes praticamente impossível de ser reproduzido em qualquer outra parte do mundo.

Um artigo publicado pelo China Daily relata o caso de uma menina que inicialmente teve medo de um robô humanoide instalado em uma loja, mas poucos meses depois passou a procurá-lo para brincar sempre que voltava ao local. O exemplo ilustra um fenômeno cada vez mais comum: os robôs deixaram de ser apenas uma curiosidade tecnológica para se tornarem parte da paisagem urbana. Para as empresas, essa presença tem enorme valor estratégico, pois cada interação com usuários reais gera dados que ajudam a corrigir erros, ajustar algoritmos e melhorar o desempenho das máquinas.

Diante do entusiasmo da indústria, a socióloga do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Sherry Turkle, alertou que “estamos projetando tecnologias que nos darão a ilusão de companhia, mas sem as exigências da amizade”. Para a pesquisadora, a questão deixou de ser o que os robôs são capazes de fazer e passou a ser quais tipos de relações humanas eles poderão substituir.

Essa naturalização da robótica também se reflete no sistema educacional chinês. Neste ano, 43 universidades criaram 100 novos programas de formação. “Se a China pretende liderar a próxima geração de robôs, também precisa formar os engenheiros, programadores e técnicos encarregados de projetá-los, fabricá-los e aperfeiçoá-los”, afirmou Chen Jing, vice-presidente do Instituto de Pesquisa em Tecnologia e Estratégia (TSRI).

Na mesma direção, o Ministério do Comércio anunciou recentemente um novo marco regulatório composto por 17 medidas destinadas a acelerar a chegada de milhões de robôs às residências, indústrias e estabelecimentos comerciais. Ao mesmo tempo, permanece a dúvida sobre os impactos dessa transformação em um país onde o desemprego entre os jovens continua sendo um desafio.

A fronteira de Shenzhen

Basta observar Shenzhen para compreender a escala do avanço chinês. A cidade produziu cerca de oito milhões de robôs durante 2025, em um ritmo difícil de ser igualado por Estados Unidos ou Europa. Paralelamente, a Corporação Estatal da Rede Elétrica investiu US$ 1 bilhão na implantação de 8.500 robôs para manutenção de linhas de alta tensão, enquanto pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências desenvolveram um sistema capaz de realizar injeções intraoculares com 100% de sucesso em testes com animais.

Analistas do Barclays estimam que a China poderá implantar cerca de 11 milhões de robôs humanoides por ano até 2035, diante de um mercado mundial que deverá alcançar aproximadamente 13 milhões de unidades anuais. A projeção parece saída da ficção científica. No entanto, há apenas duas décadas também parecia improvável que a China dominasse os mercados globais de painéis solares, baterias para veículos elétricos e drones.

Apesar desses números, nem todos compartilham do mesmo entusiasmo. O economista Daron Acemoglu, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2024 e professor do MIT, advertiu que pode ser perigoso privilegiar o otimismo tecnológico em detrimento dos resultados econômicos. “Estamos usando a inteligência artificial excessivamente para automatizar e não o suficiente para fornecer conhecimento e informação aos trabalhadores”, afirmou. A observação reforça uma questão ainda em aberto: se os robôs humanoides conseguirão gerar ganhos de produtividade suficientes para justificar os investimentos bilionários que exigem atualmente.

Nesse contexto, ainda não se sabe se os robôs humanoides serão tão revolucionários quanto foram a internet e os smartphones. Entretanto, a indústria já atua como se essa resposta fosse positiva.

Quando os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides começarem, no fim de agosto, em Pequim, boa parte da atenção estará voltada para as cerca de cinquenta provas realizadas no estádio Ice Ribbon e em outros locais da cidade. Porém, a verdadeira competição chinesa acontecerá em outro cenário: nas fábricas, hospitais, comércios, universidades e residências de todo o país, onde centenas de milhões de pessoas já participam, muitas vezes sem perceber, do treinamento da próxima geração de robôs.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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