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Fernando Capotondo

Jornalista argentino. Chefe de redação da revista Contraeditorial e diretor do site cultural Llibres

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O fio da IA chinesa não se rompe pelo elo mais fraco

O Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou, o Vale do Silício chinês, decidiu contra uma empresa que havia substituído um trabalhador por IA

IA (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

“A adoção da IA ainda está no início e o impacto sobre o emprego dependerá, em grande medida, de como os empregadores utilizarão essa tecnologia da melhor forma.” A frase apareceu em um relatório do Goldman Sachs de 2025 e permaneceu como um alerta que muitos leram, mas poucos levaram a sério. Um ano depois, o tema ganhou atualidade na China a partir de uma decisão judicial que estabelece que demitir um trabalhador para substituí-lo por Inteligência Artificial (IA) não basta, por si só, para justificar essa decisão.

O caso foi resolvido no Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou, cidade conhecida como o Vale do Silício da China. Um técnico sênior, de sobrenome Zhou, percebeu que a IA estava assumindo seu trabalho de filtragem de conteúdos ilegais e de vinculação de consultas de usuários a modelos de linguagem. A suspeita se confirmou quando a empresa lhe ofereceu uma indenização de 311.695 yuans (cerca de 45.350 dólares) e a possibilidade de continuar em um cargo de menor hierarquia, com salário reduzido para 15 mil yuans mensais, bem abaixo dos 25 mil que recebia.

Zhou recusou a proposta e levou o caso para arbitragem trabalhista, que considerou a demissão ilegal. A empresa judicializou a decisão e recorreu, mas as diferentes instâncias mantiveram o mesmo entendimento. O que parecia uma discussão individual acabou abrindo uma questão mais ampla.

A decisão baseou-se em uma interpretação rigorosa da legislação trabalhista chinesa, que só permite demissões diante de “mudanças substanciais nas condições objetivas” das empresas. A questão central foi determinar se a substituição de funcionários por sistemas de IA poderia se enquadrar nessas hipóteses legais de dispensa. O tribunal concluiu que não: esse tipo de situação não inclui decisões tecnológicas internas, mas sim circunstâncias como transferências, fusões ou reestruturações profundas. Também não foi possível demonstrar que o contrato de trabalho havia se tornado impossível de cumprir.

Esse mesmo entendimento já havia aparecido alguns meses antes em Pequim. Em dezembro de 2025, um coletor de dados cartográficos foi substituído por sistemas automatizados. A empresa alegou modernização para manter sua competitividade, mas o argumento também não foi suficiente para enquadrar o caso nas hipóteses legais que autorizam demissão. A dispensa foi considerada ilegal e foi determinada compensação financeira.

Duas decisões, em poucos meses e em cidades diferentes, começam a delinear uma jurisprudência em uma indústria que supera 1,2 trilhão de yuans (cerca de 175 bilhões de dólares) e reúne mais de 6.200 empresas. As projeções oficiais apontam para uma expansão contínua, com níveis de penetração que podem superar 90% até 2030.

Tudo isso ocorre em um contexto no qual a China tenta equilibrar a necessidade de manter o emprego, proteger direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, acelerar a adoção da IA em sua estrutura produtiva, informou a agência oficial Xinhua. Para alcançar esses objetivos, entre 2021 e 2025 o Ministério dos Recursos Humanos e da Seguridade Social lançou 72 novas profissões, mais de 20 delas relacionadas à Inteligência Artificial, cada uma com potencial para gerar centenas de milhares de empregos.

Treinador de IA, coletor de dados de robôs humanoides e criador de conteúdo com IA estão entre as novas especializações que transformam o mercado de trabalho chinês. “O progresso tecnológico não consiste em substituir os humanos, mas em abrir mais espaços criativos”, afirmaram representantes da empresa Agibot, sediada em Xangai, em linha com o que vem sendo consolidado no Judiciário.

O debate tão temido

Xi Jinping afirmou em diferentes intervenções que a IA amplia a capacidade humana de transformar o mundo, mas introduz riscos difíceis de prever. O que ocorre na China não é um caso isolado. O economista Daron Acemoglu vem alertando há anos que muitas empresas utilizam a automação mais para reduzir custos trabalhistas do que para aumentar a produtividade, com impacto direto sobre a qualidade do emprego.

O historiador Yuval Noah Harari projeta um cenário mais duro, em que parte da população perde relevância econômica em um contexto no qual os sistemas já não precisam mais de seu trabalho. “A pergunta mais importante da economia do século XXI pode ser: o que devemos fazer com toda a população supérflua, quando tivermos algoritmos altamente inteligentes, ainda que não conscientes, capazes de fazer quase tudo melhor do que os humanos?”, advertiu.

As decisões judiciais ganham, nesse contexto, um peso que vai além dos casos específicos. Wang Xuyang, advogado do escritório Zhejiang Xingjing, resumiu após a decisão de Hangzhou: as empresas podem ganhar eficiência com a IA, mas não devem transferir esse custo ao trabalhador.

A partir daí, a discussão se amplia. Wang Tianyu, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, analisa como a relação de trabalho é redefinida quando parte do processo produtivo deixa de estar nas mãos humanas. “O progresso tecnológico pode ser irreversível, mas não pode existir fora de um marco legal”, afirmou.

Pan Helin, economista e assessor do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, concorda ao levar essa discussão para um plano mais operacional. O deslocamento de trabalhadores associado à IA aparece como uma tendência difícil de conter, enquanto o foco passa a ser a gestão da transição, a realocação e os mecanismos de compensação.

O entendimento que começa a se consolidar é simples, mas tem profundas implicações: a tecnologia avança no seu ritmo e já não opera em um terreno sem regras. Os casos de Hangzhou e Pequim, por si só, não transformam o mercado de trabalho, mas delimitam um espaço em que quase tudo continua em disputa.

Se uma empresa decide substituir uma pessoa por uma IA, o custo dessa decisão não desaparece em nome da inovação.

A tensão entre automação e emprego já não se restringe a relatórios ou projeções de consultorias. Ela produz consequências concretas: contracheques, indenizações, ações trabalhistas. Em grande parte do Ocidente, esses conflitos são resolvidos caso a caso, sem uma doutrina consolidada e com marcos regulatórios correndo atrás da tecnologia. Na China, por outro lado, algumas regras começam a ser definidas. Não resolvem o problema, é verdade, mas estabelecem um limite.

E quando isso acontece, a discussão deixa de ser teórica. Passa a ter consequências.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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