O homem Cazarré
Juliano Cazarré assim como todos os outros que pensam como ele são curiosamente de direita
Decidi meter o dedo nesta polêmica envolvendo o ator Juliano Cazarré. Reconheço humildemente que ele tem por volta de 5 milhões de seguidores. Antigamente você dizia que a pessoa era respeitada, tinha uma imagem a defender, um papel decente na sociedade. Hoje você diz o número de seguidores como se fosse uma régua para medir a credibilidade de alguém. Mas enfim, são pessoas que o seguem e devem concordar com o que ele diz. Essa é a maneira de conectar as pessoas em torno de uma ideia sua ou copiada, que você defende.
Juliano quer recuperar a figura desamparada do homem(sic). Ele mesmo diz isso. Eu procuro esse homem desamparado e não acho. Acho o homem violento, arrogante, autoritário e misógino. Acho também o homem sem o mesmo poder de antes, questionado, fragmentado, discutido. Esse é fácil de achar e mesmo que ele não se reconheça assim, dá para destacar no meio de todos.
Os homens estão cometendo mais feminicídios hoje não porque estão desamparados ou sem Cristo no coração. Estão cometendo mais crimes contra as mulheres porque estão perdendo o poder sobre o corpo e os desejos femininos. Homens não ocupam mais o papel de “liderança e comando” quase incontestáveis. Podem ainda ser escolhidos, mas não impostos como antes. Não são mais uma fatalidade, literalmente e sim o alvo de desejo que leva a escolha seja por parte de mulheres ou de outros homens. Mas isso incomoda. Os homens não querem se colocar em questão. Querem, como mostra o Cazarré, recuperar o seu papel hoje questionado. Querem voltar a mandar no corpo e na alma das mulheres. Querem decidir sobre família, filhos, espiritualidade, futuro, lar e profissão. Querem voltar a ser os grandes protagonistas da relação, os chefes de família, os provedores. A livre escolha deixou de ter importância e a orientação sexual então, não devia nem ter surgido.
Esse discurso realmente libera o feminicídio, como bem disse a atriz Marjorie Estiano. É esta posição masculina que justifica o corretivo físico e violento para restabelecer o comando familiar. Juliano Cazarré, quando diz que os homens precisam recuperar seu caminho de masculinidade, não prevê que as mulheres mudaram e não aceitam mais essa imposição. O mundo mudou e com isso, até mesmo os princípios cristãos deveriam acompanhar esta mudança. Você pode pregar o amor junto com a livre escolha. Pode pregar a solidariedade o até mesmo a caridade junto com a justiça social. Pregar a crença no reino dos céus sem deixar de querer também uma vida mais digna enquanto está por aqui. Esse é o verdadeiro espírito cristão que une homens e mulheres.
Não existe nenhum texto que ensine que homens são melhores que as mulheres, que devem comandar ou prover uma família. Homens podem ser mais fortes, mas isso não significa que sejam os comandantes. Homens têm características diferentes das mulheres, mas nem melhores nem piores. Essa diferença deveria ser a que une e não a que estabelece hierarquias. Homens devem rever seus papéis sim, mas para se moldar a este mundo novo que inclui todas as pessoas de modo igual. Deveria refletir sobre o poder e porque matam tanto quando este poder é questionado. Deveriam pensar sim porque o acesso às armas acaba favorecendo este tipo de violência e porque os mandamentos masculinos herdados São tão contrários ao convívio harmonioso que deveria existir entre os seres humanos.
Nenhum sexo é melhor do que o outro. E isso deveria ser fator de atração e não de opressão. Juliano Cazarré assim como todos os outros que pensam como ele são curiosamente de direita. É na direita que eles encontram respaldo para esse tipo de questionamento que vai contra a evolução, contra a modernidade, contra a expressão maior da liberdade de escolha. E ninguém escolhe impunemente esta posição. O direito de escolha inclui também o direito de dizer não, de escolher o próprio caminho e decidir o próprio futuro longe dos dogmas ou ensinamentos obsoletos dos quais, a duras penas, estamos conseguindo nos liberar. Sempre me preocupei em ser este homem. Alguma coisa acho que consegui mudar em mim e vejo também em outros. Não estamos desamparados, estamos nos reconstruindo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

