O ignoródio está aí. Repararam?

Na massa pode haver fatos trágicos, heróicos e patéticos. Caminhos mais diversos. Inclusive, ela pode agir como um tribunal moral instalado em bolhas virtuais. Cuidado! A massa está disposta a tudo mesmo!

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O psicanalista Jacques Lacan mostrou que existem três paixões fundamentais no homem, que são o amor, o ódio e a ignorância. A questão aí é o recorte feito por Antonio Quinet, que fez a combinação da ignorância com o ódio. O nome disso é ignoródio, que é uma ilustração, e não outra coisa. E o tema tem servido de palco para preciosas reflexões.

Vamos por partes.

Tudo começou quando o psicanalista Antonio Quinet deu régua e compasso para fazer o elo da ignorância com o ódio, e associar o ignoródio à ignominia. No alvo. Vejam só: ignominia é uma palavra que tem origem no latim, e significa uma desgraça ou o ato de perder o “bom” nome. É uma grande desonra, efeito causado por julgamentos públicos. É o assassinato de reputações.

E aí se vai o motivo de o ignoródio estar no centro das ações ignominiosas, porque mira o outro pela lente da ofensa, do ataque. É a mesma coisa, como direi?, de abrir uma caixa de desgraças: o veneno se espalha com muita letalidade. 

Trata-se, também e sobretudo, de uma técnica de coação. Sim! É quando o discurso de ameaça chega ao limite máximo. O pior é quando isso vira política de governo, bomba de sucção que retira o ignoródio do eleitor. Aí as hordas anônimas entram em cena. É o efeito matilha em ação, exatamente como fazem as milícias digitais investigadas no inquérito das fake news.
Como diz Quinet, a paixão da ignorância se expressa também no ódio ao saber/conhecimento, ao ponto de o estúpido ter orgulho de ser imbecil (aqui). É que o idiota tem verdades pétreas, ao ponto de fazer elogios à burrice. Por isso ele sente ódio ao saber do outro (“odeio quem sabe!”). Daí ideias para criar escolas sem partido, perseguições a filósofos, sociólogos, psicanalistas, educadores, historiadores.... (o dito marxismo cultural).

E que se note: o fato de os odiadores serem bestiais não é o problema. O impressionante, a propósito, é o exército de bestiais ganhar força numérica. E, para quem não sabe, é precisamente o que Nelson Rodrigues profetizou: “Os idiotas vão tomar conta do mundo porque são numericamente superiores”.

Só para lembrar: essa ode à boçalidade pode sair da esfera do um-a-um das relações pessoais e ganhar contornos de discurso de massa. No meio dessa barafunda, Freud, novamente ele, publicou “Psicologia de massa e a análise do eu”. O fundador da psicanálise errava pouco e adiantou em dizer os porquês do efeito “rebanho” ou “manada”. Sim, Freud sustentou que o peso das argumentações lógicas é desprezado pelas massas. Sim, a massa tem sede de obediência. Sim, ela quer ser dirigida.

Impressionante como o ser humano no espírito coletivo tende a construir um circo de horrores tão rapidamente. Elias Canetti, em “Massa e Poder”, que o diga. É que pântano se alimenta de pântano. E por que é assim? Ora, porque a massa não se acha em dúvida quanto ao que constitui “verdade”. A massa não pensa o método científico como uma série de testes e refutações a que submetemos teorias para delas extrair a “verdade”. O ponto é que a massa não descola das ilusões. No lugar de conjecturas e refutações, o que há são memes e slogans (“corona, alarme falso”, “fim da pandemia”). E quando ideias não agradam à fúria irracional das redes sociais, o linchamento virtual acontece. 

E assim a política gera paixão e a paixão abre canal direto com o ignoródio, que, por sua vez, anda de mãos dadas com a misoginia, a homofobia, a tortura, o genocídio e o racismo. E essa paranoidização faz com que algumas pessoas – pasmem!! – chamem um chefe de Estado de “mito”. Sim, é verdade! Elas projetam um homem sem idiossincrasias, erros, falhas ou limites evidentes. 

Ao contrário do que muitas pessoas imaginavam, a internet não propiciou uma fantástica ágora para o debate nacional. O que eu quero dizer é: não precisamos ser tão patetas, assim, ao ponto de acreditar nisso. O buraco é mais embaixo: na internet a dinâmica é também a da truculência, do ódio. Sem contar que uma informação falsa circula desafogadamente por dias, até que empresas como Facebook e Twitter, por exemplo, identifiquem a coisa errada, o abuso. Até lá, a notícia fabricada já fez um bom estrago em reputações e carreiras. 

Só para terminar. O linguajar de que “a voz do povo é a voz de Deus” (vox populi, vox dei) tem que ser quebrado? Se você não diz, digo eu. Penso que sim!, uma vez que esse equivocado mito da opinião de massa pode nos levar para uma espécie de “sabedoria definitiva”, sem que essas opiniões fossem de antemão submetidas a esquemas rígidos de análise e refutação.

Na massa pode haver fatos trágicos, heroicos e patéticos. Caminhos mais diversos. Inclusive, ela pode agir como um tribunal moral instalado em bolhas virtuais. Cuidado! A massa está disposta a tudo mesmo! 

Referências

CANETTI, Elias. Massa e Poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 308-309.POPPER, Karl. Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos, 1992.QUINET, Antonio. O ignoródio ao gozo do outro. Revista CULT – Revista Brasileira de Cultura: São Paulo. n° 241, 7 dez. 2018. 

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