Miguel do Rosário avatar

Miguel do Rosário

Jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje

391 artigos

HOME > blog

O império derrotado

"Os EUA tentaram conter a China e aceleraram a autonomia tecnológica, industrial e militar chinesa"

Presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, em encontro durante reunião do G20 em 2019, em Osaka, no Japão 29/06/2019 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

A decisão insana do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atacar o Irã, com motivos notoriamente forjados e falsos, já pode ser considerada, segundo analistas experientes do próprio establishment ocidental, como a maior derrota estratégica da história americana. Quem diz isso não é a imprensa alternativa, nem analistas anti-imperialistas, mas figuras centrais do aparato ideológico e militar dos EUA.

De um lado está John Culver, ex-analista da CIA especializado em China e assuntos militares asiáticos, entrevistado por Max Boot no The Washington Post. Do outro, ninguém menos que Robert Kagan, um dos arquitetos intelectuais das guerras americanas das últimas décadas, escrevendo na The Atlantic que os EUA sofreram uma espécie de “xeque-mate” estratégico no Irã.

Quem ajuda a organizar e interpretar esse terremoto geopolítico é Arnaud Bertrand, empreendedor francês que ficou milionário após vender um aplicativo de viagens e acabou se transformando num dos mais influentes analistas geopolíticos do X, antigo Twitter. Seus textos combinam precisão analítica, lucidez histórica, objetividade cirúrgica e um humor sarcástico particularmente corrosivo quando o assunto é o declínio do poder imperial americano.

Nos dois textos publicados recentemente, Bertrand chama atenção para um fato extraordinário: os próprios arquitetos da hegemonia americana começaram a admitir publicamente que os EUA perderam capacidade real de impor sua vontade militar ao planeta. Em sua ironia característica, ele observa que “os incendiários agora estão escrevendo o relatório do incêndio”.

A conclusão é devastadora porque vem de dentro do próprio sistema imperial americano. Não é Moscou, Pequim ou Teerã afirmando isso, mas ex-chefes da inteligência, ideólogos neoconservadores e articulistas históricos do complexo militar-industrial dos EUA.

No artigo publicado pelo Washington Post, John Culver afirma praticamente sem rodeios que, em caso de guerra envolvendo Taiwan, a estratégia americana seria retirar seus principais ativos militares do Pacífico antes mesmo do início do conflito. Em outras palavras, segundo Bertrand, o Pentágono já trabalha com a hipótese concreta de fuga tática diante da superioridade militar chinesa na região.

Culver afirma que já não existem “zonas seguras” para os EUA no Pacífico Ocidental. Bases americanas no Japão, Coreia do Sul ou Austrália poderiam ser atingidas por mísseis chineses em escala devastadora, enquanto os porta-aviões americanos se tornaram vulneráveis demais diante do novo arsenal chinês.

O diagnóstico fica ainda pior quando o assunto é capacidade industrial. Segundo Culver, a China já superou os Estados Unidos na maior parte das áreas militares estratégicas, especialmente na produção de munições, construção naval e capacidade de reposição rápida de equipamentos militares.

Bertrand destaca um dado particularmente humilhante para Washington: um único estaleiro chinês teria capacidade superior à soma de todos os estaleiros americanos. A implicação disso é brutal, porque guerras modernas não são vencidas apenas com tecnologia sofisticada ou marketing militar hollywoodiano, mas principalmente por capacidade industrial e logística.

Enquanto isso, o artigo de Robert Kagan sobre o Irã soa como uma confissão tardia de fracasso histórico. O mesmo homem que passou décadas defendendo guerras, intervenções e mudança de regimes no Oriente Médio agora admite que os EUA sofreram uma derrota que “não pode ser ignorada nem reparada”.

Kagan reconhece que os EUA não conseguiram garantir segurança nem para seus próprios aliados estratégicos na região. O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, o desgaste militar acelerado e a incapacidade americana de restaurar plenamente o controle da situação produziram um abalo profundo na credibilidade global de Washington.

Bertrand argumenta que a consequência mais profunda dessa derrota talvez não seja militar, mas psicológica e política. O mito da invencibilidade americana foi quebrado diante do mundo, obrigando aliados europeus, monarquias do Golfo e governos asiáticos a reconsiderarem suas alianças estratégicas.

Segundo Bertrand, o planeta entrou definitivamente numa era multipolar e os próprios EUA estão acelerando esse processo. Cada tentativa de preservar a hegemonia pela força acaba produzindo exatamente o contrário: fortalecimento dos adversários, perda de credibilidade internacional e desgaste econômico crescente.

Os EUA tentaram destruir o Irã e fortaleceram o eixo antiamericano no Oriente Médio. Tentaram conter a China e aceleraram a autonomia tecnológica, industrial e militar chinesa, ao mesmo tempo em que aprofundaram sua própria crise econômica e industrial.

O aspecto mais impressionante da análise de Bertrand talvez seja o fato de que nem os próprios neoconservadores parecem enxergar uma saída realista para a crise. John Culver chega a afirmar que até mesmo aumentos gigantescos dos gastos militares americanos poderiam representar apenas dinheiro jogado fora.

Já Robert Kagan finaliza seu artigo numa mistura de caricatura e desespero, concluindo que a solução para o desastre seria uma guerra ainda maior contra o Irã, envolvendo invasão terrestre, ocupação militar e administração direta do país até a emergência de um novo governo. Ou seja, a mesma fórmula aplicada ao Iraque, que resultou em mais de 2 trilhões de dólares gastos, cerca de um milhão de mortos, devastação total do país e, ironicamente, transformou o Iraque num dos principais aliados do Irã no Oriente Médio.

Trata-se também da mesma lógica aplicada ao Afeganistão, outra guerra que consumiu trilhões de dólares e terminou com a volta dos próprios talibãs ao poder poucos anos depois da retirada americana. Bertrand resume tudo isso com uma frase devastadora: “a solução do incendiário para o incêndio é um incêndio maior”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados