Paes lidera com folga na Quaest e ajuda Lula, mas há perigos no caminho
Pesquisa indica impacto positivo para Lula no estado, destaca Miguel do Rosário. No entanto, o colunista sinaliza que o bolsonarismo mantém espaço para crescer
A nova pesquisa Quaest sobre o Rio de Janeiro é, antes de qualquer leitura partidária, uma boa notícia para o cidadão fluminense. Os números abrem a possibilidade concreta de o estado virar a página de quase uma década de decadência política, moral e administrativa.
A prática segue sendo o único critério de verdade. Apenas uma eventual administração Paes poderá demonstrar se a página foi de fato virada, ou se trocamos de fachada sem mexer nas estruturas que apodreceram o estado.
Mas o quadro atual é o melhor que se desenha desde 2018.
Eduardo Paes lidera o primeiro turno com folga em todos os cenários. No cenário principal, o prefeito do Rio aparece com 34% das intenções de voto, contra 9% de Douglas Ruas (PL), candidato bolsonarista, e 8% de Anthony Garotinho.
Sem Garotinho na disputa, Paes sobe para 40% e Ruas marca 10%. Em outro cenário sem candidatos pulverizando o centro, Paes registra 39% e Ruas, 11%.
No segundo turno, a vantagem é avassaladora. Paes aparece com 49% contra apenas 16% de Ruas.
Outros 16% estão indecisos e 19% declaram voto branco, nulo ou abstenção. Em todas as faixas etárias e em ambos os sexos, Paes lidera com folga de pelo menos 25 pontos.

Outro dado especialmente relevante para o campo progressista, para Lula e para o Brasil, é que a euforia assassina que tomou o Rio após a Operação Contenção, no Complexo do Alemão e da Penha, em 28 de outubro de 2025, aparentemente se diluiu. A chacina, que terminou com 121 mortos e foi a operação policial mais letal da história do Brasil, havia catapultado Cláudio Castro a 53% de aprovação no levantamento Quaest realizado logo após a operação.
Seis meses depois, o agora ex-governador, declarado inelegível pelo TSE no caso Ceperj, está com 35% de aprovação e 47% de desaprovação. Voltou à mediocridade administrativa de antes, e nem o sangue derramado bastou para sustentar a popularidade emprestada.
Mais grave para o PL: 53% dos fluminenses afirmam que Castro não merece eleger o sucessor que indicar. E 43% querem mudar totalmente o rumo do governo do estado, contra apenas 17% que defendem a continuidade.

O Rio de Janeiro tem cerca de 13 milhões de eleitores, o terceiro maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. A capital, sozinha, reúne aproximadamente 5 milhões de eleitores, o segundo maior colégio municipal do Brasil.
Qualquer movimento eleitoral no estado tem peso desproporcional no resultado nacional.
Em 2018, Bolsonaro destroçou Haddad no Rio, com 67,95% contra 32,05% no segundo turno. Em 2022, mesmo derrotado nacionalmente, manteve vantagem de 13 pontos sobre Lula no estado, com 56,53% contra 43,47%.
Mas o quadro carioca melhorou de forma notável. Na capital, onde Haddad havia perdido por 36 pontos em 2018, Lula reduziu a diferença para apenas 5 pontos em 2022.
Foi um avanço de mais de 30 pontos em quatro anos.
O movimento sugere que o pesadelo reacionário que assolou o Rio nas duas últimas eleições presidenciais pode estar se esvaindo. A combinação do desgaste de Castro, da queda do bolsonarismo no eleitorado fluminense e da liderança consolidada de Paes oferece um cenário em que Lula pode finalmente vencer na capital em 2026, e talvez encurtar drasticamente a desvantagem no estado.
A Quaest é especialmente boa para Lula e seus eleitores no Rio. Há possibilidade real de Benedita da Silva se eleger senadora pelo PT, retomando uma cadeira que a esquerda perdeu há anos.
Em cenários sem Castro na disputa, Benedita aparece em primeiro lugar entre os eleitores progressistas e na disputa pela segunda vaga. E os principais nomes do bolsonarismo fluminense estão metidos em problemas graves.
Alexandre Ramagem, candidato do PL na disputa pela prefeitura do Rio em 2024, foi condenado pelo STF a 16 anos de prisão pela trama golpista. Fugiu para os Estados Unidos pela fronteira da Guiana e foi preso pelo ICE em Orlando neste mês (foi solto dias depois, mas sua situação continua instável).
Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e nome cogitado pelo União Brasil para o governo do estado, foi preso pelo STF e denunciado pela PGR por obstrução de investigação. É acusado de vazar informações da Polícia Federal para o ex-deputado TH Joias, ligado ao Comando Vermelho.
Cláudio Castro renunciou ao governo em 24 de março para tentar uma vaga no Senado e, no dia seguinte, foi declarado inelegível pelo TSE no caso Ceperj.
E Eduardo Bolsonaro segue radicado nos Estados Unidos, articulando sanções e tarifas contra o próprio país para tentar salvar o pai.
O Rio de Janeiro tem um histórico de patriotismo e defesa da soberania nacional que vem de Vargas, passa por Brizola e chega ao próprio Lula em sua melhor fase eleitoral fluminense. A aliança escancarada de Flávio Bolsonaro com Trump e com o governo Netanyahu vai enfrentar resistência considerável no eleitor carioca, que historicamente recusa subordinação a potências estrangeiras.
Paes está se preparando para neutralizar os ataques bolsonaristas. Vai costurar alianças formais e informais com figuras de direita, buscar manter o apoio dos eleitores independentes e de centro e evitar polarização explícita com a base de Flávio.
Mas, quando a campanha esquentar, o principal instrumento de ataque dos bolsonaristas contra Paes será exibir sua aliança com Lula. E aí está a ironia: cada peça de propaganda bolsonarista que mostrar Paes ao lado do presidente vai funcionar, na prática, como propaganda grátis para Lula no estado.
Quanto mais o PL gritar que Paes é aliado de Lula, mais o eleitor que apoia Paes será incentivado a votar em Lula.
Mas há perigos no caminho, e eles aparecem nos próprios dados da Quaest.
A violência é, disparado, a maior preocupação do eleitor fluminense. 58% citam violência como o problema mais grave do estado, contra 13% de saúde e 11% de corrupção.
Entre os eleitores de direita não bolsonarista, o índice chega a 69%. Esse cenário é terreno fértil natural do bolsonarismo, que faz da retórica de mão dura sua bandeira mais audível.
Foi exatamente o que catapultou Castro a 53% de aprovação após a Operação Contenção. A euforia se diluiu, mas o gatilho segue armado.
Basta uma nova chacina, um novo episódio de pânico urbano, e a direita ressurge com fôlego.
Douglas Ruas não pode ser subestimado. Hoje ele aparece com 9% no cenário principal de primeiro turno, número aparentemente modesto.
Mas o detalhe importa: 71% dos eleitores fluminenses sequer conhecem o nome dele, e sua rejeição é de apenas 17%, contra 40% de Paes. Conforme a campanha avançar e o eleitorado bolsonarista consolidar seu candidato oficial, a tendência é Ruas crescer.
Entre eleitores que se autodeclaram bolsonaristas, ele já marca 22% no primeiro turno e 31% no segundo. Entre a direita não bolsonarista, 21% e 33%.
São números que indicam piso, não teto.
Há um dado estrutural que não pode ser ignorado. Quando questionados sobre seu posicionamento político, 35% dos fluminenses se declaram bolsonaristas (16%) ou de direita não bolsonarista (19%).
Lulistas e esquerda não lulista somam 24%. A direita supera a esquerda em onze pontos no estado.
Independentes são 34%, peça-chave da disputa, e a polarização nacional vai puxar boa parte deles para um dos dois lados.
A folga de Paes hoje é real, mas não é estrutural. A vantagem se sustenta sobre uma combinação favorável de fatores conjunturais: desgaste de Castro, candidato bolsonarista ainda pouco conhecido, ausência de polarização explícita.
Quando a campanha esquentar, esses fatores vão se mover, e nem todos a favor.
A pesquisa Quaest é boa para Lula e para Paes, mas não é cheque em branco. O Rio de Janeiro segue sendo um estado conservador na média, com uma preocupação central que joga a favor da direita, um candidato bolsonarista com espaço para crescer e uma elite política nacional do bolsonarismo enraizada no estado.
As campanhas de Paes e de Lula vão precisar ser feitas com a porta da frente trancada.
Subestimar o adversário é o atalho mais curto para a derrota.
Acesse o relatório completo da pesquisa clicando aqui.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



