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Pepe Escobar

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

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O Império do Caos, Pilhagem e Ataques em pânico, temendo ser expulso da Eurásia

Teerã jamais irá se curvar a ditames. A obsessão do neo-Calígula com mudanças de regime – refletida como uma obsessão do OTANistão – continuará existindo.

Donald Trump em Davos, Suíça - 21/01/2026 (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

O planeta inteiro, de uma forma ou de outra, vê-se convulsionado pela última falcatrua do neo-Calígula: por não ter ganho da Noruega seu Nobel da “paz”, parte de sua vingança megalomaníaco-narcisista é abocanhar a Groenlândia da Dinamarca (na língua do Império, quem se importa? Esses escandinavos são todos a mesma coisa).   

 Nas palavras do próprio neo-Calígula: “O Mundo não estará seguro se não tivermos Controle Total e Completo sobre a Groenlândia”.  

 Isso sela o fato de que o Império do Caos se metamorfoseou no Império da Pilhagem e dos Ataques Permanentes.  

 Euro-chihuahuas de várias procedências ousaram despachar um grupelho de condutores de trenós puxados por cachorros para defender a Groenlândia do neo-Calígula.  Não adiantou nada. Instantaneamente, eles foram golpeados com tarifas. O ataque continua em vigor até “a compra da Groenlândia em sua totalidade”.  

 Os Euro-chihuahuas – a exemplo do Sul Global – talvez tenham por fim acordado para o novo paradigma: a Geopolítica do Ataque.  

 O Neo-Caligula não conseguiu mudança de regime em Caracas – e sua miragem petroleira foi refutada até mesmo pelas grandes empresas de energia dos Estados Unidos. Ele não conseguiu mudança de regime em Teerã – mesmo que a CIA, o Mossad e uma variedade de ONGs tenham trabalhado em tempo integral para entregar a encomenda.  

 O Plano C, portanto, é a Groenlândia, essencial para os propósitos imperiais de  lebensraum, ser usada como garantia para a dívida impagável – e sempre crescente – de 38 trilhões de dólares.   

 O que, de modo algum, significa desistir da obsessão com o Irã. O porta-aviões USS Abraham Lincoln está se posicionando no Mar de Omã/Golfo Pérsico, de onde poderia atacar o Irã antes do final da semana. Todos os cenários de ataque continuam em vigor.  

 Supondo-se que as portas do inferno se abram, esse pode vir a se tornar um replay ainda mais humilhante da guerra de doze dias de junho do ano passado, que o culto da morte do Oeste Asiático passou quatorze meses planejando.  

 A guerra de doze dias falhou não apenas como uma operação de mudança de regime, ela engendrou uma amostra  de uma retaliação iraniana tão barra-pesada que Tel Aviv ainda não se recuperou. Teerã, repetidamente, vem expressando de forma explícita que o mesmo destino aguarda as forças do neo-Calígula no Irã e por todo o Golfo Pérsico, caso novos ataques venham a acontecer.   

 O porquê da persistente obsessão com mudança de regime  

 Quanto à miserável e igualmente fracassada operação de mudança de regime das últimas semanas, tivemos a participação do patético palhaço Príncipe  Reza Pahlavi, seguro em seu confortável exílio em Maryland e maciçamente promovido pela mídia estadunidense como uma “figura política unificadora”,  capaz de reavaliar a “catástrofe vivida do domínio clerical”.  

 O neo-Calígula estava ocupado demais para se preocupar com esses detalhes ideológicos. O que ele queria era acelerar os procedimentos – de que outra forma seria? – aplicando a lógica do Império dos Ataques Permanentes: bombardeando o Irã.  

 A narrativa  diversionista, como seria de se prever, pirou. O culto da morte no Oeste Asiático pode ter pedido a Moscou que dissesse a Teerã que não atacaria se o Irã não atacasse primeiro. Como se Teerã  – e Moscou – confiassem em qualquer coisa vinda de Tel Aviv.

 A turminha do Golfo – Arábia Saudita, Qatar e Omã – pode ter pedido ao neo-Calígula que não atacasse, porque isso incendiaria todo o Golfo e geraria repercussões negativas graves”.  

 Mas a verdade – aqui também – foi o TACO. Simplesmente não havia um cenário de ataque que permitisse uma mudança de regime rápida, o único resultado aceitável. Então, voltamos de novo à Groenlândia a presa a ser abocanhada.  

 Bastaram uns poucos dias para desmascarar a maciça campanha de propaganda que grassou por todo o OTANistão sobre  o “enorme número de mortes” entre os manifestantes iranianos.   

 Os números – falsos – vieram do Centro de Direitos Humanos no Irã, sediado, onde  mais seria, em Nova York, e financiado pelo  National Endowment for Democracy (NED), em Washington, infestado de agentes da CIA e de diversas outras entidades de desinformação.  

 Da lista das razões urgentes para a mudança de regime no Irã constam, entre outros, esses quatro elementos principais:  

  1.   Teerã tem que abandonar o Eixo da Resistência que apoia a Palestina por todo o Oeste Asiático.
  2.   O Irã, por se situar  na privilegiada encruzilhada eurasiana de corredores de conectividade comercial e de energia, precisa ter cortadas suas conexões com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS), bem como com as Novas Rotas da Seda chinesas. O que significa implodir de dentro para fora a cooperação orgânica interna aos BRICS, entre Rússia, Irã, Índia e China.  
  3.   O fato de que 90% das exportações iranianas de petróleo vão para a China – sendo pagas em yuan – representa uma grave ameaça ao petrodólar: o anátema supremo. É aí que, em termos do Império dos Ataques Permanentes, o Irã se alinha à Venezuela. É o nosso petrodólar ou nada.  
  4.   O poder de permanência do eterno sonho de um Irã governado por uma remixagem do Xá – com uma polícia secreta como a SAVAK -,  laços estreitos com o Mossad para conter aqueles árabes bárbaros e uma vasta rede de centros de vigilância  gerida pela CIA tendo como alvos Rússia e China.   

 Como enfrentar uma “guerra de mudança de regime”  

 Teerã não se apavora com sanções – ela suportou mais de seis mil delas ao longo de quatro décadas, cujo propósito era estrangular por completo a sua economia e até mesmo levar as exportações de petróleo, na terminologia imperial, a “zero”.  

 Mesmo sobre pressão máxima, o Irã foi capaz de construir a mais ampla base industrial de todo o Oeste Asiático e de investir incansavelmente em autossuficiência e em equipamento militar estado da arte. O Irã, além disso, filiou-se à Organização de Cooperação de Xangai  em 2023 e aos BRICS em 2024 e, para todos os fins práticos, desenvolveu uma economia de conhecimento de primeira linha no Sul Global.  

 Tsunamis de tinta – digital – foram gastos na questão de por que razão a China, até agora, não prestou ajuda suficiente ao Irã contra a pressão máxima colocada pelo Império, por exemplo, apoiando Teerã contra os ataques especulativos ao rial. Isso não teria custado praticamente nada a Pequim, tendo em vista seu nível de reservas externas.   

 O ataque especulativo ao rial talvez tenha sido o gatilho para os protestos surgidos por todo o Irã. É essencial lembrar que os salários de fome foram um dos principais fatores que contribuíram para o colapso da Síria.  

 Cabe a Pequim responder – diplomaticamente – a essa desconfortável pergunta. O espírito dos  BRICS Plus – podem chamá-lo de Bandung 1955 Plus – talvez não sobreviva quando todos sabemos que essa guerra mundial atualmente em curso é, essencialmente, uma questão de recursos e finanças, que têm que ser mobilizadas e empregadas da maneira correta.  

 O que nos leva ao fato de a liderança da China estar examinando seriamente a questão de se vale a pena continuar como uma versão ampliada da Alemanha: embrionicamente autocentrada, fomentando medo e fundamentalmente egoísta em termos econômicos e financeiros. A alternativa – auspiciosa – seria a China criar, dentro dos BRICS, facilidades de crédito de dimensões suficientes para um grupo de nações amigas.  

 O que quer que aconteça a seguir, está claro que o Império dos Ataques Permanentes não apenas continuará sendo ativamente hostil” a um mundo multipolar e multimodal e que essa hostilidade será marinada em uma borra tóxica de ira e vingança, e subordinada ao medo, ao pânico supremo: o Império ser lenta, mas inexoravelmente expulso da Eurásia.

 Entra em cena o Representante Especial da Casa Branca Witkoff – o Bismarck dos negócios imobiliários  – proclamando as ordens imperiais para o Irã:   

  1.   Parem de enriquecer urânio. Fora de questão.  
  2.   Reduzam seu estoque de mísseis. Fora de questão.
  3.   Reduzam aproximadamente 2.000 kg de material nuclear enriquecido (3.67–60 %). Aberto a negociações.  
  4.   Parem de apoiar “representantes regionais”  – como no Eixo da Resistência. Fora de questão.

 Teerã jamais irá se curvar a ditames. Mas mesmo que isso viesse a acontecer, o prêmio – prometido – pelo Império seria a retirada das sanções (o Congresso dos Estados Unidos jamais permitirá isso) e um “retorno à comunidade internacional”. O Irã já é parte da comunidade internacional na ONU, e nos BRICS, OCX e União Econômica Eurasiana, entre outras instituições.  

  De modo que a obsessão do neo-Calígula com mudanças de regime – refletida como uma obsessão do OTANistão – continuará existindo. Teerã não se intimida. Entra em cena o consultor estratégico do presidente do Parlamento Iraniano, Mahdi Mohammadi:

 “Sabemos que estamos enfrentando uma guerra de mudança de regime, na qual a única maneira de alcançar vitória é tornar verossímil a ameaça que, no decorrer da guerra dos 12 dias, embora pronta para o uso, não teve a oportunidade de ser posta em prática: uma guerra de atrito expansiva, focada nos mercados de energia do Golfo Pérsico, com base em um constante aumento do poder de fogo dos mísseis, prolongando-se por pelo menos vários meses”.

 Tradução de Patricia Zimbres

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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