Uma América do Sul turbulenta organiza resistência à “doutrina Donroe” dos EUA
Após o sequestro de Nicolás Maduro, a região volta a enfrentar a lógica monroísta de “zona de influência”, mas divisões internas enfraquecem uma resposta comum
Quase duas semanas após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, a América do Sul segue sob uma nuvem de incerteza. O sentimento de instabilidade aumentou em 16 de janeiro, quando os Estados Unidos alertaram companhias aéreas para “cautela” em partes da América do Sul e Central, citando riscos ligados a possível atividade militar.
O pânico não veio do nada. Ele foi alimentado por declarações provocativas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que disse que cartéis de drogas estariam “governando o México” e sugeriu ataques americanos a alvos em terra. Antes disso, ele já havia mirado a Colômbia, acusando o presidente Gustavo Petro de “exportar cocaína” para os EUA.
Petro responde, depois recua para negociar
Com um continente de mais de 450 milhões de pessoas ainda atordoado pelo sequestro de um presidente em exercício, Petro respondeu de forma direta. “Se vocês detiverem um presidente que muitos do meu povo querem e respeitam, vocês vão soltar o jaguar do povo”, escreveu ele na rede X.
Mais tarde, quando Trump moderou um pouco o tom, Petro também tentou desescalar. Cancelou a ida ao Fórum Econômico Mundial e passou a concentrar energia na reunião prevista com Trump na Casa Branca, marcada para 3 de fevereiro.
A região, agora, prende a respiração para ver o que sairá desse encontro. E é justamente essa atmosfera — de tensão, ameaça e chantagem política — que dá o tom do momento sul-americano: não se trata apenas da Venezuela, mas do recado que se pretende impor ao continente.
Brasil em duas frentes: diplomacia e ajuda humanitária
O Brasil, maior democracia e economia da América Latina, tem atuado em duas trilhas paralelas para apoiar a Venezuela: a diplomática e a humanitária.
O presidente Lula denunciou publicamente a “violação da soberania venezuelana e do direito internacional”. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro concentrou esforços em ações de alívio emergencial. Brasília enviou 100 toneladas de suprimentos médicos a Caracas, onde um grande centro de diálise foi destruído durante a operação militar dos EUA.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, relembrou um episódio simbólico de solidariedade regional: quando houve colapso no fornecimento de oxigênio em Manaus durante a pandemia de Covid-19, a Venezuela enviou 135 mil metros cúbicos de oxigênio para salvar vidas brasileiras.
Esse detalhe importa. Ele mostra que, na América do Sul real — a dos povos e necessidades concretas — a interdependência existe, e a estabilidade de um país é, em alguma medida, a estabilidade de todos.
O recado político: a região não aceitará “reformas” pela força
Além do socorro humanitário, a crise se transformou em mensagem diplomática: a América do Sul não ficará passiva enquanto um país vizinho é remodelado pela força.
Um diplomata brasileiro afirmou que a prioridade do momento é a estabilidade política e institucional na Venezuela e que o Brasil resiste à pressão de capitais ocidentais para “eleições imediatas” ou uma “transição rápida”. Na prática, a posição brasileira sugere que não se deve legitimar o fato consumado de uma intervenção militar travestida de “solução”.
Lula também acionou canais diplomáticos com líderes internacionais — como o primeiro-ministro canadense Mark Carney e o presidente russo Vladimir Putin — para coordenar oposição ao uso da força e reafirmar o respeito à soberania dos países da região.
Unilateralismo em crise, mas não derrotado
A resposta brasileira se ancora, ainda, na rejeição ao unilateralismo. Isso foi reforçado em 17 de janeiro, quando a União Europeia e o Mercosul assinaram um acordo para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. No ato, Lula argumentou que, num tempo de protecionismo crescente, o acordo demonstra que “outra forma de governança global é possível — mais ativa, representativa, inclusiva e justa”.
Há, aqui, um contraste revelador: enquanto um eixo aposta em regras, cooperação e institucionalidade, outro flerta com o “direito do mais forte” e com a ideia de que o hemisfério ocidental seria um quintal a ser disciplinado.
Divisões internas: o calcanhar de Aquiles sul-americano
Mas a capacidade regional de apresentar uma frente unida é corroída por divisões internas. Alguns líderes — como o presidente argentino Javier Milei — se alinham abertamente a Trump. Analistas alertam que isso tende a normalizar retóricas intervencionistas.
Rafael R. Ioris, professor de história latino-americana na Universidade de Denver, avalia que Trump, por impulsividade e crença em ações unilaterais, não seria contido nem mesmo sem governos alinhados. Ainda assim, ter países controlados pela direita oferece uma espécie de “legitimidade” e aumenta a pressão sobre governos que buscam cursos mais autônomos.
Eleições e “pressões sutis”: o risco do laboratório político
Com Brasil e Colômbia indo para eleições decisivas ainda neste ano, o tabuleiro geopolítico se torna mais perigoso. Ioris observa que, se Trump sugere ação militar contra México e Colômbia, sobre o Brasil a pressão tenderia a ser mais sutil: apoio a candidatos de direita e tentativas de desgastar Lula — em especial via desinformação.
Essa hipótese tem peso histórico. Quando a disputa não se resolve por tanques, ela costuma migrar para o terreno das operações psicológicas, da guerra informacional e do financiamento de agendas alinhadas ao centro de poder.
A volta do monroísmo e o lugar da América do Sul no mundo
Com a crise venezuelana, a América do Sul encara um desafio conhecido: a reativação de uma lógica ao estilo Doutrina Monroe, em que o hemisfério é tratado como zona de influência dos Estados Unidos.
Lula tem liderado a reação contra essa moldura. Em artigo publicado no New York Times no domingo, ele escreveu que, num mundo multipolar, nenhum país deveria ter suas relações externas questionadas e que o Brasil não será subserviente a empreendimentos hegemônicos. Afirmou também que o futuro da Venezuela “deve permanecer nas mãos de seu povo”.
A frase não é detalhe: é uma linha de demarcação. Ela afirma um princípio simples — autodeterminação — que, na prática, é o que frequentemente se tenta negar à região.
O que Washington quer: ideologia, recursos e contenção do Sul Global
As relações recentes entre Brasília e Washington mostram possibilidades e limites da resistência. Depois de meses de confronto, o Brasil conseguiu que os EUA recuassem de uma tarifa. Mas poucos observadores apostam em estabilidade duradoura.
Brian Mier, comentarista político baseado em Recife, afirma que, embora o governo Lula tenha avançado na relação com Trump em 2025, os EUA buscam hegemonia ideológica no hemisfério, além de recursos estratégicos como minerais raros e, sobretudo, petróleo.
O pano de fundo, porém, é ainda maior. Na leitura de um diplomata brasileiro, o objetivo real não seria “democracia” nem “petróleo” isoladamente, mas expulsar China e Rússia, reafirmar a dominância do dólar e enfraquecer o BRICS. A Venezuela seria apenas um dos pontos de pressão para empurrar o mundo de volta a um sistema unipolar em que Washington define as regras.
Resistir sem incendiar o continente
O desafio da América do Sul, conclui o veterano diplomata, é resistir à pressão dos EUA sem acender incêndios no continente. Qualquer erro pode marcar a autonomia regional por uma geração.
E é exatamente por isso que o sequestro de Maduro não é “um episódio venezuelano”. É um aviso sobre o que volta a ser considerado aceitável no século 21. A resposta sul-americana, portanto, não decidirá apenas o destino de Caracas: ajudará a definir se o continente seguirá sendo tratado como área tutelada — ou como parte adulta de um mundo multipolar, com soberania, voz e projeto próprio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



