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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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O mimimi dos Bolsonaro’s

Confesso que não compreendo a resistência de sua família diante de um tratamento tão ostensivamente humanizado dispensado ao seu presidiário de estimação

Celas do 19º Batalhão da Polícia Militar no Distrito Federal (Foto: Divulgação)

O sistema carcerário brasileiro é, há décadas, um retrato cruel das desigualdades que estruturam o país. Superlotação, celas insalubres, alimentação precária, falta de acesso à saúde, água e higiene básica compõem a rotina de milhares de presos espalhados pelo Brasil. Em muitos presídios, pessoas dormem no chão, revezam espaço para se deitar e convivem diariamente com ratos, esgoto a céu aberto e violência constante. Trata-se de um ambiente que viola frontalmente a Constituição e qualquer noção mínima de dignidade humana.


Esse cenário é agravado por um dado ainda mais escandaloso: uma parcela significativa da população carcerária sequer deveria estar presa. São homens e mulheres - em sua imensa maioria pretos e pobres - que aguardam julgamento sem que seus processos tenham transitado em julgado, ou que permanecem encarcerados mesmo após já terem direito à progressão ou revisão de pena. A prisão provisória, que deveria ser exceção, tornou-se regra para os invisíveis do sistema.


É nesse contexto que salta aos olhos o contraste com a realidade da cela no presídio da Papuda ocupada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, que incluía, segundo os autos, planos para o assassinato do presidente e do vice legitimamente eleitos. Enquanto o preso comum sobrevive em condições subumanas, Bolsonaro cumpre pena em espaço individual, com estrutura diferenciada, alimentação adequada, acesso facilitado à defesa e cuidados médicos constantes.


A ironia é brutal. Foi o próprio Bolsonaro quem repetiu à exaustão que “bandido bom é bandido morto”, que presídios no Brasil eram “colônia de férias” e que direitos humanos serviam apenas para “defender vagabundos”. Foi ele quem prometeu encarcerar adversários, afirmou que Lula iria para a Papuda - o que nunca ocorreu - e ridicularizou organismos internacionais que denunciavam a barbárie do sistema prisional brasileiro.


Agora, o mesmo homem que desprezou a dignidade humana se beneficia de um tratamento que jamais defendeu para os demais. O mesmo que tripudiou sobre as mais de 700 mil mortes na pandemia, que homenageou torturadores e assassinos da ditadura, que coisificou mulheres, negros e homossexuais em falas públicas, é tratado com um nível de humanidade que sempre negou aos outros.


Confesso que não compreendo a resistência de sua família diante de um tratamento tão ostensivamente humanizado dispensado ao seu presidiário de estimação. Não fosse a herança iluminista que nos legou o Estado de Direito e os direitos humanos - valores que ele próprio tantas vezes atacou - Bolsonaro talvez não fosse tratado como pessoa, mas como coisa, exatamente como fez reiteradamente com aqueles que julgava descartáveis, e da forma como muitos, hoje, prefeririam que fosse tratado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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