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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O mundo caminha para uma catástrofe global

Da devastação em Gaza ao bombardeio de uma escola no Irã e à escalada no Caribe, Washington normaliza a guerra como instrumento de poder

Coluna de fumaça após explosão em Teerã, Irã 6 de março de 2026 (Foto: Stringer/WANA via Reuters)

 Um alerta que o mundo não pode ignorar 

 “Os Estados Unidos não têm estratégia. Trump, sabemos por toda a experiência, é delirante. Ele é psicologicamente instável. Não consegue manter acordos e não tem uma estratégia de longo prazo.” 

A declaração do economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia e uma das vozes mais respeitadas do debate econômico global, não foi feita em um debate acadêmico abstrato. Foi, sim, diante de um cenário concreto de escalada militar. 

Não se trata de um agitador político. Sachs está entre os economistas mais influentes das últimas décadas, tendo atuado como conselheiro de governos, organismos multilaterais e instituições internacionais. 

 Quando alguém com esse peso intelectual descreve o presidente da maior potência militar do planeta nesses termos, a frase deixa de ser provocação e passa a ser um alerta histórico. 

No Irã, uma escola destruída e mais de 160 crianças mortas 

 O mundo acordou para a guerra mais uma vez com uma imagem difícil de esquecer. 

 Um míssil atingiu a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã. 

 Mais de 180 pessoas morreram, a maioria meninas entre sete e doze anos. 

 Corpos de crianças foram retirados dos escombros. Professores e moradores cavavam os escombros com as próprias mãos tentando encontrar sobreviventes. 

 A tragédia provocou indignação internacional imediata. 

 Uma reportagem da agência Reuters revelou posteriormente que investigadores militares dos próprios Estados Unidos consideram provável que o ataque tenha sido realizado por forças americanas, embora a investigação ainda não esteja concluída. 

 Na Organização das Nações Unidas, o caso passou a ser tratado como um possível crime de guerra, já que o direito internacional humanitário proíbe ataques contra escolas, hospitais e outras estruturas civis. 

 Se confirmado, o episódio entrará para a história como um dos ataques mais mortais contra crianças em um único bombardeio nas guerras contemporâneas. 

 Mas o ataque à escola iraniana não é um fato isolado. 

 Ele é parte de um padrão. 

 Gaza: hospitais, escolas e crianças sob as bombas 

 A guerra em Gaza tornou-se o símbolo mais brutal dessa lógica. 

 Bombardeios sucessivos atingiram bairros inteiros. 

 Hospitais foram destruídos. 

 Escolas utilizadas como abrigo por civis foram atacadas. 

 Milhares de crianças morreram. 

 Imagens que circularam pelo mundo mostraram médicos tentando salvar vidas em hospitais sem anestesia e sem equipamentos básicos, enquanto pais carregavam corpos de filhos pequenos retirados dos escombros. 

 Organizações humanitárias passaram a descrever a situação como uma das piores catástrofes humanitárias do século. 

 Mesmo diante dessas denúncias, Washington manteve apoio político, militar e diplomático praticamente irrestrito ao governo de Benjamin Netanyahu. 

Sem esse apoio, a ofensiva dificilmente poderia continuar com a mesma intensidade. 

 A engrenagem da guerra permanente 

 Para compreender o que está acontecendo, é preciso olhar além dos acontecimentos isolados. Existe uma estrutura de poder que sustenta essa política de confrontos sucessivos. 

Ela se apoia em três pilares centrais: 

 • o poder militar global dos Estados Unidos 

• o complexo militar-industrial que lucra com guerras 

• a aliança estratégica entre Washington e o governo israelense 

 Essa engrenagem produz uma política externa baseada na lógica da força. 

 Quando surgem crises internacionais, a resposta tende a ser militar. 

 Quando tensões aparecem, elas frequentemente se ampliam. 

 E quando conflitos explodem, transformam-se em guerras prolongadas. 

 O alerta vindo de dentro do próprio sistema 

 O mais impressionante é que o alerta sobre os riscos representados por Donald Trump não vem apenas de críticos externos. 

 Ele também surgiu dentro do próprio establishment americano. 

 O general Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, descreveu Trump como “a pessoa mais perigosa para o país”. 

 Outro alerta veio do general John F. Kelly, que afirmou que Trump se enquadra na definição de fascista e demonstrava admiração por líderes autoritários. 

 Não são opositores ideológicos. 

 São militares de carreira. 

 Figuras centrais do aparato de segurança nacional americano. 

 Quando personagens desse nível fazem advertências públicas sobre o comportamento de um presidente, o debate deixa de ser partidário. 

 Ele passa a ser institucional. 

 O fantasma que Eisenhower previu

 

A engrenagem que sustenta essa política de confrontos permanentes tem um nome antigo. Complexo militar-industrial. 

 A expressão foi cunhada em 1961 pelo presidente Dwight D. Eisenhower, que alertou para o risco de que a indústria de defesa adquirisse poder excessivo sobre a política do país. 

 Sessenta anos depois, o alerta parece profético. 

 Guerras prolongadas significam: 

 • contratos militares bilionários 

• expansão de bases 

• vendas globais de armamentos 

• fortalecimento político da indústria de defesa 

 A América Latina volta ao radar  

Enquanto o Oriente Médio vive uma escalada permanente, outro movimento começa a surgir no hemisfério ocidental. 

 Os Estados Unidos ampliaram operações militares e de segurança no Caribe sob o argumento da guerra contra o narcotráfico.

Na Venezuela, sequestraram e prenderam o presidente Nicolas Maduro e esposa.

 Algumas dessas operações envolveram ataques contra embarcações “suspeitas”. Dezenas de pescadores caribenhos foram — e continuam sendo — assassinados.

 Em Cuba, o embargo criminoso contra a população da Ilha — que dura 60 anos — foi intensificado. Trum proibiu a Venezuela de fornecer petróleo aos cubanos.  

 Governos latino-americanos reagiram com preocupação. 

Para analistas da região, essas ações podem representar algo maior: o retorno da lógica histórica de intervenção de Washington em seu entorno estratégico. 

 A América Latina aparecer com mais nitidez no tabuleiro geopolítico da Casa Branca. 

A ‘Cúpula de Trump’ prepara ofensiva conservadora na América Latina

O presidente dos Estados Unidos reuniu neste sábado (7), em Miami, os 11 presidentes da direita e da extrema direita de América Latina na Cúpula Escudo da América.  

Entre os líderes dos países vizinhos ao Brasil participam Javier Milei, da Argentina; Santiago Peña, do Paraguai; e Rodrigo Paz, da Bolívia.

Além desses, marcaram presença Daniel Noboa, do Equador; Nasry Asfura, representante de Honduras; Najiby Bukele, de El Salvador; e José Antônio Kast, do Chile.

Lula, do Brasil e Claudia Sheinbaum, do México, disseram não ao convite de Trump. A cúpula é exclusiva para a direita e extrema-direita latino-americano.

Agenda política intervencionista

A cúpula convocada por Trump ocorre em plena guerra contra o Irã, após o sequestro de Nicolas Maduro e do acirramento dos ataques à Cuba.

O objetivo de Trump é o de consolidar um bloco conservador e extremista de direita na América do Sul e na América Central para garantir hegemonia política, econômica e militar.

Trata-se da implementação de uma agenda política intervencionista e da instalação de novas bases militares na região.

Promoção do caos mundial

Em entrevista ao Boa Noite Brasil 247, o professor Elias Jabour comentou o ataque que dos EUA que matou mais de 180 meninas, na Escola Primária Feminina Sharajeh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã.  

Ele citou também o impacto do bloqueio contra Cuba afirmando que as crianças hoje são as maiores vítimas” das restrições econômicas especialmente pela dificuldade de acesso a medicamentos.

A violência contra crianças deve ser compreendida como parte de uma lógica mais ampla de dominação disse Jabour. E defendeu que o debate sobre soberania, BRICS e multipolaridade precisa ser tratado com seriedade estratégica diante da escalada do conflito internacional.

O aviso de Sachs sobre a catástrofe global

Ao analisar essa escalada recente no Oriente Médio, na América Latina e várias partes do planeta, Jeffrey Sachs fez um alerta que está muito além do debate acadêmico. 

 Segundo ele, ou as grandes potências emergentes — especialmente os países do BRICS — “conseguem conter a atual dinâmica de confrontos ou o mundo poderá caminhar para uma catástrofe global.” 

 Não é uma previsão feita por um ativista. É a advertência de um dos economistas mais influentes do planeta. E nunca é demais lembrar que os EUA têm bases militares em mais de 70 países ao redor do mundo: na Europa, Ásia, Oriente Médio, América Latina, África e Oceania.

 Quando escolas são bombardeadas. Quando hospitais se tornam alvos. Quando crianças passam a morrer sob os escombros de guerras que não escolheram. Quando regiões inteiras são invadidas pela potência militar mais importante do mundo, o problema deixa de ser apenas geopolítico. Ele passa a ser civilizatório. 

A pergunta que permanece aberta é simples — e aterradora: até onde essa lógica pode levar o mundo? Se líderes “delirantes e psicologicamente instáveis” controlam a maior máquina militar da história humana, o risco paira sobre o futuro da própria humanidade. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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