“O mundo de volta à barbárie”: a fala profética do general Sanders
A guerra voltou a ser instrumento legítimo da política internacional
“Estamos retornando à barbárie”. Quem lançou o alerta no ano de 2023 não foi um agitador de redes sociais, nem um ideólogo de ocasião, tampouco um colunista apocalíptico. Foi Sir Patrick Sanders, então chefe do Estado-Maior do Exército britânico. Um homem do centro duro do poder militar ocidental. Um profissional da guerra que não fala por impulso. E o que ele disse foi simples, direto e perturbador: o mundo caminha para a barbárie.
Quando um general desse nível escolhe essa palavra - barbárie - não se trata de figura de linguagem banal. Trata-se de diagnóstico. Barbárie, aqui, não é ausência de tecnologia, mas ausência de limites. É a substituição progressiva do direito pela força, da diplomacia pela intimidação, da política pela destruição.
Durante décadas, fomos educados a acreditar que a civilização avançava de modo quase automático. Que os horrores do século 20 haviam ensinado lições definitivas. Que guerras entre Estados eram resquícios de um passado superado. Essa narrativa confortável ruiu. E ruiu em cadeia.
A guerra voltou a ser instrumento legítimo da política internacional - vide Ucrânia, Faixa de Gaza, e agora os delírios neoimperialistas de Donald Trump na sua sanha de se apoderar da Venezuela, Groenlândia, Panamá, Canadá e sabe-se lá mais o que. Civis voltaram a ser alvo “colateral” aceitável. A linguagem da desumanização reapareceu sem pudor. O inimigo deixou de ser um adversário e passou a ser um obstáculo a ser eliminado. Quando isso acontece, a barbárie já começou - mesmo que ainda existam parlamentos, eleições e discursos blá-blá-blás sobre valores universais.
Sir Patrick Sanders ocupou o cargo de Chief of the General Staff (chefe do Estado-Maior do Exército do Reino Unido) entre 2022 e 2024. Em discursos e entrevistas públicas - sobretudo a partir de 2023 - ele alertou que: a ordem internacional baseada em regras está se deteriorando; o mundo entra numa fase de conflitos mais frequentes, prolongados e brutais; democracias liberais não podem mais tratar a guerra como algo remoto; o Reino Unido e seus aliados precisam se preparar para cenários de confronto direto entre Estados (por exemplo, confrontos diretos entre países membros de uma mesma organização internacional como a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), algo impensável para gerações recentes.
A expressão “caminhamos para a barbárie” foi usada por ele de forma metafórica e política, não retórica: significa a normalização da violência, da guerra interestatal e da força bruta como instrumento central da política internacional.
Sua fala repercutiu muito e ganhou peso porque veio do mais alto comando do Exército britânico, não de um analista externo; romperam com o tom diplomático tradicional das Forças Armadas; ecoaram um sentimento crescente no Ocidente após a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e a escalada de tensões globais.
Em síntese, Sanders não estava anunciando uma guerra específica, mas um colapso civilizatório gradual, no qual a lógica da força volta a substituir a do direito.
O mais inquietante no alerta de Sanders não é o tom alarmista, mas o reconhecimento de que as democracias também estão sendo engolidas por essa lógica. Ao normalizar estados de exceção permanentes - Trump acaba de afirmar que a presença norte-americana na Venezuela e o apoderamento ianque do petróleo desse país “não tem prazo para acabar”- , ao aceitar guerras intermináveis como pano de fundo da vida cotidiana, ao trocar direitos por promessas de segurança, o mundo democrático começa a falar a língua que sempre disse combater.
A barbárie não chega de uma vez. Ela se instala aos poucos. Primeiro como exceção. Depois como necessidade. Por fim, como norma. Quando percebemos, já estamos justificando o injustificável, relativizando o inaceitável, explicando o inexplicável.
Para o Brasil e a América Latina, o alerta não é distante. A barbárie global tem efeitos locais: militarização do discurso político, criminalização da pobreza, intolerância elevada a método, violência transformada em espetáculo e política externa reduzida a alinhamentos automáticos. E já que a ordem agora pertence ao mais forte, países periféricos sofrem primeiro - e sofrem mais - quando essa ordem, na esfera internacional, se dissolve.
O que está em jogo, no momento, não é apenas a geopolítica, não é apenas a provável necessidade do desenho de um novo mapa-mundi do poder, mas a própria ideia de civilização. Porque civilização não é produtividade, nem consumo, nem tecnologia, nem crescimento econômico. É limite. É pacto. É a recusa consciente da força bruta como regra do mundo.
Quando um general britânico diz que caminhamos para a barbárie, talvez esteja nos dizendo algo ainda mais incômodo: não é o futuro que nos ameaça - é o passado que retorna. Por que? Porque nunca foi totalmente superado.
E a pergunta que fica não é se a barbárie virá. Ela já está entre nós. A pergunta real é: quem ainda está disposto a resistir a ela - e a que custo?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




