O mundo sem os irmãos Bolsonaro
“Quem irá querer Flávio, Eduardo e Carluxo por perto, se eles ficarem sem mandato e se Michelle se apropriar do brasão da família?”, pergunta Moisés Mendes
Cinco integrantes da família Bolsonaro têm protagonismo como figuras públicas e tentam herdar e levar adiante as ideias e o patrimônio político do chefe preso em casa: Michelle, Flávio, Eduardo, Carluxo e Jair Renan.
É possível prever hoje que somente dois deles venham a ter mandatos, numa inversão total do retrato da família na paisagem brasileira. Não é uma situação tão absurda que não possa ser imaginada a partir de 2027.
Hoje, Flávio seria derrotado por Lula. Carluxo corre o risco de perder para Esperidião Amin a briga por uma vaga ao Senado por Santa Catarina. Eduardo está escondido nos Estados Unidos e tenta ser suplente de senador na chapa do deputado estadual André do Prado, do PL.
Se Prado for eleito e se Flávio vencer a eleição, Eduardo se sentirá forte para voltar ao Brasil e tomará o lugar do senador paulista. É o que está combinado. Ser não der certo, três figuras que até aqui só viveram dos mandatos podem ficar desorientadas.
Michelle assumiria o comando do bolsonarismo, como senadora por Brasília, com Jair Renan, hoje vereador em Balneário Camboriú, na Câmara dos Deputados. Michelle e Jair Renan seriam as vozes da família com força parlamentar.
É o que pode acontecer, considerando-se as atuais circunstâncias. E os filhos poderosos estariam onde? O que aconteceria se Bolsonaro continuar preso e se Flávio, Eduardo e Carluxo ficarem sem mandatos e sem imunidades?
É um cenário novo para uma família antissistema que sempre viveu do sistema e foi por ele protegida. Bolsonaro foi um deputado medíocre. Flávio, conforme levantamento da Folha, em quase oito anos no Senado, que serão completados em dezembro, nunca teve um projeto transformado em lei.
O ex-deputado Eduardo também sempre teve baixa produtividade. O que eles fizeram até agora foi viver dos mandatos, na carona do pai, mas com a força de quem foi eleito, e muito bem eleito. Se ficarem soltos no mundo, sem esse lastro, o que acontecerá?
Que força política terão os irmãos se forem afastados das estruturas de poder de Brasília? Como poderão continuar agindo e influenciando decisões da direita e do bolsonarismo, se Michelle assumir a hegemonia como herdeira do marido?
A madrasta quer e pode se adonar do espaço que os enteados não permitiram que fosse ocupado nem por Tarcísio de Freitas. É a próxima preocupação do clã: ela é quem deve conduzir o brasão da família, inclusive como grife para negócios em várias áreas e produtos, de perfumes a armas.
Os irmãos ficariam perdidos num mundo complicado, porque o cerco da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário seria implacável. Poucos teriam a coragem de abrir a porta e receber em casa a visita de um Bolsonaro fracassado, sem mandato e com o bafo da PF.
Eduardo ficaria para sempre nos Estados Unidos e se conformaria com a condição de americano e golpista de internet. Mas e se Trump perder a maioria na eleição parlamentar de novembro e ficar sem a proteção do Congresso? Quem irá proteger Eduardo com a fragilização do trumpismo?
Flávio, Eduardo e Carluxo podem se transformar nos párias da extrema direita, com o pai preso em casa, sem a retaguarda dos parceiros e sem os vacilos do sistema de Justiça que os tratou até com certa cordialidade durante muito tempo.
Em 2022, o bolsonarismo perdeu a eleição e tentou o golpe. Desta vez, eles tentariam o quê? Fugiriam para a trincheira de Eduardo, para articular dos Estados Unidos a nova sabotagem, como o pai fez quando foi derrotado e fretou um avião da FAB?
É uma situação nova para uma família que sempre teve, até a tentativa de golpe, a proteção dos militares e de setores das instituições da República, da polícia ao Judiciário. Os Bolsonaros sempre foram tratados a pão de ló pelos que, no fim, tinham o poder de decidir, como o STF decidiu livrar Flávio no caso das rachadinhas.
Os irmãos terão de aprender a se virar sem proteção. Como não se sabe o que acontecerá com Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Antonio Rueda, é possível que, pelo menos por algum tempo, venham a ter apenas o suporte das milícias. É pouco, do ponto de vista político. Mas os irmãos terão por muitas gerações a poupança da ajuda que receberam de Vorcaro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




