Os sabotadores da luta contra a escala 6X1 ofenderam a memória de seus ancestrais
“Os imigrantes europeus também foram cobiçados pelos escravistas no século 19”, escreve Moisés Mendes
Os sabotadores da PEC que acaba com a escala 6X1 deveriam ler um trecho do livro publicado em 1962 pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Não é preciso ler o livro todo, mas apenas a parte de ‘Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional’ que trata dos ancestrais de muitos dos dedicados a essa sabotagem.
Fernando Henrique conta que em 1858, quando os imigrantes alemães já estão instalados no Rio Grande do Sul, em terras do que é hoje o Vale do Rio dos Sinos, próximas a Porto Alegre, escravocratas das charqueadas fizeram uma sugestão ao governador da província.
Escreveram uma carta com a seguinte tese. Os alemães, que desembarcavam dos navios no porto de Rio Grande, a partir de 1824, deveriam ter ficado por ali mesmo, na zona sul do Estado. Era ali que ficavam as charqueadas, ao redor de Pelotas.
Sugeriram então que os alemães saíssem de onde estavam e fossem transformados em escravos brancos, em substituição ao escravizados negros, lá na ponta sul. A escravidão ameaçava se esgotar, com o fim do tráfico. Os sinhozinhos imaginavam uma solução.
O governo recusou a oferta, porque subverteria a lógica da própria imigração bancada pelo Império: branquear a região sul do país com pessoas livres e fragilizar o sistema de escravidão.
Deputados com sobrenomes de imigrantes alemães ou italianos, poloneses, açorianos, austríacos, letos e de outras etnias deveriam saber dessa tentativa e entendê-la no contexto do trabalho hoje no Brasil.
Os imigrantes que os escravocratas queriam escravizar ganharam aqui o que os povos originários não tiveram. Nem os indígenas e tampouco os negros tiveram as terras que os chegados recebiam do Império, como contam Gilson Camargo e Dominga Menezes, em ‘Invisíveis – O lugar de indígenas e negros na história da imigração alemã’ (Carta Editora).
Parlamentares descendentes de imigrantes, que lideram o discurso contra o fim da escala 6X1, deveriam ler Fernando Henrique, que escreveu o livro quando tinha 30 anos. É a obra da sociologia que melhor explica o que é o Rio Grande do Sul e que decifra também boa parte da índole escravocrata do Estado.
Leiam o trecho indicado, abordado no capítulo que trata da colonização, e compreendam o seguinte: os escravocratas das charqueadas queriam escravizar os europeus porque viam os imigrantes como seres inferiores, que não tinham onde viver onde nasceram – e alguns não tinham nem onde morrer.
Esses seres expulsos da Europa em transformação deveriam ser escravizados, pela condição de inferioridade e para que se igualassem aos negros que começavam a brigar pela abolição.
Deputados e senadores descendentes dos imigrantes deveriam respeitar a memória dos seus ancestrais. São parlamentares que se negam a entender a História. Sabem, mas fingem não saber que as campanhas abolicionistas provocaram, no final do século 19, as mesmas reações dos sabotadores da mudança na escala de trabalho atual. Que é um componente da estrutura arcaica das relações das empresas com seus empregados.
Diziam no século 19 que o Brasil iria acabar e que os negros não saberiam o que fazer com a liberdade ‘concedida’ por seus donos. Sem os negros, os escravistas queriam os europeus como cativos.
Os ancestrais de bolsonaristas e ‘liberais’ reacionários brancos poderiam ter sido escravos das charqueadas, porque tudo deveria continuar como estava. Em nome da preservação da ordem econômica e de hierarquias sociais.
É esse o desejo de boa parte dessa gente hoje, da sétima geração dos imigrantes. E também é a posição de muitos negros alinhados com a elite branca que explorou seus antepassados.
Queriam deixar tudo como está. É uma traição à história de bravura dos seus ancestrais, que ajudaram a desmontar a escravidão e a construir o que deveria ser o trabalho livre.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




