O partido sem cara e o desafio da democracia
"O artigo publicado por Eugenio Bucci traz uma definição provocadora para um dos fenômenos mais relevantes da política brasileira contemporânea"
A reflexão de Eugenio Bucci sobre o "partido clandestino" da extrema direita e a proposta de "radicalização democrática" defendida por pesquisadores do LAUT lançam luz sobre um dos debates centrais da eleição de 2026.
O partido que existe sem existir
O artigo publicado por Eugenio Bucci no Estadão nesta quinta-feira (12) traz uma definição provocadora para um dos fenômenos mais relevantes da política brasileira contemporânea. Segundo o jornalista, o bolsonarismo funciona como uma espécie de partido clandestino.
Não clandestino porque esteja proibido de existir. Nem porque seja perseguido pelo Estado.
A clandestinidade, neste caso, seria uma escolha.
Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo atravessou sucessivas legendas sem jamais se confundir inteiramente com nenhuma delas. Passou pelo PSL, pelo PL e por outras estruturas partidárias como quem utiliza uma plataforma temporária. O movimento permanece o mesmo. As siglas mudam.
A observação de Bucci ajuda a compreender uma característica central da extrema direita brasileira: sua capacidade de operar simultaneamente dentro e fora das instituições.
Quando lhe convém, apresenta-se como força institucional, disputa eleições, ocupa mandatos, recebe recursos públicos e utiliza a estrutura do sistema partidário.
Quando lhe convém, volta a vestir a fantasia de movimento antissistema, atacando exatamente as instituições que lhe garantem existência política.
Essa ambiguidade talvez seja um dos principais segredos de sua sobrevivência.
O bolsonarismo continua vivo
A condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal e sua prisão por tentativa de golpe de Estado não significaram o desaparecimento do fenômeno político que levou milhões de brasileiros às ruas nos últimos anos.
O bolsonarismo revelou-se maior que seu fundador.
A substituição de Jair Bolsonaro por Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026 demonstra justamente isso.
Não se trata de uma escolha baseada em debates programáticos ou em renovação partidária. Trata-se da tentativa de preservar um projeto político e familiar ameaçado pelo avanço das investigações, pelas condenações judiciais e pelo desgaste crescente de sua principal liderança.
A candidatura do senador surge como instrumento de continuidade.
A missão é clara: manter mobilizada a base política construída pelo pai, impedir a reeleição de Lula e, se possível, reconstruir as condições para uma futura reversão das condenações que atingiram o núcleo central do bolsonarismo.
Nesse sentido, a eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos.
Será também um teste para medir a capacidade de sobrevivência de um movimento que se acostumou a operar nas zonas cinzentas entre a institucionalidade e a contestação permanente das regras democráticas.
A democracia não pode viver apenas na defensiva
Mas existe uma segunda reflexão importante surgida nesta semana.
Em reportagem artigo publicado nesta sexta-feira (12) na Folha de S.Paulo, a jornalista Ana Luiza Albuquerque apresentou as teses do livro Como Desarmar o Autoritarismo no Brasil: Uma Agenda para a Desradicalização, organizado por Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani Sales e Lucas Petroni.
A obra reúne pesquisadores do LAUT — Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo — e parte de uma constatação simples.
A democracia brasileira conseguiu resistir.
Resistiu às ameaças golpistas. Resistiu aos ataques contra o sistema eleitoral. Resistiu à tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023.
Mas resistir talvez já não seja suficiente.
Os autores defendem aquilo que chamam de "radicalização democrática" como resposta ao avanço do autoritarismo.
O conceito não significa radicalismo político.
Significa aprofundar os mecanismos de proteção democrática para impedir que novas aventuras autoritárias encontrem terreno fértil no futuro.
As reformas que o país adiou
A proposta envolve enfrentar questões que o Brasil costuma adiar há décadas.
O papel das Forças Armadas na vida política.
O uso do sistema de Justiça como instrumento de perseguição.
A disseminação industrial de notícias falsas.
A captura do debate público por estruturas de desinformação.
A instrumentalização política da fé.
A fragilidade da educação democrática.
São temas que permanecem no centro da crise brasileira.
Mais importante: são temas que não desaparecerão com uma eventual derrota eleitoral da extrema direita.
O verdadeiro debate de 2026
Durante muito tempo, a principal preocupação dos setores democráticos foi impedir que o autoritarismo chegasse ao poder.
Hoje, o desafio é mais complexo.
É preciso impedir que ele retorne.
A eventual vitória de Lula em 2026, caso se confirme, não encerrará esse ciclo histórico.
Ela poderá representar apenas uma etapa de um processo maior.
O verdadeiro debate que começa a surgir no país não é apenas como derrotar eleitoralmente a extrema direita.
A pergunta mais profunda é como reduzir as condições que permitiram seu crescimento.
Eugenio Bucci chama atenção para a existência de uma força política que muitas vezes prefere atuar sem rosto institucional definido.
Os pesquisadores do LAUT chamam atenção para a necessidade de fortalecer as bases da democracia por meio de uma agenda de desradicalização e aprofundamento institucional.
As duas reflexões convergem para o mesmo ponto.
O Brasil talvez esteja entrando numa nova etapa.
Uma etapa em que a defesa da democracia já não depende apenas da capacidade de resistir aos ataques.
Depende também da coragem de reformar as estruturas que permitiram que eles acontecessem.
Depois de vencer, o que fazer?
Em plena campanha presidencial, essa discussão deixa de ser apenas acadêmica. Ela se transforma em tema de governo.
Seja qual for o resultado das urnas, o país precisará decidir se continuará administrando as crises produzidas pelo autoritarismo ou se enfrentará suas causas estruturais.
A agenda sugerida pelos pesquisadores do LAUT — fortalecida pela reflexão de Eugenio Bucci sobre os limites da democracia diante de movimentos que operam dentro e fora das instituições — aponta alguns dos desafios centrais do próximo ciclo político: consolidar a supremacia do poder civil sobre qualquer tutela militar, combater a indústria da desinformação, fortalecer a educação democrática, proteger as instituições republicanas e ampliar os mecanismos de participação cidadã.
Se Lula for reconduzido à Presidência, esses temas poderão deixar de ser apenas objeto de debate acadêmico para se transformar em questões centrais de governo. Afinal, derrotar eleitoralmente o autoritarismo é uma tarefa. Construir mecanismos para impedir seu retorno é outra, muito mais complexa.
Mais do que uma plataforma partidária, trata-se de uma pergunta histórica que estará presente no centro do debate nacional:
Depois de resistir ao autoritarismo, o Brasil será capaz de fortalecer sua democracia?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




