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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O partido sem cara e o desafio da democracia

"O artigo publicado por Eugenio Bucci traz uma definição provocadora para um dos fenômenos mais relevantes da política brasileira contemporânea"

O partido sem cara e o desafio da democracia (Foto: Gerado por IA)
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A reflexão de Eugenio Bucci sobre o "partido clandestino" da extrema direita e a proposta de "radicalização democrática" defendida por pesquisadores do LAUT lançam luz sobre um dos debates centrais da eleição de 2026. 

O partido que existe sem existir 

O artigo publicado por Eugenio  Bucci no Estadão nesta quinta-feira (12) traz uma definição provocadora para um dos fenômenos mais relevantes da política brasileira contemporânea. Segundo o jornalista, o bolsonarismo funciona como uma espécie de partido clandestino. 

Não clandestino porque esteja proibido de existir. Nem porque seja perseguido pelo Estado. 

A clandestinidade, neste caso, seria uma escolha. 

Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo atravessou sucessivas legendas sem jamais se confundir inteiramente com nenhuma delas. Passou pelo PSL, pelo PL e por outras estruturas partidárias como quem utiliza uma plataforma temporária. O movimento permanece o mesmo. As siglas mudam. 

A observação de Bucci ajuda a compreender uma característica central da extrema direita brasileira: sua capacidade de operar simultaneamente dentro e fora das instituições. 

Quando lhe convém, apresenta-se como força institucional, disputa eleições, ocupa mandatos, recebe recursos públicos e utiliza a estrutura do sistema partidário. 

Quando lhe convém, volta a vestir a fantasia de movimento antissistema, atacando exatamente as instituições que lhe garantem existência política. 

Essa ambiguidade talvez seja um dos principais segredos de sua sobrevivência. 

O bolsonarismo continua vivo 

A condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal e sua prisão por tentativa de golpe de Estado não significaram o desaparecimento do fenômeno político que levou milhões de brasileiros às ruas nos últimos anos. 

O bolsonarismo revelou-se maior que seu fundador. 

A substituição de Jair Bolsonaro por Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026 demonstra justamente isso. 

Não se trata de uma escolha baseada em debates programáticos ou em renovação partidária. Trata-se da tentativa de preservar um projeto político e familiar ameaçado pelo avanço das investigações, pelas condenações judiciais e pelo desgaste crescente de sua principal liderança. 

A candidatura do senador surge como instrumento de continuidade. 

A missão é clara: manter mobilizada a base política construída pelo pai, impedir a reeleição de Lula e, se possível, reconstruir as condições para uma futura reversão das condenações que atingiram o núcleo central do bolsonarismo. 

Nesse sentido, a eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos. 

Será também um teste para medir a capacidade de sobrevivência de um movimento que se acostumou a operar nas zonas cinzentas entre a institucionalidade e a contestação permanente das regras democráticas. 

A democracia não pode viver apenas na defensiva 

Mas existe uma segunda reflexão importante surgida nesta semana. 

Em reportagem artigo publicado nesta sexta-feira (12) na Folha de S.Paulo, a jornalista Ana Luiza Albuquerque apresentou as teses do livro Como Desarmar o Autoritarismo no Brasil: Uma Agenda para a Desradicalização, organizado por Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani Sales e Lucas Petroni. 

A obra reúne pesquisadores do LAUT — Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo — e parte de uma constatação simples. 

A democracia brasileira conseguiu resistir. 

Resistiu às ameaças golpistas. Resistiu aos ataques contra o sistema eleitoral. Resistiu à tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023. 

Mas resistir talvez já não seja suficiente. 

Os autores defendem aquilo que chamam de "radicalização democrática" como resposta ao avanço do autoritarismo. 

O conceito não significa radicalismo político. 

Significa aprofundar os mecanismos de proteção democrática para impedir que novas aventuras autoritárias encontrem terreno fértil no futuro. 

As reformas que o país adiou 

A proposta envolve enfrentar questões que o Brasil costuma adiar há décadas. 

O papel das Forças Armadas na vida política. 

O uso do sistema de Justiça como instrumento de perseguição. 

A disseminação industrial de notícias falsas. 

A captura do debate público por estruturas de desinformação. 

A instrumentalização política da fé. 

A fragilidade da educação democrática. 

São temas que permanecem no centro da crise brasileira. 

Mais importante: são temas que não desaparecerão com uma eventual derrota eleitoral da extrema direita. 

O verdadeiro debate de 2026 

Durante muito tempo, a principal preocupação dos setores democráticos foi impedir que o autoritarismo chegasse ao poder. 

Hoje, o desafio é mais complexo. 

É preciso impedir que ele retorne. 

A eventual vitória de Lula em 2026, caso se confirme, não encerrará esse ciclo histórico. 

Ela poderá representar apenas uma etapa de um processo maior. 

O verdadeiro debate que começa a surgir no país não é apenas como derrotar eleitoralmente a extrema direita. 

A pergunta mais profunda é como reduzir as condições que permitiram seu crescimento. 

Eugenio Bucci chama atenção para a existência de uma força política que muitas vezes prefere atuar sem rosto institucional definido. 

Os pesquisadores do LAUT chamam atenção para a necessidade de fortalecer as bases da democracia por meio de uma agenda de desradicalização e aprofundamento institucional. 

As duas reflexões convergem para o mesmo ponto. 

O Brasil talvez esteja entrando numa nova etapa. 

Uma etapa em que a defesa da democracia já não depende apenas da capacidade de resistir aos ataques. 

Depende também da coragem de reformar as estruturas que permitiram que eles acontecessem. 

Depois de vencer, o que fazer? 

Em plena campanha presidencial, essa discussão deixa de ser apenas acadêmica. Ela se transforma em tema de governo. 

Seja qual for o resultado das urnas, o país precisará decidir se continuará administrando as crises produzidas pelo autoritarismo ou se enfrentará suas causas estruturais. 

A agenda sugerida pelos pesquisadores do LAUT — fortalecida pela reflexão de Eugenio Bucci sobre os limites da democracia diante de movimentos que operam dentro e fora das instituições — aponta alguns dos desafios centrais do próximo ciclo político: consolidar a supremacia do poder civil sobre qualquer tutela militar, combater a indústria da desinformação, fortalecer a educação democrática, proteger as instituições republicanas e ampliar os mecanismos de participação cidadã. 

Se Lula for reconduzido à Presidência, esses temas poderão deixar de ser apenas objeto de debate acadêmico para se transformar em questões centrais de governo. Afinal, derrotar eleitoralmente o autoritarismo é uma tarefa. Construir mecanismos para impedir seu retorno é outra, muito mais complexa. 

Mais do que uma plataforma partidária, trata-se de uma pergunta histórica que estará presente no centro do debate nacional: 

Depois de resistir ao autoritarismo, o Brasil será capaz de fortalecer sua democracia? 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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