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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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A pressão vem em etapas. E se Lula vencer a eleição de 2026?

De 31 de março de 1964 ao 8 de janeiro de 2023, a história mostra que as ameaças à democracia brasileira não começam pelos tanques

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Os acontecimentos das últimas semanas parecem desconexos. 

O tarifaço de Donald Trump. Os ataques ao Pix. As investigações comerciais contra o Brasil. A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro em Washington. As fotografias de Flávio Bolsonaro ao lado do presidente dos Estados Unidos. 

Cada episódio pode ser analisado separadamente. Mas há outra forma de observá-los. Como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o maior país da América Latina justamente quando Luiz Inácio Lula da Silva volta a crescer nas pesquisas e se aproxima da reeleição. 

Não é necessário afirmar que existe uma intervenção em curso para reconhecer que os sinais merecem atenção. A história da América Latina ensina que as grandes pressões externas raramente começam de forma explícita. Elas costumam vir em etapas. 

A lição esquecida de 1964 

Para compreender por que tantos brasileiros observam com preocupação os acontecimentos atuais, é preciso recordar como começou a crise que desembocou no golpe militar de 1964. 

Ao contrário da narrativa construída posteriormente, a ruptura democrática não surgiu de repente na madrugada de 31 de março. Ela foi preparada durante anos. Primeiro veio a construção do medo. O governo de João Goulart passou a ser apresentado como uma ameaça à religião, à família, à propriedade privada e à própria sobrevivência da democracia. O fantasma do "comunismo ateu" foi transformado numa poderosa ferramenta de mobilização política. 

Setores empresariais, parte da grande imprensa, organizações anticomunistas, grupos conservadores e lideranças religiosas passaram a difundir a ideia de que o Brasil caminhava para uma revolução comunista. 

O terço como “arma” contra o comunismo e a desagregação familiar. 

As Marchas da Família com Deus pela Liberdade de 1964, lideradas pelo Padre Peyton, foram a expressão mais visível desse processo e ocorreram em São Paulo capital, com 500 mil pessoas; no Rio de Janeiro, a maior de todas, com 800 mil pessoas; em Curitiba, no Paraná; em Salvador e Alagoinhas, na Bahia; e em Aracaju, Sergipe.  

O slogan do Padre Peyton era “A Família que Reza Unida Permanece Unida”. Ele lançou a “Cruzada do Rosário em Família”, em 1945 nos EUA, e trouxe para o Brasil nos anos 60. Esse slogan virou o carro-chefe das “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”. A ideia era difundir o terço como “arma” contra o comunismo e a desagregação familiar. 

Em nome da defesa da fé cristã, milhares de brasileiros foram mobilizados para apoiar a derrubada de um presidente legitimamente eleito. Hoje se sabe que a participação dos Estados Unidos foi muito mais profunda do que se admitia na época. Documentos posteriormente revelados mostraram o apoio político e logístico de Washington aos conspiradores.  

A Operação Brother Sam deixou navios, combustível, equipamentos militares e apoio estratégico de prontidão para auxiliar os golpistas caso houvesse resistência ao movimento que derrubou Goulart. Quando a campanha de medo, a pressão política e a desestabilização institucional cumpriram seu papel, veio a etapa seguinte. Os tanques ocuparam as ruas. 

O resultado foi uma ditadura que durou 21 anos, suprimiu eleições diretas, censurou a imprensa, perseguiu opositores, institucionalizou a tortura, sequestrou e matou pelo menos 435 pessoas, a maioria jovens entre 20 e 30 anos de idade, e deixou marcas profundas na democracia brasileira. 

Impedir o avanço da Teologia da Libertação 

Durante a Guerra Fria, a luta contra o chamado "comunismo ateu" tornou-se um dos principais instrumentos de mobilização política dos Estados Unidos no continente. A defesa da fé cristã passou a ser apresentada como inseparável da luta contra governos reformistas, nacionalistas ou de esquerda. 

Nas décadas seguintes, a influência de igrejas pentecostais originárias dos Estados Unidos cresceu rapidamente em vários países latino-americanos, especialmente no Brasil. O fenômeno possui raízes religiosas genuínas e múltiplas causas sociais.  

Mas também coincidiu com uma disputa ideológica continental em que setores conservadores viam com preocupação o avanço da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base e das pastorais populares comprometidas com transformações sociais profundas. A religião transformou-se em campo de disputa política. E continua sendo. 

De 1964 ao 8 de janeiro de 2023 

Os brasileiros costumam olhar para 1964 como um capítulo encerrado da história nacional. Talvez não seja. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 demonstrou que a ruptura institucional continua sendo uma possibilidade concreta quando setores políticos, militares e econômicos passam a rejeitar o resultado das urnas. 

A diferença é que, desta vez, o golpe fracassou. 

Hoje já não se trata de hipótese ou interpretação política. A Justiça brasileira concluiu que houve uma articulação destinada a impedir a posse e o exercício pleno do mandato do presidente eleito, e empossado, Luiz Inácio Lula da Silva. Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão. Inelegível, lançou seu filho mais velho para ser candidato em seu lugar nas eleições de outubro de 2026. Generais de quatro estrelas, ex-ministros militares e integrantes do núcleo político da conspiração também receberam condenações severas. 

A democracia brasileira sobreviveu. Mas a pergunta histórica continua inevitável. E se tivesse dado certo? A resposta obriga o país a olhar para trás. 

A diferença decisiva estava fora do Brasil 

Em 1964, a ruptura democrática não começou com os tanques. Começou muito antes. Foi precedida por campanhas de medo, denúncias de uma suposta ameaça comunista, mobilização religiosa, pressão empresarial, apoio de setores da imprensa e articulação internacional. Quando João Goulart foi derrubado, a infraestrutura política da ruptura já estava pronta. 

Em 2023, alguns desses elementos reapareceram. Novamente surgiram discursos que colocavam em dúvida a legitimidade das eleições. Novamente apareceram setores defendendo intervenção militar. Novamente a ideia de uma ameaça existencial à nação foi utilizada para justificar medidas excepcionais contra a democracia. A diferença decisiva estava fora do Brasil. 

Em 2022 e 2023, a administração de Joe Biden deixou claro que reconheceria o resultado das urnas brasileiras. O governo norte-americano reafirmou publicamente o apoio às instituições democráticas do país e ao processo eleitoral conduzido pela Justiça brasileira. Esse fator não explica sozinho o fracasso da tentativa final de golpe do 8 de janeiro. Mas foi determinante para impedir que o golpe avançasse. 

Nas eleições de 2026, o presidente dos Estados Unidos é o líder da ultradireita global, Donald Trump, partidário explícito da extrema-direita brasileira e foi ele que “nomeou” o candidato Bolsonaro da vez, o 03 de Jair, seu “representante” no Brasil. 

O que aconteceu com o Brasil? 

O Brasil assusta Washington não por sua fragilidade, mas por sua força potencial. É a maior economia da América Latina. Integra os BRICS. Mantém uma relação estratégica com a China. Defende uma ordem internacional multipolar. Possui recursos naturais que despertam interesse global e exerce liderança regional. 

Para Donald Trump — líder da ultradireita global e comandante da maior potência militar do planeta — um Brasil alinhado a essa visão de autonomia estratégica representa um desafio geopolítico. É nesse contexto que a aproximação entre o trumpismo e o bolsonarismo ganha relevância. 

O Brasil tornou-se importante demais para ser ignorado. E independente demais para não despertar preocupação em setores que ainda enxergam a América Latina como área natural de influência dos Estados Unidos. 

O novo pretexto 

Durante décadas, o combate ao comunismo serviu como justificativa para inúmeras intervenções na América Latina. Depois veio a guerra às drogas. Em seguida, a guerra ao terror, sobretudo após o atentado que derrubou as Torres Gêmeas do World Trade Center, no 11 de setembro de 2001. 

Hoje, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas levanta uma questão inevitável. Até onde Washington pretende levar essa definição? 

O governo brasileiro combate essas facções há décadas. Mas a experiência internacional mostra que a simples rotulação de grupos como organizações terroristas amplia a margem de atuação política, financeira, diplomática e até militar dos Estados Unidos. 

É cedo para prever consequências. Mas não é cedo para observar os sinais. 

Lula cresce. E agora? 

A pergunta talvez não seja apenas o que acontece se Lula vencer. A pergunta pode ser anterior. O que acontece se Lula continuar crescendo? O que acontece se as pesquisas passarem a apontar uma vitória cada vez mais provável do atual presidente? 

Nesse contexto, episódios recentes deixam de parecer fatos isolados. A classificação do PCC e do Comando Vermelho como narcoterrorismo. O tarifaço. Os ataques ao Pix. As investigações comerciais. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro em Washington. A aproximação crescente entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. 

Tudo isso pode ser interpretado como acontecimentos independentes. Mas também pode ser lido como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o Brasil antes mesmo da eleição. 

O que torna 2026 diferente 

Em 2022, Lula enfrentou Jair Bolsonaro sob um ambiente internacional em que Washington reconhecia antecipadamente a legitimidade das eleições brasileiras. 

Em 2026, o cenário é outro. A extrema direita brasileira mantém canais diretos com a Casa Branca. Eduardo Bolsonaro transformou Washington em sua principal base política. 

Flávio Bolsonaro busca em Trump não apenas apoio simbólico, mas respaldo internacional. E o governo norte-americano passou a adotar medidas que aumentam a pressão sobre o Brasil em diversas frentes. 

Não se trata de afirmar que a história irá se repetir. A história nunca se repete exatamente. Mas o ambiente político e geopolítico da eleição de 2026 é muito diferente daquele que permitiu a derrota do bolsonarismo quatro anos atrás. 

De Lacerda para Getúlio  

A jornalista Andreia Sadi foi direta ao analisar na quinta-feira, 4 de junho, no Estudio i do Globo News, a movimentação de Eduardo e Flávio Bolsonaro. Segundo a leitura de Sadi, apresentada no debate político, a estratégia da família Bolsonaro não se limitaria a tentar impedir uma vitória eleitoral de Lula. O objetivo seria mais amplo: criar as condições para contestar o resultado, dificultar a posse e, se necessário, inviabilizar a governabilidade de um eventual novo mandato. 

“Impedir que Lula suba novamente a rampa do Palácio do Planalto”. 

A hipótese dialoga com a história política brasileira. Em 1º de junho de 1950, Carlos Lacerda publicou na Tribuna da Imprensa uma das frases mais conhecidas da tradição golpista nacional: 

"O sr. Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar." 

A frase expressa desta forma explicita o radicalismo da oposição udenista à volta de Getúlio Vargas ao poder. E sintetiza a postura de setores da UDN (União Democrática Nacional), liderados por Lacerda, que defendiam impedir Vargas em qualquer etapa: candidatura, eleição, posse e até governo — inclusive por meios extralegais, como o golpe. Isso revela a disposição desses grupos de bloquear o trabalhismo e a volta de Vargas ao poder, mesmo contra o processo democrático.  

 A frase atravessou gerações porque resume uma lógica recorrente. Primeiro tenta-se impedir a candidatura. Se a candidatura prospera, tenta-se impedir a vitória. Se a vitória ocorre, tenta-se impedir a posse. Se a posse acontece, tenta-se impedir o governo. 

É esse roteiro que volta a assombrar o Brasil em 2026. 

A extrema direita tenta impedir Lula de vencer. Se Lula vencer, tentará deslegitimar o resultado. Se tomar posse, tentará impedir que governe. 

A diferença é que, agora, a extrema direita não atua apenas dentro do Brasil. Ela conta com conexões explícitas em Washington e com o respaldo político de Donald Trump, líder da ultradireita global e aliado direto do bolsonarismo. 

Os sinais de alerta 

A pergunta não é se o 31 de março de1964 ou o 8 de janeiro de 2023 voltará a acontecer. A história nunca se repete exatamente. A pergunta é outra. 

O que acontece quando uma democracia que acabou de sobreviver a uma tentativa de golpe precisa enfrentar uma nova eleição presidencial sob um ambiente internacional muito mais favorável às forças que contestaram o resultado das urnas da última vez? E com os mesmos candidatos: Lula contra Bolsonaro, dessa vez o filho 03 de Jair, inelegível e condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, com Lula eleito e já empossado no cargo de Presidente da República.  

Os brasileiros não precisam acreditar que a história irá se repetir para compreender a gravidade da questão. Basta recordar uma lição que a América Latina aprendeu muitas vezes da forma mais dolorosa possível. 

As grandes rupturas democráticas raramente começam com os tanques. Quando eles aparecem, quase sempre o trabalho principal já foi feito. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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