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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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O prato está menor e o corpo está sob vigilância

Sara York analisa como alimentação e corpo se tornaram territórios de vigilância moral, desigualdade social e disputa de poder

O prato está menor e o corpo está sob vigilância (Foto: Divulgação )

Em fevereiro de 2025, a influenciadora Maya Massafera provocou ampla repercussão ao reagir às críticas sobre sua magreza afirmando que "gente rica", a elite e o mundo da moda preferem corpos muito magros, enquanto "gente mais simples" tenderia a valorizar corpos mais cheinhos. Ao defender a perda de 25 quilos como escolha pessoal e cultural, sua fala foi lida como elitista e expôs como os padrões corporais seguem atravessados por classe social, capital simbólico e hierarquias de valor.

Meses depois, no BBB26, a atriz Solange Couto protagonizou nova controvérsia ao comentar de forma agressiva a alimentação de uma colega, consolidando sua imagem como uma espécie de "fiscal da comida". O episódio evidenciou como o ato de comer pode se transformar em alvo de vigilância, julgamento e constrangimento público.

Embora situados em universos distintos - redes sociais e televisão de massa - , ambos os casos revelam como fenômeno estrutural uma transformação da alimentação e do corpo em territórios morais permanentemente avaliados. Comer, engordar, emagrecer ou desejar determinados corpos deixa de ser experiência íntima para se tornar marcador de classe, status e pertencimento cultural.

Este artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre práticas alimentares, fome e formas contemporâneas de controle do comer. Articula dados sobre insegurança alimentar com dispositivos midiáticos, econômicos e biomédicos que moldam o consumo e os ideais corporais. Analisa, ainda, como a farmacologização do emagrecimento - por meio de medicamentos como Ozempic e Mounjaro - se insere em um cenário no qual milhões seguem enfrentando a fome concreta.

Comida é, simultaneamente, biologia e cultura. Em um mercado global de estética, saúde e performance, comer ultrapassa a função nutritiva e passa a envolver disputas simbólicas, políticas e afetivas. Comer é também negociar poder, pertencimento e legitimidade social.

Fome, Insegurança Alimentar e Qualidade Nutricional

Apesar de avanços pontuais, a fome permanece uma das maiores tragédias contemporâneas.

Em 2024, cerca de 8,2% da população mundial - aproximadamente 673 milhões de pessoas - viviam em situação de fome. No Brasil, embora o país tenha deixado oficialmente o Mapa da Fome da ONU em 2025, mais de 60 milhões de brasileiros ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar.

Entretanto, como destaca a nutricionista Aryene Zangale Vieira, é fundamental distinguir comer de nutrir-se. Estar fora do Mapa da Fome não significa, necessariamente, estar bem alimentado.

Segundo a especialista, um ponto pouco discutido é a qualidade da alimentação disponível, especialmente em populações de baixa renda. Em muitos territórios, predominam os chamados "desertos alimentares", onde há escassez de alimentos frescos e abundância de produtos ultraprocessados. Nesses contextos, a oferta é limitada e, quando existe, frequentemente é composta por alimentos com baixo valor nutricional e alto teor de aditivos.

Aryene ressalta que a ausência de nutrientes essenciais e o consumo excessivo de ultraprocessados podem gerar impactos significativos na saúde. Muitos desses produtos atuam como desreguladores endócrinos, interferindo no equilíbrio hormonal e favorecendo o ganho de peso. Isso desmonta a ideia simplista de que "se está acima do peso é porque come bem". A realidade é mais complexa: é possível ingerir calorias em excesso e, ainda assim, permanecer desnutrido.

A fome contemporânea, portanto, não é apenas ausência de comida. É também precarização nutricional, Aryene Zangale Vieira atende na Rua Dois de Dezembro, 78, Flamengo - RJ.

Moralização do Comer e Biopolítica

Cercear significa limitar, tolher, impedir. Quando o acesso à comida é negado por desigualdades econômicas, cerceia-se o direito à vida. Quando o comer é moralizado e ridicularizado, cerceia-se a dignidade com novas manobras e outras intensidades.

A sociedade contemporânea produz uma pedagogia silenciosa do apetite onde comer pouco é virtude; comer muito é falha moral; controlar-se é sinal de sucesso. Essa lógica constrói sujeitos permanentemente em dívida com seus próprios corpos e sob olhar alheio.

Trata-se de uma forma do que chamamos de biopolítica, o poder não apenas administra populações, mas ensina como cada indivíduo deve gerir sua fome, seu desejo e sua aparência - como vimos nas entrevistas de Michel Alcoforado em sua pesquisa de doutorado sobre "A vida dos endinheirados brasileiros".

A Indústria do Corpo Gerenciável

Medicamentos como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida), originalmente indicados para o tratamento do diabetes tipo 2, tornaram-se símbolos da nova economia do emagrecimento. Ao reduzirem o apetite e acelerarem a perda de peso, passaram a circular como ferramentas de gestão corporal.

Essas tecnologias, além de operarem no campo médico, elas produzem subjetividades e reforçam a ideia de que o corpo deve ser constantemente corrigido e otimizado. Enquanto o mercado desses sintéticos (agonistas de GLP-1) movimenta bilhões de dólares, milhões de pessoas ainda lutam para garantir o básico, a comida suficiente e de qualidade.

Surge, então, uma pergunta ética incontornável, quem pode gerir o próprio corpo com tecnologia? E quem permanece lutando apenas para comer?

A fome estrutural convive com tecnologias sofisticadas de controle do apetite. A escassez material divide espaço com a abundância vigiada. Entre o prato vazio e a caneta emagrecedora, constrói-se a mesma lógica, a de que os corpos devem ser administrados, corrigidos e hierarquizados. Não se trata apenas de combater a fome, mas de enfrentar a cultura que transforma o ato de comer em culpa, o corpo em projeto inacabado e a vida em planilha de desempenho performático. Imagine que alguns usuários de fato tratam quem come como "seres de outro planeta". Eles mal se percebem tão dependentes quanto.

Enquanto não reconhecermos que comida é direito, afeto, cultura e dignidade, continuaremos produzindo uma sociedade onde alguns aprendem a passar fome - e outros, a sentir vergonha de comer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.