O PT e o fim da Esquerda contemporânea

Sou capaz de vislumbrar somente uma alternativa ao PT e à Esquerda brasileira (aliás, ao conjunto da sociedade excluída dos processos, melhor dizendo). A Reforma dos Meios



Engraçado! Passei horas tentando encontrar um título que definisse bem a síntese desse texto antes mesmo que o próprio texto existisse em si; que se materializasse uma ideia factível no mundo das coisas; que preenchesse a tábua vazia; que ocupasse um espaço junto à folha branca. Mas isso é sintomático. Tamanho é o desespero do clamor por ser ouvido que nos perdemos em meio à seara da dúvida.

Bom! Resolvo, por conseguinte, imprimir, para começo desse singelo diálogo, os títulos que se apresentaram possíveis ao texto, à escolha, finalmente, de um (sob a tentativa de resumir a lógica posta e imposta no lócus da realidade brasileira contemporânea). Seriam estas as epígrafes gritantes na dissertação: "O Congresso Nacional posto não me representa"; "Carta de um jovem decepcionado com a política"; "A necessidade de uma reinvenção da esquerda"; "A Reforma Política e o fracasso de uma sociedade"; "Após a derrota da Reforma Política, resta a Reforma dos Meios"... e por aí vai!

Vamos, portanto, propor uma dialogia diante do escopo que se encontra em cada título que se engendra nessa ideia, pois o que importará mesmo e tão mais é a órbita do pensamento diante do fato existente que tem humilhado a política brasileira, achincalhado a democracia e, sobretudo, debochado da "cara do povo" (exatamente por nossa simplicidade na compreensão das coisas necessárias a nós mesmos, por, de tão prematuros no exercício da interação democrática, não sabermos o que queremos realmente).

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Começo, então, por dividir o sentimento que me é possível diante de temas tão caros às civilizações coerentes – que o Brasil tenta, puxa!, retroceder – com aventuras de Parlamentares irônicos (como é o caso do Deputado Eduardo Cunha e seus "bobos da Corte").

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Um dos temas diz respeito à Redução da Maioridade Penal. Veja: os pupilos do Eduardo Cunha no Congresso Nacional se aproveitam de três fatos transversais na sociedade para consolidar um retrocesso civilizatório. Senão, vejamos: 1) há de fato uma tipologia de violência praticada por jovens abaixo da casa que o concebe, digamos, "maduro" (e isso ninguém nega, embora o cruzamento de estatísticas, os indicadores contextuais para que esse fenômeno exista seja parcial e pedagogicamente alinhavado pela grande mídia e demais setores conservadores da sociedade); 2) a sociedade, em sua maioria, deseja, veja: deseja a redução da maioridade penal; 3) a sociedade não estudou o tema e suas relações interpostas diante do fato social, e, portanto, não é capaz de produzir uma intervenção maturada a respeito, sendo emprenhada e motivada por desejos acerca de uma hipotética tranquilização de suas vidas. Ou seja, vence o caráter passional, destarte, contrariando o previsível lógico que é a ausência histórica do Estado quanto às políticas para a juventude e ao pertencimento de direitos das classes mais baixas – sem oportunidades.

Antes de continuar, deixa eu fazer um pedido. As pessoas têm de parar de achar que entendem de política; e buscar entender mesmo dela, pois estão enganando a gente lá no Congresso Nacional. Não percebe? Fazer uma crítica requer uma leitura refletida e repetida até a fundação de conceitos coerentes. Entende?

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Voltando: os lacaios do Eduardo Cunha no Congresso Nacional são pré-astutos, ou astutos derivados do maquiavelismo cunhado em interesses fisiológicos revelados (um parêntese: isso me faz lembrar de quando era adolescente e via a discrição dos maconheiros – sem intenção pejorativa, apenas didática – que fumavam seu "bagulho" disfarçadamente para não serem vistos pela polícia, pelos pais, pelos vizinhos, ou mesmo pela velhinha que passava com sua sacola vindo da feira; hoje perderam a "vergonha"). Os deputados estão rindo à toa de seus representados e, dessa forma, são capazes de votar uma "pseudo" Reforma Política que na verdade travestiu a Antirreforma Política (consolidou o domínio empresarial nas campanhas, o que enche as burras de dinheiro de políticos e empresários corruptos – somente os que são corruptos).

Perguntarão: mas que isso tem a ver com os títulos propostos ao texto? Era o pré-texto para dizer que a Esquerda brasileira e, de forma bastante particular, o PT, infelizmente fracassou. Faltou alguma coisa. Faltou alguma outra tipologia de investimento. Faltou algum elemento bem mais subjetivo (intrínseco à modalidade cultural) que de políticas públicas. Faltou a construção de outro imaginário e de conscientização política. Faltou.

Ora, é inegável que o Brasil, 4º pior país pra se viver no Planeta até o ano de 2003, visto sua desigualdade inquietante, melhorou nos governos de esquerda de Lula, Dilma e companhia. Inegável que os jovens tiveram acesso, finalmente, a direitos e ingressos no conhecimento tão fundamental à disputa da vida. Inegável que os rincões do Nordeste, das periferias do Sudeste, das comunidades tradicionais do Norte, dos agricultores familiares do Sul, dos excluídos do Centro-Oeste, com os governos do PT viram alguns direitos baterem em suas portas. Há alimento onde antes era barriga vazia e miséria. Há água onde antes reinava só a seca e a não-produção consequente. Há emprego onde antes havia a dor e as lágrimas da família pela ausência do mínimo à sua sobrevivência. É inegável. No entanto, o PT cochilou... e as Elites (de uma Direita imunda e sectária, apenas a sectária é imunda) brotaram mais verdes, tal como as raízes do Cerrado que, mesmo diante do fogo que as atingiu, se guardam embaixo da terra aguardando o momento exato (clima) para renasceram ainda mais fortes.

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Vocês questionarão que ainda não está sendo possível empreender a ideia do texto com sua epígrafe. Enquanto o Eduardo Cunha e seus "meninos maluquinhos" se esbaldam das vitórias que são somente suas e que, no longo prazo, fará a sociedade "se dar mal", muito mal (vão acordar e ver isso, ah, vão!), a Esquerda acuou; está "nas cordas". Simplesmente incapaz de reagir a contento e ao tamanho da necessidade nacional. A Esquerda foi derrotada no round anterior, nesse está tonteada e sob o enorme risco de ir a nocaute no próximo. Consequência: perderá o Brasil e seu povo que voltará a ser colônia de si mesma, de uma Elite egoísta que teima segregar a maior parcela da sociedade com suas sub-políticas mendicantes.

O PT foi construído nas bases sociais, no chão das fábricas, nos sindicatos que representam os trabalhadores, na Igreja (de líderes então insatisfeitos com as injustiças, estas que Cristo tanto denunciou em seu tempo), da Academia (com professores de vanguarda, onde a pesquisa, a ciência e o ensino tinham o valor, antes de tudo, humanista). Enfim. O PT nasceu das massas para representar as massas, ser uma instância a serviço da institucionalização das massas. Mas ao combinar o jogo da governabilidade, esqueceu-se de convidar as massas para, não somente subsidiar os processos, contudo, fazer parte efetiva da sua implementação. Essas mesmas bases sociais (embora empoderada em grande medida das novas políticas públicas), não se sentiram pertencentes ao modelo de governança de suas próprias políticas. E isso causa o quê? APATIA.

O que chamo por apatia tem envolta uma lógica sistêmica. Se antes o PT era Socialista, todavia, diante da antipatia poderosa do Capitalismo que disputa um formato de sociedade quase impermeável: o consumo, as necessidades humanas materialmente convencidas etc., o Partido se viu como uma ferramenta instrumental dos movimentos sociais e populares (as agendas periféricas), doravante, pouco capaz de absorver todas as políticas das pessoas minorizadas (ausente do Orçamento e perdido na Burocracia), a Esquerda se ajustou às disputas meramente eleitorais (ocupar um espaço de Poder para perceber o que era possível ser feito). Denota dessa relação que os representados se verão aparteados e, portanto, angustiados, diminuídos na opção do projeto de Poder, dessa forma apáticos (até o instante de não mais se fazerem fisicamente presentes; se desligarem de seus referentes institucionais/institucionalizados). Não se trata de se desgarrar das fileiras internas do Partido, contudo, do risco de se desacreditar da mobilização cotidiana. Ou a Esquerda se reinventa (com alguns arquétipos instrumentais fundantes na sociedade), ou será extinta. É preocupante!

Em síntese: por muito tempo a Esquerda sonhou disputar a hegemonia implicante na sociedade. Depois, adaptando-se à realidade lógica, se conformou em disputar uma parcela do projeto posto. A seguir, com dificuldades, disputou o discurso na proposição de uma nova dialética presente. Hoje o que quer a Esquerda é o mínimo: ter o direito de coexistência na harmonia e generosidade que devem ser próprias (o lugar comum) da democracia.

Vamos apresentar uma ressalva necessária e justa. Não é somente culpa da cúpula do PT e do Governo esse fator decisório. A disputa covarde dessa correlação de forças (covardes) impôs aos dirigentes uma Agenda mediana. Tipo: eu cedo um pouco na sua agenda tradicional (conservadora) e você me empresta um pouco de Poder para que eu cuide de verdade dos pobres. São escolhas políticas. O PT fez uma escolha de ingresso na esteira do Poder. E o Poder no Brasil sempre transitou por veias Podres. Daí imprimimos outra acepção: a SOBREVIVÊNCIA.

Dessa forma, sou capaz de vislumbrar somente uma alternativa ao PT e à Esquerda brasileira (aliás, ao conjunto da sociedade excluída dos processos, melhor dizendo). A Reforma dos Meios. Se antes a Esquerda desejava essa reforma em função da democratização da imprensa e dos conteúdos; para o estímulo pedagógico e formação de consciências; para o respeito à diversidade estética e de opiniões; para o fomento e a integral distribuição de culturas, hoje, na alvorada do século XXI, já se torna crucial à sobrevivência democrática, sob pena da (antes velada exclusão democrática, hoje a) perseguição implacável, injusta e cruel a estes democratas que também sonham um Brasil melhor.

Mas calma! Sem grandes sustos. Vamos exigir somente o básico, sem expropriações de direitos, entretanto, o respeito à partilha dos canais de comunicação e as múltiplas vozes. Para a Reforma da Mídia, somente exigir que se cumpra a Constituição Federal, feita inclusive por eles, os membros das Elites. Talvez eles não tenham percebido direito o que fizeram em 1988, porém, fizeram constar na Carta Magna o Artigo 220, § 5º (e dispositivos seguintes) o IMPEDIMENTO de monopólio e de oligopólio da mídia. E o que é isso? Simples assim: não podem 7 ou 8 famílias deter todo o controle da difusão dos conteúdos, da cultura, da informação. É PROIBIDO! Todos têm de fazer parte. Os brancos e os negros; os evangélicos e os budistas; os pobres e os ricos, enfim, todos, suas ideias e festas e fatos precisam estar compartilhados em igual condição de transmissão, de espaço diante das pessoas (que escolherão democraticamente o que desejam assistir, ver, debater).

Ou fazemos isso, ou mais que o fim do PT, da Esquerda (que muitos desejam); mais que a convenção e a cristalização da irracionalidade institucional (portanto, a consolidação de um Estado Autoritário, por excelência) a partir do deboche de suas excelências, será, sobremaneira, o fim da razoabilidade civilizatória brasileira... e, óbvio, da DEMOCRACIA!

Entendemos isso? Ou é preciso DESENHAR?

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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