O que discutir sobre o tuíte da jornalista?

Que bom que a jornalista sabe usar a variante padrão da língua portuguesa. Ainda assim, isso não lhe dá o direito de ser deselegante com ninguém. É uma pena vê-la cair em uma das formas de dominação que está aí no Brasil há anos

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Após marcante entrevista coletiva de Lula da Silva (10.03), prestigiado até pela atenção da CNN americana, Cecília Flesch, apresentadora da GloboNews, fez um deboche porque o ex-presidente pronunciou “adevogado” (aqui). E tal caçoada se deu no Twitter, da seguinte forma: “E os ADEVOGADOS???”, postou Cecília, “riso” que carrega uma boa dose de classismo. 

Que bom que a jornalista sabe usar a variante padrão da língua portuguesa. Ainda assim, isso não lhe dá o direito de ser deselegante com ninguém. É uma pena vê-la cair em uma das formas de dominação que está aí no Brasil há anos. 

Não consta que a jornalista tenha ruborizado ao escrever com letras maiúsculas a dita palavra com vogal suarabáctica (“ADEVOGADOS???”), mas que logo apagou e se justificou granjeando sensatez: “Deletei um tweet meu, porque voltamos ao extremismo. Não tô disposta pra isso”. Ah, sim: ela escreveu mansinho, na sorrelfa. A dimensão do problema é hermenêutica.

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O tuíte foi uma provocação barata. Será fácil demostrar. Se a jornalista não estava, como é mesmo?, “disposta pra isso” [para o extremismo], cresce o grau de complexidade...! A questão é: o que motivou o tuíte? Era apenas classificar como “erro de português”? O problema é que o rastilho de pólvora fez uma choldra se lambuzar na pulsão de morte. Nos “comentários” (note as aspas, por favor), alguns ecoaram xingamentos de “analfabeto”, “burro” e “ignorante”. O objetivo é um só: desumanizar.

Quem assistiu à entrevista coletiva de Lula ou ao menos a parte dela deve ter percebido que ele, bem-humorado, arrancou risos da plateia de jornalistas presentes no ambiente da conferência, ao lembrar eventuais “escorregões” na gramática, mas que progrediu porque não falava mais “menas laranjas”, como nas eleições de 1989.

Lula da Silva sempre foi alvo de preconceito injustificado. Ao lado do problema do preconceito linguístico, já se ajunta outro. Este vem dos diálogos da Operação Spoofing. Lembro rapidamente: na Lava Jato, em uma delação que não tinha confirmação nenhuma, mesmo assim uma procuradora da República disse que seria “divertido detonar um pouquinho mais a imagem” de Lula – que, nos diálogos, ela chama de “9” (“nine”, nove em inglês, em referência ao fato de o ex-presidente ter apenas nove dedos nas mãos, por ocasião de uma acidente de trabalho), alusão grotesca e desumana.

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Mas voltemos. Em toda e qualquer língua há variações. Fina discussão, a dos metaplasmos na língua portuguesa, notadamente a anaptixe (ou suarabácti), tipo especial de epêntese. O falante do português adiciona uma vogal entre consoantes que formam grupo, como em ad[e]vogado, de uso corrente. 

Se há metaplasmo no discurso de Lula, isso pode significar diversos fatores, inclusive baixa/introdutória escolaridade. É um absurdo ver a patrulha do jornalismo conservador caçar suarabáctis no discurso do ex-presidente e deixar oculto seu talento político e indiscutível inteligência. 

Há de se dizer que não existe perda de informação. Lula da Silva alcança seu objetivo, que é o da precisão descritiva dos problemas sociais, dispondo de coerentes proposições, soluções por tentativas, de modo a contrapor os argumentos da oposição. Líder político testado, ex-metalúrgico, é na comunicação que Lula seduz. 

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Falar “certo” não é sinônimo de inteligência. Se a língua está em constante mutação, inteligência é saber respeitar o diverso, as variações linguísticas. Inteligência é ter jogo de cintura para se comunicar com qualquer pessoa, em qualquer situação, seja qual for a região do país, do sul ao norte. 

A sociedade brasileira é cheia de preconceito contra pessoas com incipiente escolaridade. Estamos em que o ex-presidente Lula se expressa muito bem e possui amplos horizontes. O que se quer deixar assentado é que, o discurso de Lula, que não tem nada de simples, é o discurso de quem tem percepções claras sobre a complexa textura social brasileira. Ah, e como é bom ouvir quem entende o Brasil. 

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