O que Fanon continua a nos ensinar sobre a luta antirracista
No contexto brasileiro, as ideias de Fanon ajudam a desmontar o mito da democracia racial
No recesso do fim de 2025, fui conferir a mostra “Imaginação Radical – Frantz Fanon”, em cartaz no Museu das Favelas. As obras retratadas lá me deixaram reflexivo, não apenas sobre as artes visuais expostas, mas sobre o trabalho desse grande intelectual, que revolucionou o pensamento antirracista nos últimos cem anos, tanto na academia quanto na militância.
Por que Frantz Fanon continua sendo um pensador central para compreender o racismo estrutural e as lutas antirracistas no século XXI? A resposta passa por sua capacidade de revelar que o racismo não é apenas um conjunto de atitudes individuais, mas uma engrenagem que organiza economias, instituições, subjetividades e relações de poder. Fanon mostrou que a colonização produziu não só desigualdades materiais, mas também formas duradouras de inferiorização psicológica e hierarquias raciais que seguem operando no presente.
Essa leitura permanece extremamente atual quando observamos como desigualdades históricas continuam se reproduzindo nas políticas públicas, no mercado de trabalho e no sistema de justiça. Ao evidenciar que o racismo molda tanto o mundo material quanto o imaginário social, Fanon nos ajuda a compreender por que, mesmo em sociedades que se afirmam democráticas, a desigualdade racial segue estruturando oportunidades, violências e reconhecimentos.
Um dos aspectos mais potentes de seu pensamento é a articulação entre a dimensão subjetiva do racismo, seus efeitos sobre identidade, autoestima e experiência cotidiana e suas bases políticas e econômicas. A noção de “epidermização da inferioridade” ilumina como o racismo opera de forma íntima e profunda, marcando corpos e consciências. Essa chave interpretativa é essencial para compreender fenômenos contemporâneos como a violência policial, a segregação urbana e a persistência de estigmas raciais que atravessam o cotidiano da população negra.
Trazendo o eixo do debate para o Brasil - No contexto brasileiro, as ideias de Fanon ajudam a desmontar o mito da democracia racial. Ao compreender o racismo como uma verdadeira tecnologia de poder, fica evidente que a desigualdade racial não é um desvio do sistema, mas um de seus pilares centrais. A cor da pele continua determinando acesso a direitos, exposição à violência e representação pública, revelando como a harmonia racial tantas vezes celebrada serviu, historicamente, para mascarar hierarquias profundas e naturalizadas.
Essa leitura dialoga de forma direta com as experiências da população negra nas periferias e favelas brasileiras. Fanon nos permite enxergar como a violência cotidiana (policial, econômica e simbólica) funciona como mecanismo de controle e produção de corpos considerados descartáveis. Esses territórios são frequentemente tratados como zonas de exceção, onde o Estado se faz presente sobretudo pela força, administrando a vida por meio de lógicas de contenção. Nada disso é acidental: trata-se de uma política que define quem pode viver plenamente e quem deve permanecer à margem.
É nesse ponto que iniciativas culturais ganham enorme relevância. A exposição “Imaginação Radical – Frantz Fanon” cumpre um papel importante ao traduzir reflexões densas em experiências sensíveis, visuais e espaciais. Ao tornar concretas discussões sobre identidade, violência, memória e emancipação, a mostra aproxima o pensamento fanoniano do cotidiano, mostrando que ele não pertence apenas ao universo acadêmico, mas atravessa a vida social brasileira.
O que uma visita a uma exposição dessas proporciona - Visitar esse tipo de espaço em grupo, em excursões escolares, coletivos comunitários ou grupos de estudo, potencializa ainda mais a experiência. Fanon sempre destacou que a consciência crítica se constrói no encontro, na troca e na ação coletiva.
Para escolas, esse contato abre caminhos para trabalhar cidadania, história, arte e desigualdade de forma integrada. Para famílias com crianças e adolescentes, desde que o diálogo seja conduzido com cuidado e abertura, trata-se de uma oportunidade valiosa para conversar honestamente sobre raça, território e pertencimento, estimulando empatia e imaginação política.
Por fim, o legado de Fanon continua inspirando práticas educativas, políticas públicas e ações coletivas voltadas à justiça racial. Ele nos lembra que enfrentar o racismo exige tanto transformações estruturais quanto a formação crítica das consciências.
Na educação, isso significa valorizar saberes negros e questionar hierarquias coloniais. Nas políticas públicas, implica enfrentar desigualdades históricas como efeitos de uma estrutura racializada, e não como problemas isolados. Já nas ações coletivas, Fanon nos convoca à organização comunitária e à construção de novos horizontes políticos, em que a dignidade seja um princípio inegociável e a imaginação radical, um instrumento de transformação.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

