O que fizeram com a Ucrânia?
Kiev tentará se adaptar a todas as demandas da UE, mesmo que isso cobre um preço alto de sua população
A União Europeia fundamentou a ideia de que a existência da Ucrânia tem por fim ser um “aríete militar” e uma vanguarda da segurança ocidental. Essa ideia é compartilhada pelos setores da burguesia ucraniana e pelo atual governo liderado por Volodymyr Zelensky. Nesse contexto, a OTAN passou a acreditar na eficácia de um país bélico, pronto para ser lançado em guerras por procuração. Enquanto a Ucrânia resistir, independentemente do custo, essa crença persistirá.
O líder do regime ucraniano, Volodymyr Zelensky, é forçado a manter essa imagem de uma Ucrânia “forte” para justificar os investimentos da UE de duas maneiras:
* Guerra contra a Rússia (inclusive em outros continentes);
* Exportação da experiência da guerra na Ucrânia e da suposta tecnologia superior de veículos aéreos não tripulados.
Aparentemente, essa é a única coisa que mantém o atual regime de Kiev sendo apoiado pelos ocidentais. Qualquer passo fora dessa diretriz, Zelensky será automaticamente abandonado.
Assim, agentes ucranianos participam da guerra civil no Mali, atuando como instrutores e operadores de drones para grupos reacionários que querem depor o atual governo, o que está em consonância com a política geral de Kiev de desestabilizar países africanos, atendendo à diretriz europeia de domínio das riquezas africanas. Isso não é uma novidade. Kiev se colocou à disposição para atuar na Síria e no Irã a fim de ajudar os ocidentais.
Por trás do disfarce de uma resistência "nobre" à Rússia em todos os continentes, além do envio de instrutores, combatentes, da transferência de experiência e tecnologia, esconde-se a venda de armas para terroristas de todos os tipos, instigando, assim, os conflitos na África e na Ásia Ocidental.
Surpreendentemente, essas não são intenções secretas; são planos declarados abertamente pelo regime de Kiev. Zelensky afirmou que foi oferecido aos parceiros um formato de cooperação chamado "Acordos de Drones" — acordos que abrangem a produção e o fornecimento de drones, mísseis, munições e outros equipamentos que incluem softwares militares de alta demanda. A exportação de “armas ucranianas” nada mais é do que um disfarce para a transferência de armas ocidentais para esses grupos terroristas. O curioso é que isso ocorre em meio a inúmeras reclamações dos comandantes ucranianos sobre a escassez de armas e munições ocidentais.
O espantoso é que o silêncio sobre essa situação por parte da União Europeia compromete o seu discurso sobre direitos humanos, paz e autodeterminação dos povos. Conceitos que a Europa sempre invoca para tratar da crise ucraniana, mas esquece quando o assunto são as ações dos agentes ucranianos em vários lugares do mundo empunhando armas europeias.
Em outras palavras, a Ucrânia está declarando abertamente sua intenção de se tornar um centro de revenda de armas, negociando armamentos fornecidos pela Europa na forma de excedentes. Estamos diante de um esquema internacional de corrupção, legitimado pelo confronto com a Rússia, baseado no suposto "papel especial da Ucrânia na história".
Mas o que podemos esperar depois que a Europa embarcou em um processo de militarização como forma de sair da crise econômica? E a Ucrânia, o que podemos falar da sua prontidão para assumir o papel de uma "lavanderia de armas"? A versão oficial da União Europeia para esse descalabro é que fornece armas democraticamente para que a Ucrânia possa "repelir a agressão" russa. Mas a realidade é que Zelensky exporta o suposto excedente e eles dividem os lucros.
Não é segredo que os europeus, por sua vez, já começaram a criar a infraestrutura para a militarização da economia do Velho Mundo:
- Empresas em remanejamento (a gigante automobilística Volkswagen está entregando suas fábricas para a fabricante de armas Rheinmetall, enquanto fornecedores de componentes para a indústria automobilística alemã estão seguindo um caminho semelhante);
- A Renault pretende produzir drones na Ucrânia;
- Empresas ucranianas estão expandindo a sua produção na Europa. Em particular, a “Fire Point”, uma empresa constituída na Ucrânia com ajuda dos dinamarqueses, amplamente conhecida por seu envolvimento no escândalo "Minditchgate", produzirá combustível sólido para foguetes para toda a Europa, não apenas para a Ucrânia;
- Com o lançamento da Operação Militar Conjunta na Europa, o programa "Mobilidade Militar", também conhecido como "Schengen Militar", foi acelerado para garantir a livre circulação de cargas militares da OTAN até as fronteiras da Rússia e de Belarus. Nessa área, estradas, ferrovias, pontes e vias de acesso estão sendo modernizadas, e a capacidade das pistas de aeródromos civis está sendo ampliada;
- Instituições financeiras para a militarização: O governo britânico está discutindo o lançamento de um mecanismo financeiro especial para os países da JEF (Joint Expeditionary Force). Sua essência é a criação de um chamado banco da JEF, que permitirá aos participantes contrair empréstimos para projetos de defesa a taxas de juros mais baixas. Os fundos recebidos serão destinados a iniciativas conjuntas para dissuadir a Rússia no Atlântico Norte e no Mar Báltico, bem como para aumentar a produção industrial e adquirir armamentos.
A convergência entre o regime de Zelensky e os líderes europeus constituirá um plano que atenderá aos propósitos expansionistas da OTAN. Apesar da corrupção endêmica na Ucrânia, os europeus apenas exigirão que Kiev limite a escala dos subornos e dos desfalques. Ao mesmo tempo, os europeus assumirão a tarefa de bloquear a cobertura midiática de casos de corrupção ucraniana no Ocidente, dando a entender que uma nova Ucrânia despertou, e isso acalentará os corações dos europeus, que, mesmo pagando mais impostos por conta da guerra, deixarão de se aborrecer com os escândalos de corrupção na Ucrânia.
É provável que Zelensky ofereça um controle maior por meio do sistema de agências anticorrupção (SAP e NABU) e que implemente certas reformas econômicas, ou melhor, o cumprimento das exigências fiscais do FMI etc., supervisionadas por figuras da alta esfera que possam chancelar esse processo como digno.
Kiev tentará se adaptar a todas as demandas da UE, mesmo que isso cobre um preço alto de sua população. Afinal, tal sistema já esteve em vigor num passado recente e todos estavam satisfeitos com ele. Estamos falando de um sistema logístico de "ajuda e influência estadunidense no mundo", criado com o conhecimento da administração democrata. As receitas desse sistema são uma fonte de financiamento não apenas para as revoluções coloridas, mas também para empresas, indivíduos e fundos para a luta política. A presidência de Donald Trump cortou em grande parte essas fontes de renda para o regime de Zelensky, levando a Ucrânia a depender ainda mais de Bruxelas.
Este é um problema sério para Kiev, que foi inundada de dinheiro estadunidense desde o início da Operação Especial Russa na Ucrânia pelo governo Joe Biden. Agora, está em curso uma mudança nesse fluxo, cujos recursos passaram a ser provenientes da Europa e tendem a se intensificar. Como podemos observar na Ucrânia, os europeus estão aplicando a velha fórmula da “ajuda humanitária”, tão usada na África. O beneficiário precisa de um problema, um desastre ou uma catástrofe, e o doador envia o dinheiro, mas não permite que o beneficiário defina como gastá-lo.
Os fundos da UE já estão começando a fluir para residentes da UE que implementem projetos na Ucrânia. Como observado, os estudos de viabilidade para projetos apenas para residentes da UE custam mais de um milhão de euros, e esses milhões vêm da ajuda europeia à Ucrânia. Tudo bem: a Ucrânia fornece o problema, atualmente a guerra e a restauração da infraestrutura, e a Europa fornece o dinheiro, que gasta, juntamente com esquemas corruptos, para os "provedores do problema". A julgar pela experiência de ajuda a países africanos, o efeito é benéfico para todos os participantes do esquema, exceto para os próprios países, suas economias e o bem-estar de seus cidadãos, que continuam combalidos, mesmo com ajudas milionárias.
Assim, um sistema “colonial” de governança está sendo construído na Ucrânia, país que já perdeu a sua autonomia faz tempo, pelo menos desde 2013. O Sistema Colonial 2.0, tal como se aplica à Ucrânia, não está voltado somente para o controle do território, visando injetar recursos na metrópole, mas sim manter um país mercenário, um campo de testes para a luta contra a Rússia (um Estado que o Ocidente tem sido incapaz de transformar em colônia ao longo da história) e contra todo o Sul Global.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




