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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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O que há em um sobrenome

Entre prestígio e rejeição, o peso político e simbólico dos sobrenomes revela escolhas, constrangimentos e estratégias de poder

Flávio Bolsonaro (Foto: Edilson Rodrigues/Ag. Senado)

Meu sobrenome é Carvalho, o da Noeme é Oriá. O sobrenome do Leonardo é Attuch, o do Kanavillil é Rajagopalan, o da Fernandona é Montenegro e o da Fernandinha é Torres. Com raríssimas exceções, todo mundo tem nome e sobrenome. Existem os sobrenomes simples, comuns e também aqueles finos e aristocráticos. Seja como for, um Capuleto não é melhor que um Montecchio, da mesma forma que um Silva não é menor que um Orleans e Bragança, por exemplo.

O ramo da onomástica que estuda nomes, sobrenomes e apelidos é chamado de antroponímia, cabendo aos que pesquisam essa temática investigar como surgem os nomes, de onde vêm e o que significam. Sim, pois a maioria dos nomes e sobrenomes possui significação, o que possibilita que se compreendam as identidades culturais, familiares e sociais. Muitos sobrenomes se tornaram universais a partir daquilo que seu/sua dono/dona produziu e ofereceu ao mundo. Neste contexto, como não lembrar de sobrenomes como Hemingway, Faulkner, Lispector, Proust, Kahlo, Bowie, Dylan e Beauvoir?

E se não sabemos o nome, muito menos o sobrenome da pessoa que cuidava da Finca Vigia, daquela que pintou La Casa Azul, de azul, ou ainda da pessoa que preparava as madeleines para o deleite do protagonista de Em Busca do Tempo Perdido, é porque, fictícios ou não, foram considerados menores e invisibilizados.

Se a pessoa “não se esforçou o suficiente e ignorou que todos temos 24 horas”, como dizem os gurus da extrema direita brasileira, provavelmente seu nome não batizará ruas, avenidas, hospitais, praças ou escolas.

Falando sobre nomes, lembro que não conheço nenhum registro de pessoas que tenham, excetuando-se os casos de doenças, esquecido seus nomes e/ou sobrenomes. Mas existem aquelas pessoas que, por razões pessoais, mudam de nome e também se recusam a ser reconhecidas por um sobrenome que lhes causa vergonha ou constrangimento, como sobrenomes de golpistas, corruptos, torturadores e assassinos, por exemplo. Esta brevíssima reflexão me veio à mente quando percebi que a mídia comercial brasileira tem evitado grafar o sobrenome Bolsonaro toda vez que se refere ao Flávio, candidato à Presidência, filho do ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado. Assim, dos mesmos criadores da série “uma escolha difícil”, o referido candidato tem sido mencionado apenas como Flávio, o Flávio sem sobrenome. Ora, mas se Bolsonaro é um sobrenome “tão importante para o país”, por qual razão o Flávio sem sobrenome não grita aos quatro ventos que seu sobrenome é Bolsonaro, e não exige que a mídia que o apoia faça o mesmo?

Afinal, o que há no sobrenome Bolsonaro que impede o Flávio sem sobrenome de externalizar seu apreço e orgulho pelo “legado” do próprio pai? Seria vergonha, constrangimento ou o mero cancelamento de um sobrenome que causa náuseas na maioria da população brasileira? Seja como for, o Flávio sem sobrenome segue em campanha de braços dados com os donos do poder, esses com nome e sobrenome, cagando e andando para o povo brasileiro, enquanto abana, no melhor estilo “I love you”, o rabinho para o habitante da Casa Branca. Nada de novo no front, uma vez que o fruto não cai longe da árvore.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.