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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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O que o Brasil não sabia sobre mulheres que passaram pela cirurgia intima de afirmação de gênero

Dossiê Redesignadas (INAMUR/UFSC, 2026) é o primeiro mapeamento nacional sobre as repercussões da cirurgia de redesignação genital em mulheres trans brasileiras

Bandeira trans (Foto: Antra/Divulgação)
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A pergunta que o sistema de saúde brasileiro sempre preferiu não fazer é a que responde esse dossiê: como estão, de fato, as mulheres trans que passaram pela cirurgia de redesignação genital? Não no sentido clínico estreito, não o olhar do protocolo sobre o corpo aberto na mesa — mas como elas estão? O que sentem? O que precisam? O que o Estado ofereceu e o que deixou cair?

O Dossiê Redesignadas, publicado no último dia maio de 2026 pelo Instituto Nacional de Mulheres Redesignadas (INAMUR) em parceria com a UFSC, é a resposta. E ela incomoda nas duas direções: incomoda quem apostava que a cirurgia seria invariavelmente traumática, e incomoda quem apostava que a medicina resolveria tudo.

Quem são elas

As 144 participantes do questionário autoaplicável têm entre 22 e 76 anos, com média de 40. Maioria negra (56,2%), majoritariamente solteira (63,2%), com acesso ao ensino superior (63,8%) — um dado que destoa do perfil geral da população trans brasileira e merece leitura com cautela: quem consegue chegar à cirurgia já atravessou inúmeros filtros. Quase metade (45,8%) iniciou sua transição social e/ou hormonal ainda na adolescência, entre 13 e 18 anos. A maioria só conseguiu realizar a cirurgia entre os 31 e os 44 anos. Mais de três décadas de distância entre o reconhecimento de si e o acesso ao próprio corpo.

O que a cirurgia mudou

O dado mais contundente do dossiê não é sobre complicações, é sobre autoestima: 86,1% das participantes relataram que sua autoconfiança aumentou muito após a cirurgia. 79,8% estão satisfeitas ou muito satisfeitas com o resultado geral. 82,7% disseram que a cirurgia contribuiu positivamente para a sensação de segurança em espaços públicos e muitas dizem que a sensibilidade é muito maior.

A vida social melhorou, as interações ficaram mais leves. O corpo passou a ser habitado de outro modo. O que a literatura chama de alinhamento entre identidade e anatomia ou corpo e alma, as mulheres chamam, em entrevistas pelo país, de renascer.

Mas o dossiê não permite uma leitura simples. Porque 52% dessas mesmas mulheres seguem vivenciando transfobia frequentemente ou às vezes após a cirurgia. A rua continua sendo o lugar do perigo (50% dos relatos de violência). O trabalho e os serviços de saúde também (42,3%). E para 25,6% delas, a violência vem da própria família.

A cirurgia não resolve a transfobia, ela oferece recursos internos para enfrentá-la e isso vem de área e são complexidades diferentes.

O que o sistema de saúde não faz

Aqui o dossiê fere ao apresentar o dado que 64,6% das participantes enfrentaram alguma complicação pós-cirúrgica — deiscência de sutura (abertura de pontos) em 54,8% dos casos, estenose vaginal (estreitamento ou encurtamento do canal) em 46,2%. Complicações esperadas e manejáveis, desde que haja acompanhamento. E é precisamente aí que o SUS falha sistematicamente.

As mulheres pedem, nas nuvens de palavras que emergem das entrevistas: profissionais capacitados, acompanhamento, humanização, escuta, respeito, são palavras básicas dessa entrega. Pedidos que não deveriam precisar ser feitos em 2026!

O Ambulatório Trans aparece como o serviço mais buscado para saúde mental (55,6%) — porque é o único espaço onde muitas se sentem não ameaçadas. A Unidade Básica de Saúde, porta de entrada teórica do sistema, ainda é evitada. O desrespeito ao nome social, o despreparo técnico, a objetificação do corpo trans em consultas que deveriam ser de cuidado: tudo isso aparece documentado, com voz, com detalhe, com raiva justa. E números que desaparecem, como no Rio de Janeiro, casos de quem estava numa fila e a fila desapareceu! 

A curiosidade que poucos esperavam

O dossiê tem um achado que surpreende até quem trabalha na área: 80,6% das participantes têm alguma prática religiosa ou espiritual. E as religiões de matriz africana — umbanda e candomblé somadas — aparecem em 20,1% das respostas, mais do que o evangelismo (6,2%). São tradições onde, como analisa o próprio dossiê, o corpo dissidente não é obstáculo à fé, mas pode ser dimensão integrada à expressão espiritual.

Outro dado que merece atenção: entre as 28 participantes que usaram silicone líquido industrial (SLI), 50% tiveram complicações. 71,4% não conseguiram removê-lo. 82,1% não tiveram acompanhamento médico adequado. O SLI não é escolha — é o que resta quando o sistema fecha a porta. A burocracia do processo transexualizador, a escassez de serviços habilitados, a discriminação dentro das unidades de saúde: são esses fatores que empurram mulheres para uma substância industrial aplicada em condições clandestinas.

O que este dossiê é, além de pesquisa

O Dossiê Redesignadas foi construído por mulheres trans redesignadas que foram treinadas como pesquisadoras comunitárias e foram a campo em suas próprias regiões. A coordenação de uma das etapas do estudo anterior só foi possível, escrevem as autoras, depois que a pesquisadora responsável se identificou como mulher trans ao telefone. Quando ela disse quem era, a resposta do outro lado foi: "sério?! É tão bom saber disso."

Esse é o dado mais político do documento inteiro, não um número ou uma frase. O espanto de uma mulher trans diante da existência de outra mulher trans dentro da universidade.

O dossiê não apenas produz dados — ele afirma que mulheres trans redesignadas são sujeitas produtoras de conhecimento. Que suas histórias não precisam mais ser contadas por quem as observa de fora. Que o saber sobre seus corpos, suas cirurgias, suas dores e suas alegrias pertence, em primeiro lugar, a elas.

O Brasil leu e agora precisa responder.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.