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José Machado

Economista pela USP e pós-graduado pela Unicamp. Filiado ao PT, foi deputado estadual constituinte em 1986. Foi prefeito de Piracicaba e deputado federal

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O regozijo odioso dos vendilhões da pátria

Governadores e senador de direita elogiam ação militar dos EUA e geram reação sobre soberania

Brasília-DF - 02/12/2025 - Os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Júnior (PSD-PR), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Romeu Zema (Novo-MG) e Cláudio Castro (PL-RJ), além do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), manifestaram-se nas redes sociais, aplaudindo o sequestro do presidente da Venezuela e o bombardeio contra Caracas e outras cidades venezuelanas, perpetrado pelas forças militares norte-americanas, a mando de Donald Trump.

Não deveríamos nos surpreender com o posicionamento desses senhores, afinal de contas, eles são quem são. Mas que isso causa uma espécie de indignação, ah, lá isso causa. Com exceção de Cláudio Castro, que almeja uma cadeira no Senado, os demais são postulantes à presidência da República. O fato de serem todos eles assumidamente de direita não os exime de terem uma postura condenatória à atitude dos Estados Unidos, que é frontalmente agressiva e desrespeitosa à soberania e à autodeterminação dos povos, princípios inscritos no Direito Internacional e na Carta das Nações Unidas. Além disso, ao apoiarem tal atitude, acabam por legitimar o intento neocolonialista de Trump sobre a América Latina, que se arvora no direito de intervir em qualquer país do nosso continente, inclusive pela força das armas, desde que sirva aos interesses norte-americanos.

Para evidenciar que existe uma direita mais perspicaz, trago aqui o posicionamento da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen: "A soberania dos Estados nunca é negociável, independentemente do seu tamanho, do seu poder ou do continente em que se encontram. Ela é inviolável e sagrada. A renúncia a esse princípio equivale a aceitar 'nossa própria servidão'... e isso seria um 'perigo mortal' para a humanidade". E acrescenta: "Resta-nos apenas esperar diante dessa situação que a palavra seja devolvida o mais rápido possível ao povo venezuelano. É a ele que deve caber o poder de definir, soberana e livremente, o futuro que deseja para si como nação".

Trump, ao se pronunciar em entrevista coletiva sobre o fato ocorrido, não corou a sua face alaranjada ao afirmar categoricamente que pretende assumir o controle do petróleo venezuelano, dando a entender que, para além das aparências de querer combater o narcotráfico ou mesmo libertar a Venezuela do jugo de Maduro, o que lhe move de verdade são as riquezas minerais daquele país. Mas Trump não está de olho apenas no petróleo venezuelano. Ele vislumbra algo ainda mais ambicioso, seja para surrupiar os estratégicos minerais raros, disponíveis abundantemente no Brasil, seja para tornar a América Latina um mercado disponível exclusivamente para os Estados Unidos.

A ideia de ressuscitar a Doutrina Monroe (rebatizada pelo próprio Trump, como auto-homenagem, de Doutrina "Donroe") e, nessa perspectiva, recolonizar a América Latina, tem a ver obviamente com a disputa geopolítica com outros países, sobretudo a China. Os Estados Unidos, sob Trump, passaram a compreender os riscos do multilateralismo e dos novos arranjos geopolíticos como os BRICS e, ao invés de se imporem pela via diplomática, pela envergadura moral e pela negociação, a partir de suas vantagens tecnológicas comparativas, optaram pela guerra comercial (vide os tarifaços) combinadamente com a agressão militar e o uso ardiloso das big techs.

Nesse contexto, o Brasil é um alvo estratégico dos Estados Unidos, só não vê quem não quer ou tem cumplicidade. O Brasil é a maior economia da América Latina, é rico em minerais estratégicos raros, e está, sob Lula, engajado no multilateralismo (vide o seu papel protagônico nos BRICS, no acordo do Mercosul com a União Europeia, no G-20, na COP30, no Sul Global, etc.) e na defesa intransigente da soberania nacional. Além disso, o Brasil na atualidade tem na China o seu maior parceiro comercial. Esse quadro é inaceitável para os Estados Unidos, principalmente sob Trump. Nesse sentido, o ataque à Venezuela deve ser considerada uma ponta de lança para, num bote futuro mais ousado, tentar submeter o Brasil ao seu jugo.

Os presidenciáveis mencionados, todos eles de baixa estatura moral e política, que apoiaram a ação armada contra a Venezuela não compreendem os riscos para o Brasil. E, se compreendem, mas ousam menosprezar, é porque aceitam, sem pudor, o papel de vendilhões da Pátria. 

Para Tarcísio “MAGA” de Freitas, Ratinho, Flávio Bolsonaro e os demais mencionados não faz nenhum sentido sonhar com um Projeto de País, que afirme o multilateralismo e a soberania nacional; e que, ademais, não abre mão de buscar alcançar um patamar elevado de desenvolvimento econômico-social, justo e ambientalmente sustentável. 

Essas figuras sinistras e antipatrióticas, ao contrário, preferem um Brasil subalterno aos Estados Unidos, mesmo que isso custe manter nosso país no eterno estágio de subdesenvolvimento econômicos e social, com renda média baixa, desigualdades sociais abissais e enormes contingentes de extrema pobreza.

Essas figuras sinistras, antipatrióticas e andidemocráticas repudiam o que consideram a Ditadura na Venezuela, mas sempre estiveram (e continuam) de mãos dadas com os que planejaram dar um golpe de Estado no Brasil, para implantar uma Ditadura aqui. Hipócritas!

Os Estados Unidos perderam ao longo dos anos parcelas importantes de sua influência global e, por essa razão, o governo Trump, sob o lema “Make America Great Again/Fazer a América Grande Novamente” (ou MAGA) projeta retomar a América Latina como seu quintal e expropriar suas riquezas, mesmo se for na marra. 

O Brasil pode, e deve, manter relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos, como o faz livremente com outros países do Planeta. Mas sem beijar a bandeira norte-americana e sem vestir o boné vermelho com a inscrição “MAGA”. 

Vassalagem, jamais! Soberania sempre!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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