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Cibele Amaral

Defensora do Direito Constitucional do Acesso à Alimentação e Nutrição

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O "Reset" Nutricional dos EUA: Por que o Brasil ainda está 10 anos à frente de Washington?

Em janeiro de 2026, as novas diretrizes nutricionais dos Estados Unidos apresentaram uma mudança histórica

O "Reset" Nutricional dos EUA: Por que o Brasil ainda está 10 anos à frente de Washington? (Foto: Agência Brasil )

Em janeiro de 2026, as novas diretrizes nutricionais dos Estados Unidos apresentaram uma mudança histórica. O abandono da antiga base de grãos e cereais deu lugar a uma estrutura que prioriza proteínas de alta densidade e gorduras integrais. Pela primeira vez, o governo americano desencoraja explicitamente o consumo de ultraprocessados e estabelece limites severos ao açúcar adicionado, especialmente para crianças.

Contudo, essa atualização tem sido alvo de uma captura narrativa por grupos extremistas. Nas redes sociais, defensores da "dieta carnívora" tentam vender a ideia de que a ciência oficial capitulou ao consumo exclusivo de carnes. É uma leitura desonesta: as diretrizes de 2025 mantêm a recomendação de fibras e vegetais, focando apenas na substituição de carboidratos refinados por alimentos nutricionalmente densos.

A desinformação mais latente nas redes sociais diz respeito ao consumo de gorduras. Movimentos radicais afirmam que a nova pirâmide americana "liberou" as gorduras saturadas em oposição ao que seria uma suposta "proibição" brasileira. O fato, porém, é que a nova recomendação americana é virtualmente idêntica à que o Guia Alimentar para a População Brasileira preconiza há mais de uma década.

Ambos os documentos defendem que as gorduras presentes naturalmente nos alimentos (como em carnes, ovos e laticínios) não devem ser temidas, desde que façam parte de uma alimentação baseada em comida de verdade. O Guia Brasileiro nunca demonizou a gordura natural; ele condena as gorduras trans e os óleos refinados escondidos nos ultraprocessados. A tentativa de usar a nova pirâmide dos EUA para invalidar o guia brasileiro sob o pretexto das gorduras é uma falácia técnica: ambos convergem para a ideia de que a gordura do alimento integral é parte de uma dieta equilibrada.

Apesar dessa convergência tardia dos EUA, o Brasil permanece dez anos à frente por uma questão metodológica fundamental. O foco das diretrizes americanas ainda reside na proporção de macronutrientes (gramas de proteína ou gordura), uma abordagem técnica que muitas vezes isola o nutriente do contexto do alimento real.

Em contraste, o Guia Alimentar para a População Brasileira fundamenta-se na Classificação NOVA, que divide o consumo pelo nível de processamento. Para o Brasil, o problema central de saúde pública não é o nutriente isolado, mas como o sistema industrial transforma a matéria-prima em produtos hiperpalatáveis. Enquanto o modelo americano é individualista e técnico, o brasileiro introduz a comensalidade, valorizando o ato de cozinhar e o prazer social da refeição.

A atualização da pirâmide americana é um passo positivo, mas sua estrutura baseada em nutrientes ainda permite que grupos de interesse e influenciadores distorçam a ciência para promover dietas extremas e descontextualizadas. O Brasil, ao focar na qualidade do processamento e na soberania alimentar, construiu uma ferramenta blindada contra modismos. O que Washington tenta implementar em 2026, o SUS já ensina aos brasileiros desde 2014: a base da saúde não é a contagem de gramas de carne ou gordura, mas a rejeição aos ultraprocessados e o retorno à comida de verdade.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

U.S. DEPARTMENT OF AGRICULTURE; U.S. DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES. Dietary Guidelines for Americans, 2025-2030. 10. ed. Washington, DC: USDA/HHS, 2026. Disponível em: https://www.dietaryguidelines.gov.

MONTEIRO, C. A. et al. The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing. Public Health Nutrition, v. 21, n. 1, p. 5-17, 2018

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.