O velho truque do espantalho trans
"O espantalho trans não é sobre trans, nunca foi. É sobre o que acontece quando um governo não tem mais nada para mostrar além do dedo apontado"
Em 6 de janeiro de 2026, Donald Trump subiu ao palco do Kennedy Center — agora renomeado Trump-Kennedy Center pela diretoria que ele mesmo indicou — para discursar diante dos republicanos da Câmara em seu retiro anual de partido. O que se seguiu não foi discurso político no sentido estrito: foi performance de tablado, imitação burlesca, teatro de circo eleitoral. Trump simulou ser uma atleta trans carregando pesos "minúsculos", declarou que ela "saiu do palco chorando", e logo em seguida mimou um homem erguendo os mesmos pesos com facilidade acima da cabeça. A cena foi acompanhada de uma fala que merece ser reproduzida em sua integralidade justamente pela indecência que carrega pelo excesso de gemidos proferidos pelo presidente da maior, ainda, democracia do planeta.
O presidente dos Estados Unidos, perante o Congresso de sua nação, imitou publicamente uma mulher trans derrotada, em prantos, devastada — e a plateia aplaudiu.
Não há novidade no conteúdo, mas há, contudo, uma gramática política que precisa ser renomeada.
O espantalho trans não é uma posição ideológica construída a partir de evidências, de debate democrático ou de preocupação genuína com o esporte feminino. É um dispositivo de mobilização que funciona exatamente quando os demais dispositivos começam a falhar. Em janeiro de 2026, a aprovação de Trump estava em 37%, em queda desde o outono. Hoje, o net approval de Trump na média do Silver Bulletin está em -18,9, com cerca de 48% dos americanos desaprovando fortemente seu governo. Declínios significativos vieram justamente de dentro de sua própria base: entre republicanos, a aprovação caiu de 73% em janeiro para 68% em abril. Em um cenário de erosão de popularidade, o espantalho trans retorna sempre — não como política pública, mas como gesticulação: olha para lá, não para aqui!
A performance de 6 de janeiro não era nova nem acidental. Diante dos republicanos da Câmara, Trump repetiu várias vezes a frase "homens nos esportes femininos", descrevendo a questão como uma de suas armas políticas mais potentes, e afirmou que os democratas "lutam como loucos" para permitir que mulheres trans compitam no esporte feminino. O espantalho trans é convocado com a regularidade mecânica de quem sabe que a plateia vai reagir — não porque a questão seja urgente, mas porque o medo e o nojo funcionam como substitutos da coerência.
Mulheres trans e travestis sabem disso faz tempo. Sabemos que existimos na agenda pública sobretudo quando servimos de combustível para alguém. Quando as pesquisas caem, quando os escândalos se acumulam, quando a promessa econômica se revela vazia — lá estamos nós, convocadas como ameaça, como aberração, como piada de corpo que não deveria existir onde está. A imagem que Trump encenou no Kennedy Center — a mãe gritando "Tom", o pai de cabeça baixa, a atleta devastada para o resto da vida — não descreve nenhuma realidade verificável. É um roteiro de pesadelo fabricado para consumo de gente que precisa de um inimigo pequeno o suficiente para não dar trabalho.
O que muda, e isso é o que precisa ser dito com precisão, é quem amplifica o roteiro.
Nos últimos anos, o coro que engrossa a fala de Trump não vem apenas da direita explícita. Vem também das chamadas RadFems — feministas radicais que, sob o nome de TERFs (Trans-Exclusionary Radical Feminists), encontraram na "proteção do esporte feminino" um ponto de convergência confortável com a agenda trumpista. A aliança não é acidental nem contraditória: o antitransativismo funciona como zona de contato entre a direita religiosa americana, o conservadorismo britânico e certas vertentes do feminismo ocidental que elegeram corpos trans como o problema central da mulheridade. O resultado prático é que toda vez que Trump imita uma atleta trans chorando, há um segmento que se autoproclamou feminista disponível para dizer "mas ele tem um ponto".
Não tem. Não havia atletas trans inundando competições femininas antes dos decretos. Não há evidência robusta de que a presença de mulheres trans nos esportes constitua uma crise sistêmica para o esporte feminino — esporte que, diga-se, nunca recebeu de Trump ou de nenhum governo republicano qualquer proteção financeira, institucional ou simbólica digna do nome. O que existe é uma população pequena, visível, juridicamente vulnerável, suficientemente distante da maioria das pessoas para que o medo seja mais fácil que o conhecimento.
Trump sabe o que está fazendo quando sobe ao palco e imita uma mulher trans caindo. Ele não está defendendo o esporte feminino. Está ensaiando. É ator de segunda linha desde sempre — figurante de Hollywood que descobriu que o palco político tem plateia mais fiel. E toda vez que os números caem, a performance volta.
O espantalho trans não é sobre trans, nunca foi. É sobre o que acontece quando um governo não tem mais nada para mostrar além do dedo apontado.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

