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Marcia Carmo

Jornalista e correspondente do Brasil 247 na Argentina. Mestra em Estudos Latino-Americanos (Unsam, de Buenos Aires), autora do livro ‘América do Sul’ (editora DBA).

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Ocupação de Trump na Venezuela é desafio para o Brasil

'Nos bastidores do poder em Brasília, a preocupação em relação aos atos de Trump na Venezuela é evidente', escreve a colunista Marcia Carmo

Lula, Nicolás Maduro e Donald Trump (Foto: Agência Brasil I Reuters)

A ocupação da petrolífera Venezuela por parte do governo Trump preocupa vários países e especialmente o Brasil.

As declarações de Trump durante entrevista à imprensa, neste sábado, depois do ataque militar para a retirada de Maduro e de sua esposa Cilia Flores da Venezuela deixaram vários países preocupados e em estado de alerta sobre possíveis novas ações do presidente dos Estados Unidos, especialmente na América Latina. Trump disse que sua administração vai governar a Venezuela até que seu país “realize uma transição segura”.

Trump não fixou prazo para a intervenção do seu governo chegar ao fim no país caribenho – a intervenção é inédita em tempos de paz e de independência, de mais de dois séculos, nos países da América do Sul.

Colômbia e Cuba

Quando perguntado sobre Petro, da Colômbia, Trump respondeu que é “melhor ele ficar esperto”. Trump disse também que quer “ajudar” o povo cubano que foi “forçado” a deixar a Ilha. Nos dois casos, ele gerou incertezas se poderia fazer o mesmo na Colômbia e em Cuba do que fez na Venezuela.

A ação de Trump contra Maduro e sua esposa e suas declarações foram criticadas por líderes da América Latina, como Claudia Scheibaum, do México, mas tiveram respaldo explícito de Javier Milei, da Argentina, e outros da extrema-direita.

Brasil

O presidente Lula, por sua vez, disse que os ataques de Trump à Venezuela, vizinha do Brasil, “ultrapassam uma linha inaceitável”. Lula vinha mantendo diálogo com Trump, principalmente no âmbito das tarifas impostas pelo estadunidense aos produtos brasileiros. Já se esperava até uma visita de Lula à Casa Branca.

Trump chegou a dizer que gosta de Lula. E o presidente do Brasil chegou a dizer, por sua vez, que o estadunidense era um “amigo”. O Brasil e Lula são importantes demais, em termos globais, para que esse diálogo não exista para os interesses do país e da região. Mas como fica essa relação depois do ataque contra Maduro e a ocupação venezuelana? Não estava nos planos do Brasil falar sobre Maduro e a Venezuela com Trump. E agora? Difícil.

As ações bélicas dos Estados Unidos nas águas do Caribe Sul e do Pacífico, que já deixaram mais de 100 mortos, desde setembro e mesmo explosões diretas dos Estados Unidos, na semana passada, num galpão no território venezuelano, não pareciam anunciar, na visão de diplomatas brasileiros, o plano completo de Trump: tirar Maduro da Presidência, ‘governar’ o país da América do Sul e abrir as portas desta terra alheia para a exploração de petróleo para as empresas petrolíferas dos Estados Unidos.

Neste dia três de janeiro, internautas recordam uma entrevista do ex-presidente Hugo Chávez dizendo que os EUA tinham um único interesse em seu país: o petróleo.

Nos bastidores do poder em Brasília, a preocupação em relação aos atos de Trump na Venezuela é evidente. “Nos preocupa demais”, dizem. “É um desrespeito a todos os acordos internacionais em vigor”. Como maior país da América Latina, em termos econômicos, populacionais e geográficos, com eleições presidenciais no ano que vem, o Brasil está diante de um enorme desafio, começando, agora, por sua tradição de contribuir para a paz na região. Um desafio para equilibrista em tempos de Trump e de sua mirada intensa para a América Latina, e especialmente a América do Sul, riquíssima em recursos naturais, desde que retornou à Casa Branca em janeiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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