Olho na economia, rapazes

O Brasil tem no governo atual um inimigo oculto, distante, comandado por outras esferas. Que dispõe de um exército de ocupação lábil, eficiente e de obediência servil aos seus patrões externos. Cujo maior objetivo é o desmonte do país enquanto estado-nação e futura potência mundial

temer meirelles
temer meirelles (Foto: Geniberto Paiva Campos)

Um assessor do ex-presidente americano Bill Clinton (1993/2001) é o autor da frase que ganhou o mundo:

- "É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!"

O significado da expressão é auto - explicativo: são os interesses econômicos que movem o planeta. Quando os fatos políticos se tornam complicados e difíceis de entender, é hora de procurar nos fatos econômicos as explicações possíveis. São quase sempre as mais pertinentes.

Desde 2016, ano da suave deposição da presidente Dilma, as forças progressistas batem cabeça à procura de explicações plausíveis para o fato. Gerador de tanta perplexidade.

"Dilma não cuidou da Comunicação; alguns dos seus ministros eram fracos e ingênuos; o Partido dos Trabalhadores, no poder, negligenciou um efetivo trabalho de base". Por aí.

(Um antigo e recorrente cacoete intelectual: lutar as batalhas passadas. E perdidas).

Assim, deixamos de enxergar o óbvio: interesses econômicos da elite financeira, contrariados por medidas econômicas da ex-presidente, provocaram a ira, o furor sanguinário do capitalismo rentista.

Com a palavra o economista Ladislau Dowbor: "parte dos nossos impostos é transferida para os bancos e outros intermediários financeiros, em vez de aplicado em infraestrutura e políticas sociais."

Desde que foi criado o sistema da DÍVIDA PÚBLICA, é assim que funciona. Cerca de metade da arrecadação do país é gasta com esse sistema. o qual "foi criado em 1996 (save the date), pagando uma taxa Selic de mais 15%, já descontada a inflação. "INSTITUIU-SE ASSIM POR LEI UM SISTEMA DE TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS PÚBLICOS PARA OS BANCOS E OUTROS APLICADORES FINANCEIROS."

O que faz o governo Dilma entre 2012/2013? Reduz progressivamente a taxa de juros da dívida pública, 7,5% ao ano, considerando uma inflação de 5,9%, coloca o Brasil no time dos países civilizados, nos quais a taxa de juros da dívida gira em torno de 0,5 a 1% ao ano.

Segundo Dowbor, "a revolta dos banqueiros e outros rentistas levou a uma convergência com outras insatisfações, inclusive oportunismos políticos, provocando os grandes movimentos de 2013."

O desenrolar da novela todos sabemos. E também o seu desfecho.

Claro, as explicações e as justificativas são aquelas divulgadas pela mídia corporativa e aceitas pelos seus fiéis leitores e telespectadores: pedaladas fiscais, corrupção endêmica... Curiosamente, tudo começou com o escandaloso aumento de 20 (vinte!) centavos nas passagens de ônibus. Meros pretextos , transformados em verdades pela Mídia. Assumidas como crença inabalável, quase religiosa, pelos seus seguidores.

Quando o presidente Fernando Collor (1990/1992) assumiu o governo, alertou o país: "-vou implantar medidas que deixarão a Direita indignada e a Esquerda perplexa ".

O governo atual, que tomou o poder em 2016, deixou os brasileiros que pensam perplexos e indignados. E até agora sem um rumo certo em seus caminhos políticos.

E de tal modo perdura esse sentimento, que o jurista Eugênio Aragão, com a sua serena bravura e coragem de sempre, escreveu ontem – 08/03 - sobre "Os delírios de uma Esquerda em convulsão febril".

Eis o parágrafo inicial do artigo: "O golpe e o longo processo de deterioração da institucionalidade que o acompanha vem tocando a todos nós de forma intensa. Todos estamos em sofrimento. Quem tem consciência, discernimento e sobretudo conhecimento dos pormenores da sordidez das ações criminosas contra o país protagonizadas por um bando de oportunistas ambiciosos e gananciosos sofre muito. Conhecer nos faz sangrar."

Precisamos ouvir o Aragão. Inclusive quando ele se refere ao "fogo amigo" da Esquerda, sempre certeiro ao apontar para as suas próprias hostes. Esquecendo o inimigo que lhe cerca. E tolhe os seus passos. E exulta com esta divisão.

Na realidade, não está fácil reaprender os caminhos e os atalhos da Resistência Democrática. O Brasil tem no governo atual um inimigo oculto, distante, comandado por outras esferas. Que dispõe de um exército de ocupação lábil, eficiente e de obediência servil aos seus patrões externos.

Cujo maior objetivo é o desmonte do país enquanto estado-nação e futura potência mundial.

E, a acreditar nos jornalões, não vivemos em um "estado de exceção". A Folha de SP registra hoje, na coluna de André Singer, um belo exemplar da novilingua orweliana: NOVO NORMAL.

Após 81 anos, regredimos ao Golpe de Estado de 1937: o ESTADO NOVO. Rebatizado, no entanto. E nos vem à lembrança as palavras do ex-presidente Café Filho: "- Lembrai-vos de 37..."

Ficamos cientes, portanto, pela lógica do Singer, de que não vivemos num Estado de Exceção. Trata-se de um NOVO NORMAL. Entenderam, seus ignorantes?!

Diante de tamanho desafio, como definir estratégias coerentes de combate aos inimigos do Brasil? Que negociam suas riquezas, alienam sua soberania, afundam a economia do país num abismo sem fim?

Como na canção popular, temos de adotar a "perfeita paciência" para caminhar ao encontro das soluções. Usar da inteligência. Abandonar os preconceitos. Antes que nos reste apenas, na melhor das hipóteses, a Desobediência Civil como forma de luta.

Soluções existem. E dependem não somente da capacidade criativa e da inteligência dos democratas, "em convulsão febril". Dependem também da estupidez dos gênios apressadinhos que tomaram o poder. Eles têm pressa, sim, ao semear o mal. E sabem o porquê.

Estão seguindo antigas lições neoliberais: aplicar com toda rapidez o desmonte, antes que seus resultados se tornem perceptíveis. Um dos preceitos fundamentais do Neoliberalismo.

E não podemos negligenciar a sábia lição do assessor do Bill Clinton:

"É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!"

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