“Onibaba - A Mulher Demônio" (O Filme): o Terror que Desnuda o Humano
Uma análise sensorial do clássico japonês de 1964
Desde o primeiro quadro, Onibaba impõe-se como uma obra que transcende expectativas estéticas e narrativas. Minhas expectativas, já elevadas por formação e referências rigorosas, não apenas foram atendidas; foram superadas. Falo isso na primeira pessoa: assisti ao filme em casa, pela plataforma Filmicca, e é a minha experiência direta que orienta estas observações. Sou um crítico intransigente quanto ao rigor técnico e à coerência da história, e minhas referências no cinema japonês são sobretudo Kenji Mizoguchi e Akira Kurosawa. É com esse repertório pessoal que afirmo: Onibaba dialoga com esses mestres sem imitá-los, criando uma linguagem própria que atravessa tempo e cultura para tocar o que há de mais universal no humano.Onibaba não é um filme que se observa de forma passiva; é um filme que exige presença. A narrativa, aparentemente simples, duas mulheres sobrevivendo em tempos de guerra, a presença de uma máscara que encarna medo e desejo transforma-se em um espelho onde se refletem paixões e misérias humanas. O que me atingiu com força foi a capacidade do filme de transmutar emoções íntimas em imagens que permanecem na retina e na memória. Inveja, vaidade, ambição, lascívia, trapaça, orgulho, poder e medo não são meros temas; são forças motoras que empurram personagens e espectadores para um abismo moral e estético.A máscara, objeto central, funciona como metáfora multifacetada: instrumento de poder, símbolo de desejo, catalisador de culpa. Quem a usa busca transcender sua condição, mas acaba por ser consumido por ela. Essa ambivalência é o que torna Onibaba tão poderosa; o filme não julga de forma simplista, antes expõe a complexidade moral e psicológica de suas personagens. A experiência de assistir ao filme pela Filmicca, em ambiente doméstico, não diminuiu essa potência; ao contrário, permitiu uma observação mais atenta dos detalhes que compõem a teia emocional da obra.O roteiro de Onibaba é um exercício de economia e precisão dramática. Não há excessos; cada cena é calibrada para avançar a tensão e aprofundar a compreensão das personagens. A escrita privilegia o subtexto: diálogos contidos, olhares que dizem mais do que palavras, e uma progressão que parece inevitável, como se estivéssemos diante de uma tragédia clássica deslocada para um cenário rural e pantanoso. Essa escolha narrativa reforça a sensação de que as personagens são movidas por forças maiores, históricas, sociais e psicológicas e que suas escolhas, por mais pessoais que pareçam, são reflexo de um contexto brutal.A estrutura do filme permite acompanhar a erosão moral das personagens de forma quase científica: pequenas transgressões acumulam-se até que a ruptura se torna irreversível. Essa construção lembra, em espírito, a precisão de Kurosawa ao dissecar motivações humanas e a compaixão crítica de Mizoguchi ao expor as vicissitudes das mulheres em sociedades opressoras. Contudo, Onibaba acrescenta ao repertório uma dimensão de terror psicológico que amplia o alcance dramático da narrativa, transformando o cotidiano em algo inquietante e sublime. A progressão dramática é tão bem dosada que o espectador sente, em cada ato, o peso das consequências que se avizinham.
A fotografia em preto e branco é um dos pilares que sustentam a força hipnótica do filme. O uso do contraste não é mero recurso estético; é instrumento narrativo que modela a percepção do espectador. Texturas do capim, fumaça, lama e luz filtrada criam um universo sensorial onde a visibilidade é sempre parcial, como se a verdade estivesse à margem do enquadramento. Essa manipulação da luz remete ao trabalho de Mizoguchi, que sabia usar o espaço e a luz para revelar tensões sociais e íntimas, mas aqui a câmera assume também um papel predador: persegue, observa e, por vezes, aproxima-se de detalhes que perturbam.
O som complementa essa arquitetura visual com igual precisão. A trilha, os ruídos do ambiente, o silêncio cortante e os sons orgânicos do pântano compõem uma partitura que amplifica a sensação de claustrofobia e destino. Em momentos-chave, o som funciona como contraponto à imagem, sugerindo o que não é mostrado e, assim, ampliando o campo do medo. Essa manipulação sensorial é uma das inovações do filme: não se trata apenas de assustar, mas de criar uma experiência total, onde a percepção do espectador é moldada para que a reflexão sobre os temas centrais se torne inevitável.
Ruptura estética e legado
No panorama do cinema japonês dos anos 1960, Onibaba representou uma ruptura significativa. Ao fundir elementos do drama social com o horror psicológico e uma estética quase ritualística, o filme abriu caminhos para uma nova forma de pensar o cinema de gênero. Não é exagero afirmar que ele ampliou as fronteiras do que o cinema japonês podia dizer sobre a condição humana, sem se prender a convenções narrativas ou a expectativas comerciais.A inovação está tanto na forma quanto no conteúdo. Formalmente, a câmera e a montagem criam uma temporalidade própria, por vezes lenta e contemplativa, por vezes abrupta e violenta, que subverte a linearidade tradicional. No plano temático, o filme desloca o foco do horror para a dimensão moral: o monstro não é apenas externo; é interno, social, histórico. Essa perspectiva em Onibaba é a prova de que o terror pode ser veículo de reflexão profunda, capaz de articular crítica social, psicologia e estética.Minhas referências pessoais a Mizoguchi e Kurosawa ajudam a situar Onibaba no mapa do cinema japonês, mas é importante frisar que o filme não é mera derivação. De Mizoguchi, Onibaba herda a sensibilidade para com as personagens femininas e a capacidade de transformar o espaço em testemunha das injustiças e paixões. Assim como Mizoguchi filmava o sofrimento e a resistência das mulheres com compaixão crítica, Onibaba coloca mulheres no centro de sua narrativa, não como vítimas passivas, mas como agentes cujas escolhas revelam estruturas de poder e sobrevivência.De Kurosawa, o filme toma emprestada a precisão dramática e a intensidade moral. Kurosawa sabia construir cenas que funcionavam como pequenos universos éticos; Onibaba faz o mesmo, mas desloca o foco para o horror existencial. Onde Kurosawa frequentemente buscava a grandeza épica e a clareza moral, Onibaba prefere a ambiguidade e a penumbra, mostrando que a grandeza pode residir também naquilo que é obscuro e contraditório. Essa correlação não é de subserviência: Onibaba dialoga com Mizoguchi e Kurosawa, os desafia e os complementa, demonstrando que a tradição do cinema japonês é plural e capaz de reinvenção estética.
Temas humanos e universalidade
O que torna Onibaba tão comovente é sua capacidade de falar do humano em termos universais. As paixões que movem a narrativa: inveja, vaidade, ambição, desejo, orgulho, medo, são reconhecíveis em qualquer cultura e época. O filme, contudo, não se contenta com a generalidade: encena essas forças em situações concretas, mostrando como o contexto histórico e social molda as escolhas individuais. Essa articulação entre o universal e o particular é o que confere ao filme sua potência ética e estética.
A obra nos força a confrontar a própria condição humana: a busca por poder e reconhecimento, a fragilidade diante do desejo, a facilidade com que a moral se dobra diante da necessidade. E faz isso sem moralismo fácil; antes, com uma frieza quase cirúrgica que nos obriga a olhar para dentro. É essa honestidade, a recusa em oferecer respostas simples, que torna esta obra uma experiência transformadora. Ao terminar a sessão na Filmicca, senti que o filme continuou a trabalhar em mim, levantando perguntas sobre origem, destino e desejos. Enfim, o quanto daquela máscara carregamos em nossas vidas?
Em suma, Onibaba – A Mulher Demônio é uma obra que cumpre o raro feito de ser ao mesmo tempo rigorosa e profundamente sensorial. Para críticos exigentes, a obra oferece um banquete técnico e emocional: roteiro preciso, fotografia magistral, som envolvente e uma capacidade de imersão que transcende o mero entretenimento. Disponível na plataforma Filmicca, o filme reafirma-se como peça essencial para quem busca cinema que provoca pensamento e sensação.Filmicca merece ser enaltecida. Seu catálogo avassalador para amantes de filmes cult não é apenas uma coleção; é um espaço de preservação e difusão que facilita o encontro com obras que desafiam, provocam e transformam. Ter Onibaba disponível na plataforma é prova do compromisso da Filmicca com a curadoria de alto nível.
FICHA TÉCNICA:
TÍTULO ORIGINAL: Onibaba | Ano de Produção 1964 | JapãoTítulo no Brasil: Onibaba – A Mulher Demônio Idioma: JaponêsDuração: 103 minutosGênero: Drama, HorrorDireção: Kaneto ShindôRoteiro: Kaneto ShindôFotografia: Kiyomi KurodaMontagem: Toshio EnokiMúsica: Hikaru HayashiProdução: Kindai Eiga KyokaiDistribuição: Toho (Japão)Elenco principal: Nobuko Otowa (a sogra), Jitsuko Yoshimura (a nora), Kei Satô (Hachi, o vizinho), Jûkichi Uno (samurai mascarado), Taiji Tonoyama e outros nomes como Someshô Matsumoto, Kentarô Kaji, Hosui Araya, Fudeko Tanaka, Michinori Yoshida, Hiroyoshi Yamaguchi, Hiroshi Tanaka, Kanzô Uni e Nobuko Shimakage.
SINOPSE:
Ambientado no Japão do século XIV, em meio às guerras civis, o filme acompanha uma mulher e sua nora que sobrevivem emboscando samurais desgarrados e vendendo seus pertences. A chegada de Hachi, vizinho que retorna da guerra, desperta tensões e desejos. A situação se intensifica com a aparição de um misterioso samurai usando uma máscara demoníaca, desencadeando uma espiral de medo, culpa e destruição moral.
LEGADO:
A obra é considerada um marco do cinema japonês dos anos 1960, pela fusão entre drama social e terror psicológico. Destaca-se pela fotografia em preto e branco, pelo uso expressivo da luz e da paisagem pantanosa, além de influenciar obras posteriores ao explorar o horror como metáfora moral e social.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



