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Heba Ayyad

Jornalista internacional e escritora palestina-brasileira

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Operações terrestres contra o Irã: qual será o destino da economia global?

Se os EUA intensificarem seus ataques contra o Irã e contra as facções na região, os iemenitas poderão recorrer ao fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb

Bandeira do Irã e Donald Trump (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

O Irã tem demonstrado notável capacidade de adaptação diante de cenários de confronto com os Estados Unidos e Israel, dominando táticas de guerra assimétrica. Essa estratégia baseia-se no uso de equipamentos e táticas militares de baixo custo e alta eficácia. O Oriente Médio enfrenta rápidas transformações em meio à escalada da agressão conjunta dos EUA e de Israel contra o Irã, o que deverá ter impacto significativo nos equilíbrios geopolíticos, tanto na região quanto em escala global.

Avaliações de analistas indicam que diversas questões interligadas formam o cerne desta fase. Entre elas, destaca-se o potencial de escalada dos EUA contra o Irã, que coincide com a adoção, por parte dos EUA, de uma estratégia de guerra psicológica, na qual o próprio presidente Donald Trump participa por meio de declarações contraditórias. Esse contexto impacta tanto a economia global quanto a economia norte-americana.

Obstáculos a uma potencial operação terrestre: os dados sugerem que os EUA estão caminhando para uma escalada contra o Irã por meio de operações terrestres, após a campanha aérea ter se mostrado insuficiente para atingir o objetivo conjunto EUA-Israel de enfraquecer o país e desmantelá-lo como entidade política e Estado, dividindo-o em diversas unidades independentes.

A revista Foreign Policy, citando vazamentos de informações de altos funcionários, revelou um plano conjunto EUA-Israel em várias etapas, que incluiria o assassinato de proeminentes líderes iranianos, ataques à infraestrutura em grandes cidades do Irã e o lançamento de uma possível ofensiva terrestre. Essa ofensiva envolveria a infiltração de aproximadamente 4.000 combatentes armados provenientes do Curdistão iraquiano no noroeste do Irã, especificamente no Azerbaijão Ocidental e na região curda de Mahabad.

Esse movimento coincidiria com o envio de cerca de 2.500 soldados norte-americanos a partir do Bahrein, reforçados por outros 2.500, para a realização de incursões terrestres no sudeste do Irã.

De acordo com a Foreign Policy, as forças norte-americanas, apoiadas por elementos separatistas, tentariam assumir o controle dos aeroportos de Bandar Abbas, Kermanshah, Urmia e Tabriz, utilizando-os como pontos estratégicos para o envio de tropas a diferentes regiões do país. Essas operações fariam parte de uma ação militar dita “cirúrgica”, envolvendo pousos de helicópteros em pequena escala, com o objetivo de atingir instalações de mísseis e estruturas nucleares. Ainda mais alarmante é a informação de que o governo Trump consideraria autorizar ataques nucleares limitados contra determinados alvos militares e nucleares.

Esse cenário reflete uma mudança na estratégia dos EUA em relação ao Irã — de uma política de contenção e dissuasão para uma postura de confronto direto, sem restrições aparentes. No entanto, essa mudança colide com a realidade no terreno, que contradiz os planos norte-americanos, especialmente diante da crise estrutural que afeta o exército israelense, considerado um parceiro fundamental em eventuais operações terrestres.

Relatórios indicam que o exército israelense enfrenta uma grave escassez de efetivo, atualmente estimada em pelo menos 15.000 soldados. Essa situação é agravada por fatores que comprometem a prontidão para o combate e o moral das tropas, após seu envolvimento em sucessivos conflitos ao longo dos últimos três anos. O que agrava a crise do exército israelense é o seu envolvimento em uma guerra de desgaste contra o Hezbollah, que resultou em perdas significativas de equipamentos e de pessoal, sem permitir o avanço em direção ao rio Litani, conforme estipulado em seu plano original para o Líbano.

Isso representa não apenas uma falha tática, mas também impõe obstáculos estratégicos aos planos norte-americanos. Israel, peça fundamental em qualquer cenário militar dos EUA contra o Irã, agora parece menos capaz de fornecer o apoio militar necessário às operações terrestres previstas. Esse cenário leva especialistas militares norte-americanos a questionarem a capacidade dos Estados Unidos de conduzirem uma guerra terrestre em larga escala contra o Irã sem um apoio terrestre israelense efetivo. Caso os Estados Unidos sejam forçados a conduzir operações terrestres sozinhos, serão capazes de arcar com os elevados custos humanos e políticos esperados, especialmente considerando as experiências amargas de Washington nas guerras do Afeganistão (2002) e do Iraque (2003–2008)?

As cartas do Irã

O Irã tem demonstrado grande capacidade de adaptação às condições de confronto com os Estados Unidos e Israel, dominando os métodos da guerra assimétrica. Essa estratégia baseia-se no uso de equipamentos e táticas militares de baixo custo e alta eficácia, como drones e mísseis de baixo custo, em contraste com a dependência dos Estados Unidos e de Israel de equipamentos militares tecnologicamente avançados e dispendiosos. Em última análise, essa estratégia visa exaurir os adversários do Irã, sobretudo em cenários de conflito prolongado.

O Irã utiliza drones que custam apenas alguns milhares de dólares para serem produzidos, enquanto os mísseis interceptores utilizados pelos EUA ou por Israel custam vários milhões. Isso cria um equilíbrio de desgaste econômico favorável ao Irã, uma vez que drena as capacidades econômicas e produtivas norte-americanas e israelenses. Além disso, os mísseis e drones iranianos de baixo custo são eficazes em causar danos significativos a bases militares e à infraestrutura inimiga.

Esse fenômeno é descrito por especialistas em estratégia como “economia de guerra reversa”, na qual a superioridade tecnológica dispendiosa se transforma em um ônus econômico para os Estados Unidos, que já enfrentam crises estruturais. O conflito já provocou a duplicação do preço do barril de petróleo em escala global, resultando em aumento significativo da inflação nos Estados Unidos e dificultando a implementação das políticas econômicas defendidas pelo presidente Donald Trump, especialmente no que se refere à redução das taxas de juros para estimular o consumo e o investimento internos. O aumento das taxas de juros também levou à valorização do dólar, o que, por sua vez, impactou negativamente o consumo e o investimento, anulando os efeitos das tarifas impostas por Trump para proteger a produção estadunidense. Isso, consequentemente, impulsionou as exportações europeias e de outros países para os Estados Unidos e enfraqueceu a competitividade dos produtos norte-americanos nos mercados globais. Esse pode ser um dos motivos para o crescente descontentamento interno contra o presidente Donald Trump, que levou milhões de norte-americanos a organizar centenas de manifestações em todo o país.

O impacto desse cenário não se limita à dimensão econômica, estendendo-se também à esfera estratégica. O esgotamento dos estoques de mísseis interceptores dos EUA e de Israel reduziu sua capacidade de interceptar drones e mísseis iranianos, o que, sem dúvida, afetará sua capacidade de sustentar um confronto prolongado com o Irã e tornará qualquer escalada terrestre mais custosa e arriscada.

Além disso, os ataques a bases norte-americanas na região impactaram negativamente as capacidades logísticas dos EUA. Vale ressaltar que relatos indicam o esgotamento das reservas de metais de terras raras nos Estados Unidos, em decorrência das restrições chinesas à sua exportação. Esse fator dificulta o desenvolvimento de armamentos avançados e compromete a capacidade do Pentágono de reabastecer seus estoques, que vêm sendo consumidos em um cenário de potencial guerra prolongada com o Irã.

O que está por trás das contradições nas declarações de Trump?

Nesse contexto, destacam-se as declarações contraditórias do presidente dos EUA, Donald Trump, acerca das negociações com o Irã. Especialistas consideram essas declarações parte de uma campanha de guerra psicológica e midiática conduzida pelo governo norte-americano. A alegação de Trump de que os iranianos solicitaram negociações, enquanto Teerã nega tal iniciativa, sugere o uso da ambiguidade e do engano como instrumentos políticos. Nesse sentido, evidencia-se que Trump utiliza o engano como possível prelúdio para o lançamento de uma ação militar contra o Irã, à semelhança de episódios anteriores.

Trump busca projetar-se como um líder capaz de impor sua vontade a qualquer adversário, por mais resistente que este seja. Ademais, procura fortalecer sua posição junto à sua base eleitoral, enquanto o Partido Republicano se prepara para as eleições de meio de mandato.

Essa ambiguidade na retórica norte-americana também coloca o Irã em posição defensiva. Caso o país se recuse a negociar, Trump poderá responsabilizá-lo pela prolongação do conflito e por suas consequências negativas, ainda que, conforme afirmam as autoridades iranianas, não haja negociações em curso.

Contudo, essa abordagem acarreta riscos significativos, pois pode intensificar erros de cálculo entre as partes envolvidas, potencialmente levando a uma escalada militar imprevisível. Vincular as ameaças dos EUA à possível interdição do Estreito de Ormuz adiciona uma dimensão econômica global ao conflito. O estreito, por onde transita aproximadamente 20% do fornecimento mundial de energia, constitui um ponto estratégico de estrangulamento. A guerra já tem provocado perturbações significativas nos mercados globais.

Além disso, os Estados do Golfo encontram-se em uma posição precária, uma vez que o Irã ameaçou atacar toda a infraestrutura petrolífera da região caso suas próprias instalações sejam atingidas. Um novo elemento foi incorporado ao conflito com o anúncio dos houthis, no Iêmen, de sua entrada na guerra, acompanhado do lançamento de um grande número de mísseis contra Israel.

Se os Estados Unidos intensificarem seus ataques contra o Irã e contra as facções de resistência no Iraque, no Líbano e no Iêmen, os iemenitas poderão recorrer ao fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb, por onde transita cerca de 12% do fornecimento mundial de energia. Isso resultaria na interrupção de aproximadamente 32% do fornecimento global de energia, provocando um aumento drástico nos preços internacionais do petróleo e impactando a economia mundial, particularmente as economias ocidentais e a economia norte-americana.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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