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Tereza Cruvinel

Colunista/comentarista do Brasil247, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos.

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Orlando Senna, talento e generosidade

Jornalista Tereza Cruvinel relembra a convivência com o cineasta na criação da EBC e destaca sua atuação decisiva em políticas para o audiovisual

Orlando Senna (Foto: Evaldo Macedo/Divulgação)
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Em abril passado, quando a Caixa Cultural abriu no Rio a mostra Orlando Senna — Cinema, Brasil e América Latina, enviei por Déa Barbosa a Orlando um exemplar autografado de meu livro Memória de Um Desafio. A dedicatória ocupou uma página inteira, em sinal de quanta coisa eu gostaria de dizer a Orlando. Coisas que nem o tamanho da página, nem os poucos dias que ele ainda viveria, me permitiram dizer.

Déa, amiga de longos anos, foi assessora de Orlando na Secretaria do Audiovisual do MinC, que ele ocupou na gestão de Gilberto Gil, entre 2003 e 2007, e depois na nascente EBC, onde ele foi diretor-geral entre 2008 e meados de 2008. Quando ele deixou a EBC, disse que me faria apenas um pedido. Que mantivesse Déa na empresa. Ela era competente, acabava de vencer um câncer e precisava trabalhar. Mantive a Déa, que acabou sendo minha ponte com Orlando e hoje é uma grande amiga.

Eu já disse, inclusive no citado livro, que a ideia da criação de uma TV Pública nacional, no segundo governo Lula, nasceu na SAV de Orlando , e não na bancada do PT ou no Palácio do Planalto. Eu mesma estava em outra, era colunista política do Globo e comentarista da Globonews.

Na SAV, Orlando convenceu sua equipe e também o Gil de que o governo precisava investir na criação da TV Pública. Ela seria importante para a diversidade na oferta de informação à sociedade e fundamental para o audiovisual brasileiro. A produção havia se expandido graças a políticas de fomento como a Lei Rouanet, mas havia um problema de exibição. O circuito de salas de cinema havia se encolhido drasticamente. Muitos cinemas de rua foram fechados, viraram igrejas evangélicas e os que sobraram foram para dentro dos shopping centers. A TV pública seria uma janela nobre de exibição, contribuindo muito para o acesso do povo brasileiro aos bens culturais. Especialmente, à cultura audiovisual.

Gil convenceu Lula, que depois encarregou Franklin Martins, ministro-chefe da Secom, da implantação do projeto. Antes, porém, seria preciso aprovar uma lei no Congresso, e muito por causa disso, acabei escolhida como presidente da empresa a ser criada, a EBC, ficando Orlando como diretor-geral. Eu seria o rosto político e institucional, ficando ele com as tarefas operacionais.

Não nos conhecíamos pessoalmente, mas ele quebrou o gelo defensivo com sua delicadeza, sua habilidade e aquele brilho ao falar de qualquer coisa. Ambos descobrimos que tínhamos pela frente um trabalho de Hércules, para o qual teríamos de juntar forças. No meio do caminho, entretanto, surgiram pedras e divergências com terceiros, o que o levou a se demitir. Tentei como pude demovê-lo, sabendo que ele faria falta à EBC e que a reação do cinema e do audiovisual seria forte, como foi.

Vida que segue, concluí meu mandato, deixei a EBC e a TV Brasil estruturadas. Veio a destruição de Temer e o desmonte de Bolsonaro e a esperança, para mim ainda frustrada, de vê-la reconstruída plenamente neste terceiro mandato de Lula. Orlando foi presidir a TAL (Televisión de América Latina), seguiu articulando em favor do cinema e concluiu seu filme “Longe do Paraíso”.

Foi naquele tempo em que convivemos na EBC que descobri Orlando e sua grandeza. Além de cineasta, de jornalista e escritor, além de gestor cultural, ele foi um dos mais eficientes articuladores de políticas públicas para o cinema e o audiovisual brasileiros. Da Lei Rouanet à Lei da TV paga (que fixa cota de exibição de conteúdo nacional), passando pela cota de tela e pela criação do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), todas as políticas públicas importantes para o cinema nacional contaram com a participação, a reflexão e as sugestões de Orlando Senna. Na SAV ele lançou programas importantes, como o DOCTV e o Revelando os Brasis, entre outros.

Sem dúvida Orlando foi uma das pessoas mais admiráveis com quem cruzei nas minhas caminhadas. E nele, o que eu mais admirava era a generosidade. Era no público e nos outros criadores que ele pensava sempre que propunha ou apoiava uma política pública. Eu gostaria de ter dito isso a ele. Isso, entre outras tantas coisas.

Por ora digo apenas: Vai Orlando, encontrar sua Conceição.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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