Ormuz estrangulado revela a engrenagem invisível da economia mundial
Um corredor marítimo estreito sustenta parte decisiva da economia mundial. Quando a guerra chega ali, cadeias logísticas globais entram em tensão
A cena poderia ser capturada em qualquer manhã recente no porto de Khasab, em Omã, cidade que se debruça sobre o estratégico Estreito de Ormuz. Sob o sol duro do Golfo, dezenas de trabalhadores portuários caminham sem rumo entre guindastes imóveis e pilhas de contêineres que aguardam navios que não chegam. Alguns se apoiam nas grades do cais, outros permanecem de braços cruzados, olhando um horizonte estranhamente vazio para uma das rotas marítimas mais movimentadas do planeta. Há passos lentos, conversas dispersas, olhares repetidos para o mar. O porto continua pronto para operar, mas o movimento desapareceu. Quando uma guerra comprime uma artéria vital do comércio mundial, até os portos parecem suspensos no tempo — máquinas gigantescas esperando uma ordem que não vem.
Os ataques iranianos com mísseis e drones interromperam o fluxo de comércio em uma das passagens mais críticas do planeta. O Estreito de Ormuz não é apenas um corredor energético. É uma artéria por onde circula parte decisiva da economia global. Quando essa artéria entra em colapso, o impacto não fica restrito ao petróleo ou ao gás. Ele se espalha como uma onda sísmica que atinge portos, aeroportos, fábricas e supermercados.
Essa centralidade explica por que o Estreito de Ormuz é descrito por analistas de energia e comércio internacional como um dos corredores energéticos mais importantes do planeta. Trata-se de um canal marítimo estreito localizado entre Irã e Omã, conectando o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia e ao oceano aberto. Por ali transitam diariamente milhões de barris de petróleo e volumes estratégicos de gás natural liquefeito que abastecem economias inteiras. Quando essa passagem sofre qualquer ameaça de interrupção, a tensão imediatamente se espalha pelos mercados globais de energia.
À medida que a ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã entra em sua segunda semana, a dimensão econômica do conflito torna-se cada vez mais evidente. O fechamento de diversos aeroportos na região — incluindo o gigantesco hub internacional de Dubai — retirou do sistema logístico mundial quase um quinto da capacidade global de transporte aéreo de cargas.
Isso significa menos eletrônicos, menos medicamentos, menos metais preciosos chegando aos mercados consumidores.
O efeito imediato é visível nas tarifas logísticas. O custo do transporte aéreo entre Ásia e Europa disparou 45% desde o início da guerra. O aumento é mais que o dobro do registrado nas rotas entre Ásia e Estados Unidos. Ryan Petersen, diretor-executivo da Flexport, uma das maiores empresas de logística do mundo, resume o fenômeno com franqueza rara no setor: a guerra está redesenhando o mapa da logística global em tempo real.
A distribuição dos danos não é uniforme. A guerra no Golfo atinge Europa e Ásia com maior intensidade do que os Estados Unidos. O motivo é estrutural. Essas economias dependem muito mais das importações de energia que atravessam o estreito de Ormuz.
Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, foi direto ao ponto: Europa e Ásia estão mais vulneráveis tanto pela dependência energética quanto pela proximidade geográfica do conflito. Em guerras modernas, a geografia continua sendo um fator brutal.
Isso não significa que os Estados Unidos estejam protegidos. O preço médio da gasolina saltou rapidamente de 2,98 para 3,41 dólares por galão em apenas uma semana. O impacto pode parecer modesto num primeiro olhar, mas funciona como um sinal de alerta precoce para a economia americana. Quando o combustível sobe, quase todo o restante tende a subir junto.
No Brasil, os efeitos já começam a aparecer nas bombas. A escalada do petróleo provocada pela guerra ampliou a defasagem da gasolina no país e analistas estimam que o preço poderia subir até R$ 1,22 por litro para acompanhar o mercado internacional, pressionando transporte, alimentos e inflação.
Entre os países mais expostos estão Itália, Bélgica, China, Índia e Coreia do Sul. Todos dependem fortemente das rotas energéticas do Golfo Pérsico. A inflação na zona do euro já havia surpreendido analistas em fevereiro. Com o conflito pressionando o mercado de energia, o risco é de que esse indicador continue subindo.
A situação se agravou ainda mais depois que a produção de gás natural liquefeito da QatarEnergy foi suspensa após ataques iranianos. Analistas da consultoria londrina TS Lombard já falam na possibilidade de uma disputa agressiva entre países europeus e asiáticos pelos volumes restantes de gás disponíveis no mercado internacional.
Enquanto isso, os mercados financeiros refletem o nervosismo. Em Wall Street, o índice S&P 500 recuou cerca de 2% na semana passada. Mas a turbulência foi muito mais severa em outros lugares. A bolsa da Coreia do Sul chegou a despencar 20% antes de uma recuperação parcial. A moeda indiana, a rupia, caiu para o nível mais baixo em mais de cinquenta anos frente ao dólar.
Eric Robertsen, chefe global de pesquisa do banco Standard Chartered, alerta que a Ásia pode sofrer um golpe econômico profundo caso o conflito se prolongue. A região reúne algumas das economias mais dependentes do fluxo energético do Golfo.
No mar, a situação é ainda mais dramática. O tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz despencou cerca de 90% em comparação com os níveis anteriores à guerra, segundo dados da plataforma MarineTraffic. Navios permanecem parados, desviados ou simplesmente aguardando autorização para navegar.
Cinquenta e sete navios porta-contêineres carregados com mercadorias para o Oriente Médio e para mercados globais estão presos dentro do estreito. Embora representem menos de 1% da capacidade mundial de transporte, o problema não é apenas quantitativo. Ele é sistêmico. Cada navio parado representa uma cadeia inteira de entregas interrompidas.
A Maersk, gigante do transporte marítimo, já suspendeu novas reservas de cargas em praticamente todos os países do Golfo. A MSC, outra potência do setor, começou a redirecionar contêineres para portos considerados seguros. O resultado é um caos logístico invisível ao consumidor comum, mas devastador para empresas que dependem de prazos rigorosos.
Nesse ambiente de nervosismo global, qualquer sinal político produz efeitos imediatos nos mercados. Os preços do petróleo chegaram a cair depois que o presidente norte-americano mencionou publicamente a possibilidade de um eventual fim da guerra. Por volta das 16h45 no horário de Brasília, o preço do barril de Brent, referência internacional, recuou para US$ 87,87 depois de ter se aproximado de US$ 120 nos momentos mais agudos da tensão. A reação revela como o mercado de energia responde quase instantaneamente a qualquer expectativa de descompressão geopolítica.
Ao mesmo tempo, o debate diplomático passa inevitavelmente pelo próprio controle do estreito.
O chanceler do Irã, Abbas Araghchi, afirmou em entrevista à NBC News que Teerã “não tem intenção” de fechar a passagem “por enquanto”. A ressalva, entretanto, veio acompanhada de um aviso. Segundo ele, todas as possibilidades serão consideradas caso a guerra continue. Araghchi também reconheceu que o temor de novos ataques já faz navios e petroleiros evitarem atravessar a rota, o que ajuda a explicar o colapso repentino do tráfego marítimo observado nas últimas semanas.
No ar, a situação também se deteriora. Países como Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Iraque e Irã fecharam seus espaços aéreos em meio aos bombardeios.
A capacidade global de transporte aéreo de carga encolheu abruptamente.
Oscar de Bok, CEO da DHL Global Forwarding, afirma que cada semana de paralisação aérea exige pelo menos uma semana e meia para que o sistema consiga recuperar o atraso. Em logística, o tempo perdido raramente é recuperado integralmente.
A consequência já aparece nos aeroportos da Ásia.
Mercadorias se acumulam em centros logísticos na China e no Sudeste Asiático. Stefan Paul, da gigante suíça Kuehne + Nagel, descreveu o cenário para investidores de forma inquietante: o sistema logístico global começa a apresentar sintomas semelhantes aos observados durante a pandemia.
Mesmo os aviões que continuam voando enfrentam obstáculos. Rotas tradicionais que cruzavam o Golfo foram abandonadas. Agora as aeronaves precisam contornar o conflito, voando por corredores estreitos entre o espaço aéreo russo fechado e o campo de batalha iraniano.
Brian Bourke, da SEKO Logistics, descreveu a situação com uma frase que resume o absurdo geográfico da guerra moderna: não é possível voar muito ao norte nem muito ao sul.
Como se isso não bastasse, o preço do combustível de aviação já disparou 72% desde o início do conflito. O transporte aéreo se torna mais caro justamente no momento em que empresas dependem dele para compensar o colapso parcial das rotas marítimas.
Enquanto governos tentam entender o alcance da crise, um setor específico já sente o impacto com força: a agricultura. Três dos dez maiores produtores mundiais de fertilizantes à base de ureia e amônia estão na zona de conflito — Arábia Saudita, Catar e Irã.
Os preços da ureia subiram cerca de 25% em apenas uma semana. Para agricultores que estão entrando no período mais intenso de compra de fertilizantes, isso significa margens mais estreitas e alimentos potencialmente mais caros nos próximos meses.
Guerras raramente ficam confinadas ao território onde começam.
Elas avançam silenciosamente pelas rotas marítimas, pelos corredores aéreos e pelos mercados financeiros.
No caso do conflito com o Irã, o campo de batalha real pode não estar apenas nos desertos do Oriente Médio, mas no sistema nervoso invisível que mantém a economia global funcionando.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



