Os EUA enfrentam uma guerra de verdade: e estão sendo derrotados
"Os EUA entraram em uma guerra, de forma improvisada, contra um povo que sempre rejeitou a submissão a potências estrangeiras"
Na agressão criminosa dos EUA ao Irã ficam evidentes a improvisação e a ausência de um plano de guerra estratégico. Com o retumbante fracasso do plano de mudança de regime iraniano, permanece a dúvida do que os EUA farão agora. Vão apenas infligir destruição ao país? Vão continuar cometendo crimes de guerra, matando civis inocentes, incluindo meninas entre 6 e 12 anos? Qual é o plano de guerra? Os EUA iniciaram um processo mal planejado, do qual esperavam um resultado rápido, que não veio. Por conta disso, eles já não estão mais no controle do processo. Pelo que se pode concluir das manifestações do governo iraniano, o país vai continuar a guerra enquanto lhe for conveniente. Sobre isso, Donald Trump não pode fazer nada, além de reclamar e continuar mentindo até pelos cotovelos.
Donald Trump tem feito declarações sucessivas sobre o sucesso das operações navais no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico. O Comando Central dos EUA (CENTCOM), através do almirante Brad Cooper, chegou a declarar que a coalizão conseguiu afundar "toda a Marinha de guerra" iraniana após atingir cerca de 2.000 alvos.
Essas informações provavelmente estão muito exageradas, como é hábito do governo americano. Análises militares independentes (por exemplo, Andrei Martyanov, analista militar e naval russo-americano, especialista em assuntos militares russos e estratégia naval), confirmam perdas significativas, mas com nuances importantes. Porém, a questão fundamental é que, mesmo que a marinha iraniana esteja toda no fundo do mar, isso não faz a menor diferença. O estreito de Ormuz permanece fechado para a navegação comercial e é isso que importa. A interrupção, que já dura duas semanas, é o bloqueio mais severo da história recente da região.
O fechamento do Estreito, operado pelo Irã no início da guerra como resposta ao ataque traz consequências muito graves. O fluxo de petroleiros e navios de GNL (Gás Natural Liquefeito) está praticamente zerado. Não estão passando por ali também, as matérias-primas para produção de fertilizantes, fundamentais para a produção agrícola mundial. Monitoramentos de satélite mostram que as rotas que costumavam carregar 20% do petróleo mundial estão desertas. Desde o dia 5 de março, as principais seguradoras marítimas cancelaram as coberturas para a região, tornando qualquer tentativa de travessia financeiramente inviável para empresas privadas. Ademais, embora o Irã tenha sido cauteloso na implantação massiva de minas, a presença confirmada de artefatos explosivos em pontos estratégicos impede a reabertura segura do Estreito sem uma operação de varredura em larga escala. Ou seja, o fechamento do estreito de Ormuz nunca dependeu da marinha iraniana.
O governo americano está falando em destruir equipamentos industriais no Irã, como já fizeram em inúmeros ataques anteriores, a outros países. Mas é bobagem supor que, a essa altura da guerra, ainda possa haver equipamentos industriais de alto valor localizados em instalações industriais conhecidas. Provavelmente todos estes locais mais importantes já foram removidos. É bom sempre lembrar que os iranianos estão se preparando para esse embate há décadas, e que têm cometido pouquíssimos erros nesta guerra.
Tecnicamente, haveria maneira de reabrir o estreito de Ormuz, com força bruta. Mas, segundo os especialistas, a operação só poderia ter chance de sucesso se fossem utilizadas forças terrestres. Que teriam que ser norte-americanas, visto que, entre os países aliados dos EUA na região, não há forças armadas com capacidade de enfrentar o Irã. É bom sempre lembrar que o Irã desenvolveu um poder militar baseado na doutrina de defesa avançada e na necessidade de sobrevivência sob sanções, há 47 anos. Nesse período desenvolveu uma Indústria de Defesa Nacional, que fabrica seus próprios mísseis balísticos, drones e sistemas de defesa aérea. Isso fornece ao país uma capacidade técnica que não depende de cadeias de suprimentos externas que podem ser cortadas em uma guerra.
O Irã possui, ademais, um território vasto e montanhoso, população de 93 milhões, além de uma resiliência física e moral que as pequenas monarquias do Golfo, países artificiais criados pelo imperialismo britânico, sequer imaginam o que significa. Além disso, a fibra moral e ideológica do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) e sua rede de aliados regionais (o "Eixo de Resistência": que inclui Hezbollah, Houthis e as milícias iraquianas) possibilitam ao Irã lutar uma longa guerra de exaustão com qualquer país.
Por essas razões, as tropas terrestres teriam que ser norte-americanas. O problema é que a operação, além de custar muito dinheiro, demoraria muito. Os especialistas avaliam que para ser bem-sucedida uma operação dessas teria que ser planejada durante meses, ou até anos. E tempo é tudo que os agressores não dispõem no Irã. Possivelmente o Irã não conseguiria manter tropas nas imediações do Estreito porque os caças norte-americanos e israelenses conseguiriam mantê-las afastadas. O problema é que os agressores não têm uma resposta eficaz aos mísseis balísticos e drones iranianos. Portanto, tropas invasoras por terra no Irã estariam sujeitas aos ataques desses artefatos, além de exigir uma capacidade logística de apoio aos soldados, sofisticada e cara.
Seria uma operação muito custosa e que levaria meses para ser realizada, além de politicamente muito impopular nos EUA. O imperialismo corre contra o tempo. Os EUA têm problemas materiais básicos como a escassez de munições, o que revela como o país está improvisando nesse conflito. O plano era derrubar o regime iraniano em poucas horas e encerrar a guerra com uma rendição do inimigo. Por isso se calcula que os agressores ficaram sem munição em semanas. Além disso tem o problema mais importante: se o estreito de Ormuz continuar fechado a economia mundial entrará em colapso em pouco tempo, o que afeta diretamente o poder econômico dos EUA.
Os EUA entraram em uma guerra, de forma improvisada, contra um povo que sempre rejeitou a submissão a potências estrangeiras. O governo francês se ofereceu para ajudar os EUA. Mas qual a capacidade militar deste país que possa ser útil nessa empreitada? Enquanto os EUA vão tirando falsas soluções da cartola, à medida que a guerra avança os iranianos seguem o seu plano de guerra, meticulosamente construído.
Os analistas de guerra mais competentes têm chamado a atenção para o fato de que as ações dos iranianos na guerra entraram no ciclo de decisão dos norte-americanos. Estes já mudaram o plano de guerra cinco ou seis vezes, a partir dos acontecimentos no teatro de operações. Enquanto isso, os iranianos mantêm o plano pensado com antecedência, em minúcias. Não mudaram substancialmente nada desde o início da guerra. Ou seja, os persas têm a iniciativa das ações, enquanto os agressores imperialistas e sionistas apenas reagem.
Quais as cartas que os agressores ainda dispõem para tentar subjugar o governo iraniano? A capacidade industrial de produção de material bélico dos EUA é limitada, tecnológica e quantitativamente. Além disso, nos últimos anos, o material bélico foi destinado à guerra na Ucrânia (que a OTAN, chefiada pelos EUA, já perdeu de fato) e para o genocídio na Faixa de Gaza, perpetrado pelos assassinos sionistas. Como a estratégia de guerra relâmpago não funcionou, há um risco concreto de falta de munição nas próximas semanas, no lado das forças agressoras.
Ainda é muito cedo para qualquer conclusão definitiva, mas essa guerra parece estabelecer o fim do mito de que o poderio bélico norte-americano seria invencível. Essa percepção não se baseia apenas na destruição física, mas na falência do modelo de supremacia tecnológica e econômica que os EUA sustentaram desde o fim da Guerra Fria. Uma das razões desse fenômeno é o que se chama de "assimetria de custos". Nesta guerra, o Irã vem demonstrando que a tecnologia de guerra americana pode ser superada por meios muito mais baratos. Drones iranianos, que custam cerca de US$ 15.000 (Shahed-136), têm que ser combatidos com mísseis interceptores que custam mais de US$ 1 milhão. E muitas vezes são ineficazes, como se pode observar pelas imagens que vêm de Telavive.
Nesta guerra, perpetrada pelo desespero e pela mais vil ambição econômica e geopolítica, os EUA perderam a condição de "árbitro global" (como gostam de representar) para se tornarem apenas mais um combatente. O mito da invencibilidade já vinha desgastado pelas inúmeras guerras em que os EUA perderam, desde o Vietnã. Mas nesta guerra este mito está sendo substituído pela realidade de vulnerabilidade, especialmente quando se trata de um confronto contra países soberanos e com profundidade estratégica, como o Irã.
Completados hoje 17 dias do início da guerra, o preço do barril do petróleo já está custando algo em torno de US$ 103, 45% superior ao preço vigente às vésperas da guerra. A confluência de fatores que levou a esta crise econômica, provavelmente o mundo nunca enfrentou antes, por isso as consequências são imprevisíveis. Esta guerra deve acabar em definitivo com o chamado mundo da globalização, que antes da guerra já estava moribundo. Tudo indica que caminhamos para um mundo mais instável e escasso em recursos de todo o tipo. Na sociedade moderna, a realidade é que sem energia barata é impossível para as nações darem condições mínimas de vida para suas populações. No curto prazo, o que veremos por parte dos governos é a tentativa de criar mecanismos de acesso à energia barata. Tudo indica que a agressão ao Irã, que aparentemente irá acelerar a decadência do império, tem como uma das suas motivações, a visualização do cenário citado acima.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



