Overdose de fumaça
Veja quais são as prioridades, valores e preocupações dos jornais brasileiros
Um levantamento feito pela ConJur nos portais dos três jornais impressos mais tradicionais do país (Estadão, Folha e Globo) mostra quais são as maiores preocupações da imprensa brasileira. Os números, colhidos em um período de seis meses*, mostram o quanto as prioridades, valores e preocupações dessa imprensa se descolaram da realidade brasileira.
Exemplos: aos olhos dos jornais, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) — com 8.942 citações** — são seis vezes mais preocupantes que o “Primeiro Comando da Capital” (PCC), com 693 citações, e o “Comando Vermelho” (614), juntos.
Os dez criminosos mais procurados do Brasil, segundo o Projeto Captura***, do Ministério da Justiça, são mencionados 74 vezes. Isso significa que o ato de comparecer a um evento acadêmico, por exemplo, preocupa mais do que traficar drogas e armas, matar no atacado e no varejo. Na proporção matemática, os onze ministros preocupam 10.445,95% mais do que os dez piores criminosos do país à solta — cem vezes mais.
A inversão de prioridades é estonteante. As suposições em torno de Alexandre de Moraes, por exemplo, têm importância igual à guerra do Irã ou duas vezes maior que a guerra na Ucrânia. A ameaça de uma terceira guerra mundial na era atômica importa menos do que a suspeita de que ministros traficaram decisões — o que nenhum jornal demonstrou até agora.
O que se ouve x o que houve
Os onze ministros do STF*** merecem, da parte dos jornais, mais atenção e são mais fiscalizados que os setores da Saúde ou Educação. Os ministros Alexandre de Moraes (1.794) e Dias Toffoli (1.094) somam 2.888 menções — críticas presentes em praticamente todos os textos. Pelo filtro dos jornais, Moraes e Toffoli são doze vezes mais relevantes que os 33 ministros do Superior Tribunal de Justiça, incluindo substitutos.
"Há algo de errado no controle de qualidade desses jornais”, afirma o ministro Gilmar Mendes (citado 660 vezes). Ele lembra o que costumava repetir o escritor e jornalista Nelson Rodrigues: "O papel do editor é aproveitar o joio e jogar fora o trigo" — e completa: "Esse jornalismo personifica Mário de Andrade, ao dizer que jornalistas publicam o que ouvem e não o que houve".
Existem diferentes formas consagradas para se medir prioridades e problemas nacionais. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), por exemplo, mede o Índice de Desenvolvimento Humano de cada país.
O que a ONU leva em conta em seu ranking: Saúde (que engloba saneamento, nutrição, acesso a serviços médicos e expectativa de vida), Educação e Renda (padrão de vida e capacidade de consumo). Como mostra o levantamento da ConJur, nenhum dos temas elencados pela ONU é prioridade para a imprensa****.
O que mais preocupa os brasileiros
Para conferir os conflitos mais recorrentes do Brasil, por exemplo, existe a régua do sistema judiciário. A partir das demandas judicializadas, tem-se uma ideia dos problemas que mais afligem os cidadãos. Por essa ótica, sabe-se que o que mais angustia os brasileiros, em primeiro lugar, são as relações de consumo.
Em segundo lugar, vêm os conflitos nas relações de trabalho. A criminalidade aparece em seguida. Não é muito comum ver manchetes sobre esses temas. Ainda assim, ao menos metade das notícias escolhidas pelos editores relaciona-se a supostos atos de corrupção.
O volume de processos relacionados ao bloco de crimes por corrupção é de apenas 0,03%, mas o tema responde por quase metade das manchetes. A expressão é mencionada 1.329 vezes, o que é pouco. Mas há uma explicação.
Da mesma forma que “tráfico de influência” (expressão citada 32 vezes), os ataques ao STF não são frontais. O leitor é induzido a crer que os ministros são corruptos e traficam influência, mas essas expressões não são utilizadas. A falta de provas é um dos motivos.
O nome da jornalista Malu Gaspar é mencionado 289 vezes — o que a coloca à frente de termos como “saneamento básico”, “conflito de interesses”, de todos os ministros do Superior Tribunal de Justiça e de personagens como os dez mais procurados do Projeto Captura, do Ministério da Justiça.
O triunfo da emoção sobre a razão
Entre o que é importante e o que é interessante, o levantamento indica que a emoção se sobrepõe à razão. Na mistura entre entretenimento e fatos, vence o trivial.
A técnica de fantasiar notícias com elementos de entretenimento tem um nome técnico: infotenimento (infotainment, no original). Trata-se de quando o critério de noticiabilidade deixa de ser a relevância e passa a ser o potencial de diversão ou choque.
A espetacularização da notícia consiste em converter supostos fatos em uma narrativa dramática, com mocinhos, vilões e ganchos emocionais, criando no espectador a sensação de um filme de ação. O que se ganha em audiência, perde-se em veracidade, já que o objetivo deixa de ser informar e passa a ser emocionar.
É possível concluir, pelos filtros da ONU e do Conselho Nacional de Justiça, que a imprensa força a mão para emocionar seu público com pretensos sentimentos morais. Sugere-se que a realidade se adapte às notícias. Em termos claros: em busca de protagonismo e visibilidade, o jornalismo brasileiro tradicional engana seu público.
Imagem invertida
O critério utilizado pela ConJur não é inédito. Surgiu nos Estados Unidos no início do século XX. Cientistas políticos sistematizaram a técnica de contar palavras e categorias em discursos de presidentes para medir prioridades, valores e preocupações.
O distanciamento entre o que a imprensa se propõe a esclarecer e o que se publica é total. Ao valorizar mais suposições, ilações e desconfianças do que fatos, instaurou-se a era da insinuação. Para evitar responsabilização, criou-se a acusação indireta, que induz o leitor a concluir que o alvo é criminoso sem que seja necessário comprovar.
Para que se configure crime, não basta que um ministro seja “flagrado” em um evento acadêmico ou que se deduza que ele se vendeu por ter pegado carona no jatinho de alguém. É preciso que o “favor” tenha sido pago com um ato de ofício, ou seja, que haja contrapartida.
Jornalistas, “cientistas sociais”, economistas e outros que opinam sobre Direito deveriam saber que o crime só se configura com a prova do tráfico. Ainda assim, a expressão “ato de ofício” foi citada apenas uma vez nos três jornais ao longo de seis meses de cobertura.
Não faça o que eu faço
As contradições parecem não incomodar. Em um país marcado pelo fracasso educacional, critica-se a participação em eventos jurídicos como se encontros acadêmicos fossem ilícitos. Sugere-se que ministros possam se vender por passagens aéreas, hospedagem ou bebidas caras — enquanto empresas jornalísticas também usufruem de benefícios semelhantes.
Quem sustenta essas teses são profissionais que, nos últimos anos, receberam recursos do Banco Master, nos três jornais, e de empreiteiras condenadas em escândalos como a “lava jato” e o “mensalão”.
Folha, Globo, Estadão e Valor — com todos os seus CNPJs — mantiveram relações comerciais com essas empresas antes e depois dos eventos que promoveram com os mesmos ministros que, em outros contextos, passam a ser tratados como suspeitos.
Não se encontrou uma única menção a jornalistas envolvidos em práticas de extorsão ou chantagem contra empresários e políticos. Talvez porque, no Brasil, tais práticas não existam — apenas acusações de tentativa de cerceamento da liberdade de expressão por parte de adversários políticos.
A venda de desinformação por jornais e jornalistas é tão contraditória quanto um médico que vende doenças em vez de cura ou um professor que vende ignorância em vez de conhecimento. Mais grave ainda é projetar nos outros práticas que se atribuem a si próprios.
*O período analisado da Folha e Estadão foi de 1/10/2025 até 31/3/2026. O Globo, por demora na atualização em seu portal, foi consultado de 1/9/2025 a 28/2/2026;
** Aos nomes de cada ministro somou-se as menções ao conjunto de “ministros do STF”;
*** A lista do MJ inclui criminosos já capturados ou mortos. Esses nomes foram excluídos;
**** A expressão “Saúde”, nos jornais é preponderantemente relacionada a dicas e recomendações em editorias e seções de “bem-estar”, divulgações científicas e notícias em torno de planos de saúde privados — e não análises críticas escandalosas, como no caso do STF).
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



