Parte 02 - O homem doente da Ásia: a crise que levou à queda da monarquia chinesa

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O termo “Homem doente da Europa” foi inicialmente cunhado pelo Czar  russo para descrever o Império Otomano no século XIX e passou a representar a situação onde uma nação estável e próspera, de um momento a outro observa grande convulsão social e declínio econômico, fazendo relação com um homem saudável que de repente se vê vitimado por uma gripe que o leva para a cama e possivelmente para a morte, se não for tratado. Este termo foi aplicado para vários países durante a história européia e também para a China, no período que antecedeu a queda da monarquia.

Após passar por um longo período de prosperidade, aproveitando as vantagens naturais que propiciaram um comércio pujante, a nação chinesa foi vítima da “maldição” da vantagem natural. Este termo se refere a países e regiões que por possuírem condições melhores que os demais, se tornam dependentes destas condições, engessando qualquer mudança ou progresso que poderiam tornar sua economia mais competitiva. Exemplo marcante foi a queda de Espanha e Portugal, que passaram de potências mundiais em sua época para países europeus pobres, pois afundados em ouro das Américas e Ásia, negligenciaram o desenvolvimento industrial que nascia na Inglaterra e Alemanha. No século XVIII, a China atraia os olhares ocidentais, sedentos de usufruir dos produtos e riquezas, mas que fazia um jogo comercial duro, não só por considerar os ocidentais como “bárbaros” e seus produtos desinteressantes, mas para manter sempre alto o preço de seus produtos e evitar evasão de divisas para outros países.

Este cenário começa a mudar com as ações militares britânicas no império a partir do século XIX, sob o pretexto da “liberdade de comércio”, que desencadeou  as guerras do ópio, derrotando os chineses e impondo sob a mira das armas, tratados comerciais extremamente prejudiciais aos orientais. A derrota chinesas serviu como porta para a invasão de outras nações ocidentais e do Japão, que se aproveitaram da situação de fragilidade para atuar por seus próprios interesses. Para a população chinesa, orgulhosa de sua civilização milenar, foi um duro golpe, pois mostrou que as armas e técnicas militares de seu país eram muito inferiores a dos ocidentais, ao contrário do que sempre acreditaram baseados em sua propaganda interna. Foi uma humilhação sem precedentes e que rachou o império, levando não só as invasões estrangeiras, mas uma série de revoltas internas e ações separatistas, que levaram a uma rápida decadência econômica e social. Este processo que perdurou durante o final do século XIX e início do século XX, rendeu a China, a alcunha de “homem doente da Ásia”.

O império chinês, imobilizado por um sistema corrupto e apegado a tradições que impediam a formação de um exército dinâmico, não conseguiu fazer frente aos conflitos internos e externos. Neste período a china perdeu a cidade de Hong Kong, grande centro comercial, para os ingleses, foi derrotada pelos japoneses na guerra sino-japonesa e teve de ceder a ilha de Taiwan e a península coreana ( importante frisar que os generais chineses acreditavam em uma vitória rápida contra o Japão desconheciam o poder militar do adversário),  além de ter seu território retalhado em áreas de influência estrangeira. 

Revoltados com as humilhações impostas a seu povo, líderes marciais se organizaram na Rebelião dos Boxers (Movimento Yihetuan), onde lutadores chineses, crendo nas suas habilidades de combate e em bênçãos de líderes religiosos que garantiram invulnerabilidade contra as armas de fogo dos ocidentais, iniciaram um levante contra os ocidentais no território chinês, matando e expulsando considerável número de comerciantes e cristãos, chegando a cercar prédios diplomáticos na capital Beijing. Os sucessos originais levou o movimento a receber apoio da coroa imperial. Os ocidentais aproveitaram o levante e sob o pretexto de conter o caos na China, formaram a aliança das oito nações ( japoneses, americanos, britânicos, franceses, russos, italianos e alemães) e invadiram o território chinês com um grande exército, ocupando a capital Beijing e impondo definitivo controle imperialista sobre o império. Esta derrota definitiva gerou altos custos de guerra para a já combalida coroa imperial, que se tornou um governo fantoche.

Neste processo de caos e humilhação, começa a se fortalecer o partido nacionalista e as primeiras células do Partido Comunista se formavam em território chinês.

Leia a parte 1.

Leitura Sugerida:

Hoje na História: Em 1901, terminava a revolta dos Boxers. Fonte: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/1153/hoje-na-historia-em-1901-terminava-a-revolta-dos-boxers
Conheça a história da Dinastia Qing, a última da China imperial. Fonte: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2019/10/conheca-historia-da-dinastia-qing-ultima-da-china-imperial.html

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