Pelo fim da escala 6x1: autocuidado, tempo de vida e o desafio civilizatório
O debate sobre o fim da escala 6x1 e a adoção da jornada 5x2 não é apenas uma discussão trabalhista. Trata-se de um debate civilizatório
A própria Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 1º, inciso III, a dignidade da pessoa humana como fundamento da República. Não se trata de uma formulação retórica, mas de um princípio estruturante da ordem jurídica e social brasileira. A dignidade humana pressupõe condições materiais e simbólicas para que cada pessoa possa desenvolver plenamente sua vida, exercer direitos, participar da comunidade e cuidar de si. Uma organização do trabalho que impõe exaustão permanente e restringe o tempo de vida colide frontalmente com esse princípio constitucional.
Em artigo anterior, argumentei que a manutenção da escala 6x1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — compromete não apenas a saúde física e mental dos trabalhadores, mas também a vida familiar, a convivência comunitária e a participação cidadã. Uma sociedade que naturaliza o esgotamento como condição permanente de existência está, na prática, institucionalizando a desumanização.
A defesa da escala 5x2 não é privilégio corporativo; é a afirmação do direito ao tempo de vida. Tempo para conviver, estudar, participar da comunidade, praticar esportes, cuidar da saúde, descansar e refletir. Tempo para existir para além da lógica produtivista.
O grande desafio civilizatório continua sendo a educação. Mas não há educação plena sem condições materiais que a sustentem. A educação compreende um conjunto amplo de ações que se iniciam nas comunidades e nas famílias, prolongam-se pela escola e acompanham o ser humano em todas as fases da vida. Não se restringe ao acesso à cultura letrada; envolve valores, convivência, formação ética e construção de sentido coletivo.
O letramento vai além da capacidade de ler e escrever. Envolve compreender, interpretar e interagir criticamente nos diversos contextos sociais. Falar em educação é falar de formação humana permanente. É um processo que articula saberes, experiências e responsabilidades coletivas.
Entretanto, como sustentar essa formação em um contexto de jornadas extenuantes que comprimem o tempo livre e produzem desgaste contínuo?
É nesse ponto que o debate sobre trabalho se conecta à educação em saúde e ao autocuidado. Educar para o autocuidado significa disponibilizar práticas que indivíduos, famílias e comunidades possam adotar para promover saúde, prevenir doenças e manter o bem-estar. Implica desenvolver hábitos saudáveis, atenção ao corpo, prática regular de atividade física, alimentação adequada, higiene do sono e, sobretudo, tempo para refletir sobre o próprio viver.
Mas o autocuidado não é uma invenção contemporânea nem um modismo individualista. No pensamento grego antigo, o epiméleia heautoû — o cuidado de si — era princípio central da vida ética. Entre estóicos e epicuristas, cuidar de si significava exercitar-se, examinar a própria conduta, disciplinar-se e formar o caráter. A áskesis (ascese) era um conjunto de práticas destinadas à constituição do sujeito.
Michel Foucault, ao analisar essa tradição em A Hermenêutica do Sujeito, recorda que o cuidado de si é “uma prática, uma ocupação, um conjunto de exercícios” que transforma o indivíduo e o capacita à vida ética. Antes mesmo do “conhece-te a ti mesmo”, o cuidado de si aparece como condição para qualquer processo de formação. Trata-se de uma atitude permanente de vigilância sobre a própria vida.
O problema é que não há prática de cuidado possível sob permanente exaustão.
Uma sociedade que organiza o trabalho de modo a suprimir o tempo de descanso impede o exercício do autocuidado e fragiliza a cidadania. Sem tempo, não há participação política; sem descanso, não há reflexão; sem saúde, não há liberdade substantiva.
Por isso, a luta pelo fim da escala 6x1 é também uma luta pela saúde coletiva, pela educação permanente e pela reconstrução do tecido democrático. Garantir dois dias de descanso não é apenas reorganizar a produtividade — é afirmar que o ser humano não pode ser reduzido à condição de engrenagem.
Educar é formar sujeitos capazes de cuidar de si, dos outros e do mundo que habitam. Mas ninguém cuida de si quando vive permanentemente exaurido. Não há cidadania possível onde o cansaço é regra e o tempo livre é exceção.
Defender a escala 5x2 é defender a dignidade da pessoa humana inscrita na Constituição de 1988. É afirmar que o desenvolvimento econômico não pode se sobrepor à vida. É reconhecer que o direito ao descanso, ao cuidado e à convivência são condições estruturantes de uma sociedade democrática.
Em tempos de desumanização crescente, sustentar o direito ao tempo de vida é sustentar o próprio projeto civilizatório.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



