Pesquisas presidenciais agora servem ao jogo político, mas podem mostrar algo relevante

O sociólogo Marcos Coimbra escreve sobre as pesquisas presidenciais realizadas a mais de dois anos do pleito de 2022. "Pesquisas muito distantes da eleição servem mesmo como recurso no jogo politico", escreve. Mas podem indicar tendências, se realizadas com apuro técnico. A que são assim feitas indicam que tanto Haddad como Lula são, neste momento, favoritos

(Foto: Ricardo Stuckert)
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Pesquisas eleitorais, a anos (ou mesmo meses) de uma eleição, servem para algumas coisas. Mas são inúteis para outras. 

Permitem, por exemplo, identificar o nível da avaliação positiva de determinada pessoa, embora isso, a rigor, possa não significar muito do ponto de vista eleitoral. Também servem para dimensionar a notoriedade de alguém, mostrando se o recall de um nome é alto ou baixo, o que, no entanto, tampouco tende a ser relevante na hora da decisão.  

Boa imagem, às vezes, não quer dizer nada. Já vimos, em diversas eleições para prefeito, governador e presidente, como pessoas bem avaliadas podem desaparecer na urna. Inversamente, são vários os exemplos de indivíduos detestáveis que terminam ganhando. Notoriedade, de outro lado, é tudo que alguém precisa para ter uma boa largada na corrida eleitoral, mas costuma ser insuficiente para chegar à reta final com chance de vencer. 

Pesquisas muito distantes da eleição servem mesmo como recurso no jogo politico. Quem contrata hoje uma pesquisa a respeito da eleição de 2022, por exemplo, vai querer usá-la procurando, com seus resultados, afetar a movimentação de aliados e desafetos. Estar bem ou mal em uma pesquisa pode fazer com que o cacife de alguém aumente ou fique menor. 

Essas pesquisas são, no entanto, inúteis para estimar o voto que os candidatos teriam. Eleição, como se sabe, é uma escolha real, entre candidatos reais, em um momento real. 

Neste início de 2020, perguntar às pessoas em quem votariam se a eleição para presidente fosse hoje, é apenas um jogo. Para a quase totalidade do eleitorado, nada do que será relevante daqui a três anos é conhecido. Como estará o País? Para qual proporção de pessoas terá dado certo a aposta em um desqualificado como Bolsonaro? Quais serão os concorrentes? Lula, o preferido da maioria, vai disputar a eleição?   

Desde o final de 2019, estão sendo feitas pesquisas a respeito da próxima eleição presidencial. Natural que se multipliquem, pois, toda vez que é alta a rejeição a um governo, a visualização de seu término representa um alívio. Foi, por exemplo, o que ocorreu logo no começo do segundo mandato de Fernando Henrique, tão ruim que, ainda em maio de 1999, já se pesquisava a sucessão.  

O cenário mais realista para 2022, nas melhores condições de teste, é aquele que fornecem as pesquisas com os nomes de Bolsonaro e Haddad. Em primeiro lugar, porque envolvem dois candidatos concretos, que disputaram, há pouco tempo, uma eleição nacional. Em segundo, porque ambos são candidatos possíveis e prováveis na próxima. Em terceiro, porque contrastá-los permite estimar o tamanho atual do petismo e do antipetismo, bem como do bolsonarismo e seu inverso. Perguntar às pessoas em qual deles votariam, se o segundo turno de 2018 se repetisse, é mais que um ensaio em torno de hipóteses. 

No final do ano passado, duas pesquisas fizeram a pergunta, uma do Datafolha e outra do Vox Populi. Ambas foram realizadas entrevistando o conjunto da população, incluindo os mais pobres (que não têm telefone) e os menos politizados (que não usam a internet à procura de temas e notícias politicas). Ou seja, com amostras do universo do eleitorado, o que votou em 2018 e vai votar em 2022, ao contrário de outras que andam por aí, cheias de vieses e armadilhas para dirigir os entrevistados.       

Os resultados das duas são quase idênticos: de acordo com o Vox, se a eleição fosse agora e os candidatos fossem Bolsonaro e Haddad, o petista teria 41% e o capitão 33% (dados de dezembro de 2019); segundo o Datafolha, Haddad venceria com 42% e Bolsonaro obteria 36% (dados de setembro de 2019). 

É possível inventar nomes e testá-los? Admita-se que sim, mas é necessário lembrar que boa imagem, como têm alguns dos nomes possíveis, e notoriedade, como outros, podem ser irrelevantes. É possível excluir nomes que o patrocinador da pesquisa não quer ou que o pesquisador acha que não irão participar da eleição? Talvez, mas nunca o do favorito, daquele que não disputou a última eleição porque sofreu uma sucessão de golpes e é uma opção perfeitamente legítima para a próxima. 

Quando se apresentam aos entrevistados listas de possíveis candidatos onde consta o nome de Lula, ele vence com folga. Na pesquisa Vox de dezembro passado, teria 43% contra 23% de Bolsonaro, 7% de Luciano Huck, 6% de Ciro Gomes, 3% de João Amoedo e 2% de João Doria. Quase nada muda substituindo alguns desses nomes por congêneres. 

Como se vê, apesar de suas limitações, pesquisas muito antes da hora podem mostrar algumas coisas. Mais do que alguns gostariam.  

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