Pipaluk Lynge: “A Groenlândia não venderá sua alma”
A Groenlândia emerge como símbolo moral, lembrando que preservar povos, culturas e territórios é condição mínima de paz duradoura
A ameaça soou de forma cristalina em 15 de janeiro de 2026, quando Donald Trump afirmou que os Estados Unidos fariam “algo” em relação à Groenlândia, “quer eles gostem ou não”. Dois dias depois, em 17 de janeiro de 2026, a declaração foi reiterada, agora amparada no argumento da “segurança nacional”. Não se tratou de bravata isolada nem de improviso retórico, mas da reapresentação explícita de uma doutrina antiga, perigosa e intelectualmente empobrecida: a ideia de que o poder militar confere direito moral à apropriação preventiva de territórios alheios.
Invocar segurança nacional em um mundo marcado por duas guerras mundiais, dezenas de conflitos armados ativos e uma ordem internacional profundamente fraturada não é apenas controverso — é filosoficamente inconsistente.
Se esse princípio for naturalizado, o que impedirá qualquer país de se apropriar de territórios vizinhos sob o mesmo pretexto? Onde termina a segurança de um e começa a insegurança de todos? Que previsibilidade restará aos países mais pobres, às regiões periféricas, aos povos que vivem nas bordas geográficas e políticas do sistema internacional, do Ártico canadense ao sul do México?
Essa tese é funesta porque destrói o próprio alicerce do direito internacional: a noção de limites, soberania e regras comuns.
A resposta mais firme partiu de Pipaluk Lynge, deputada, ex-ministra e presidente do Comitê de Política Externa e de Segurança do Parlamento groenlandês. Ao afirmar que a Groenlândia não venderá sua alma, Lynge não fazia retórica identitária nem literatura política.
Falava a partir de uma experiência histórica conhecida pelos povos originários: ameaças externas raramente chegam como invasões declaradas; costumam vir camufladas de proteção, racionalidade estratégica ou promessa de prosperidade futura.
A Groenlândia, maior ilha do planeta, com 2,1 milhões de quilômetros quadrados e cerca de 57 mil habitantes, foi incorporada ao Reino da Dinamarca no século XVIII. Desde então, atravessou mais de 300 anos sob administração colonial, marcada por políticas de assimilação cultural, silenciamento político e decisões tomadas longe de sua população.
O resultado, como a história nos mostra, foi uma longa história de tutela, ressentimento e reconstrução lenta da própria voz coletiva.
Hoje, cerca de 90% dos groenlandeses são inuítes. Seus modos de vida, profundamente adaptados ao Ártico, guardam semelhanças diretas com os povos esquimós do norte do Canadá e do Alasca, tanto nas práticas de subsistência quanto na relação simbólica com o território. Essa proximidade não é apenas cultural; é também geográfica. Entre o extremo noroeste da Groenlândia e o Alasca há cerca de 800 quilômetros, separados pelo Estreito de Nares e pelo gelo ártico — uma curta distância cartográfica e uma longa travessia histórica.
Povos semelhantes, submetidos a impérios distintos, mas atravessados pela mesma lógica recorrente: a de que territórios remotos são sempre vistos como reservas disponíveis quando o centro se sente ameaçado.
Desde 2009, com o Ato de Autogoverno, a Groenlândia ampliou sua autonomia política e conquistou o direito legal de convocar um referendo de independência. A prudência, contudo, tem base concreta. Dados oficiais de 2025 indicam que cerca de 20% do PIB do território depende de transferências anuais da Dinamarca, em torno de 3,9 bilhões de coroas dinamarquesas, pouco mais de US$ 560 milhões.
Pesquisas divulgadas em janeiro de 2026 mostram que mais de 70% da população rejeita qualquer hipótese de anexação aos Estados Unidos, preferindo manter o vínculo com Copenhague enquanto amadurece, com pragmatismo, o debate sobre soberania plena.
O interesse norte-americano pela Groenlândia remonta ao século XIX e se intensificou durante a Guerra Fria, período em que bases militares passaram a operar no território sob acordos que garantem amplo acesso estratégico. Nada disso, porém, explica a retórica recente. Insistir em 2026 no argumento da “segura
nça nacional” ignora esse histórico e revela uma contradição profunda: se a Groenlândia já integra a arquitetura militar ocidental, de que segurança adicional se fala? Ou o conceito foi esvaziado a ponto de significar apenas vantagem estratégica unilateral?
Aqui emerge a provocação inevitável. Segurança nacional contra quem? Contra um povo de 57 mil habitantes? Contra o planeta em aquecimento? Contra o próprio futuro coletivo?
A falsa dicotomia entre segurança nacional e segurança planetária precisa ser desmontada com rigor. Não existe segurança nacional em um planeta instável. Não há fronteiras capazes de resistir ao colapso climático, às migrações forçadas, às crises alimentares e à erosão sistemática da cooperação internacional. A Groenlândia não é ameaça; é parte da solução climática global.
Essa dimensão ética ecoa numa história delicada e reveladora. Na década de 1950, o pensador Shoghi Effendi (1897–1957) recebeu uma carta de amigos esquimós que lhe pediam orientação espiritual. Perguntavam como explicar o verso “no jardim de teu coração nada plantes salvo a rosa do amor” a povos que nunca haviam visto um jardim ou uma rosa, vivendo sob o rigor absoluto do gelo. A resposta foi de uma sabedoria desarmante: Shoghi Effendi enviou pequenos frascos de attár de rosas e sugeriu que, quando alguém perguntasse o que eram jardins ou rosas, oferecessem o perfume.
Onde não há flores, ainda pode haver amor. Onde não há jardins, ainda pode haver sentido.
A Groenlândia vive hoje esse mesmo dilema simbólico. Em Nuuk e em vilarejos remotos do leste, o medo é concreto: ver tradições tratadas como entraves, práticas ancestrais criminalizadas e o território reduzido a enclave extrativista. Para povos originários, a história é inequívoca: a ameaça quase nunca nasce dentro; ela chega de fora, armada de mapas, contratos e discursos de necessidade.
O episódio de janeiro de 2026 deixa uma advertência severa. Se a noção de segurança nacional continuar a ser usada como licença para a apropriação preventiva, nenhum território periférico estará seguro, nenhum povo pequeno terá previsibilidade, nenhuma fronteira será estável.
A Groenlândia, ao dizer não, faz mais do que defender sua soberania: confronta uma falácia perigosa e lembra ao mundo que, no século XXI, ou a segurança será planetária — ou não será segurança alguma.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



