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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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Por onde a vista já nem alcança mais

A naturalização da desigualdade, o avanço do crime organizado e os ataques à democracia brasileira

As guerras são a principal causa da fome no mundo (Foto: Imagem criada por IA)
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Um candidato ao cargo mais alto da República defende que crianças devam trabalhar desde a mais tenra idade. O político não diz, mas é possível deduzir quem seriam as crianças aptas a serem escravizadas. Certamente, não seriam seus filhos, sobrinhos ou netos brancos, ricos e bem-nascidos. Essa ausência de ética e falta de empatia que domina a cena política nacional causaria calafrios em Jonathan Swift, autor do panfleto satírico “Uma modesta proposta: para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e torná-los úteis para o interesse público”, de 1729. Há quem concorde com o candidato. Há quem discorde. E também há os que apenas dão as costas e são como aqueles que se afastam de Omelas, como no conto de Úrsula K. Le Guin.

Por sua vez, um medíocre apresentador de televisão, branco, rico e bem-nascido, diz em público que é contra o Bolsa Família, ignorando os dados do Ipea que comprovam que cada real investido no referido programa gera quase o dobro no PIB. Isso sem falar que programas como o Bolsa Família reduziram a extrema pobreza no Brasil em 28%. Mas, quando a pessoa nunca passou privações e ainda enriquece à custa daqueles que passam fome, ela se sente muito à vontade para destilar ódio e preconceito por meio dos discursos fascistoides, maquiados de moderados, da extrema direita sapatênica. Essas pessoas são as mesmas que sempre odiaram o pobre e o preto, e hoje tremem de raiva ao vê-los pelos aeroportos, nas universidades, comprando casas e carros.

Mais para cima, no mapa do Brasil, um certo candidato da extrema direita, conhecido pelo seu eterno ódio ao servidor público, a Lula e ao PT, tem o apoio político daquele grande amigo do Vorcaro, mas esbraveja aos quatro ventos dizendo que não. Como ninguém, a não ser meia dúzia de idiotas, acredita nas balelas e nas invencionices desse coronel, que já passou por mais de dez partidos políticos, o coitado continuará falando sozinho. Contudo, como a candidatura do amigo do Vorcaro, com ou sem foto com Trump, já naufragou, o coronel e o apresentador podem ser as opções da extrema direita brasileira para as eleições de 2026. Quem Vorcaro escolherá?

Sem cargo público, sem parentes importantes e vindo do interior, meu amigo José Dias, morador do Conjunto Ceará, em Fortaleza, me diz não compreender muito bem como uma pessoa dá “de mão beijada” R$ 134 milhões para outra assim, do nada. Também não entende ele como um parlamentar recebe uma fortuna para apresentar uma emenda em favor de um bilionário e continua andando por aí, com a cara mais lisa, como se nada tivesse acontecido. José Dias (favor não confundir com o agregado da casa de Bento Santiago, o Bentinho) também fica sem saber como alguém possui mais de 60 milhões em imóveis, enquanto a Justiça bloqueia outros 27, e ele, que tem mais de 30 anos de trabalho, mal consegue pagar os boletos do mês.

Em seus devaneios, conjecturas e refutações acerca das coisas que se abatem sobre a República e a vida cotidiana brasileira, José Dias não está só. Como ele, sabemos todos e todas que a democracia brasileira continua sob feroz ataque, que o crime está cada vez mais organizado e que seus tentáculos se alastram por onde a vista já nem alcança mais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.