Por que de tempos em tempos – tão curtos – desdenhamos nossa democracia?

Que fazer com uma sociedade que, de tanto imediatismo, recorre ao clamor do "Volta Ditadura Militar" (como se isso não se transfigurasse num trauma abreviado e de tamanho desespero no construto de nação-Estado)?



Brinca-se que o japonês é tão apressado que até o peixe ele o come cru. De fato é uma caçoada desconexa, não somente pela estima à escolha de feitura da iguaria (como prato típico), entretanto, pela deferência do vocábulo "pressa". Há naquela cultura milenar uma paciência sobremaneira. O povo japonês é ultra-disciplinado, tem regras rígidas e claras acerca do contrato social (ao ponto do suicídio de tantas vezes representar a honra de memórias e repactuação do respeito – quando da improbidade factual), reverencia sua cultura, e corre, corre o tempo inteiro para consignar seu progresso enquanto nação, enquanto sociedade.

No entanto, não é dos japoneses que pretendo falar. Quero dissertar um pouco sobre nós, sobre os brasileiros. Somos o paradoxo das máximas sociais. Ao mesmo tempo em que temos uma pressa (o imediatismo) em "resolver" nossos gargalos e interceptar nosso desenvolvimento lógico, também nos atrasamos o tempo inteiro para as realizações óbvias. Vamos pensar a respeito – e melhor – mais abaixo. Antes, porém, deixe-me fazer um parêntese providencial: fique claro que não sou daqueles que acha que nossa cultura é inferior a dos outros povos (países). Aliás, bem ao contrário, carrego a síndrome de Policarpo Quaresma, em que pese, sobressalto às "coisas" do Brasil, e as valorizo até em distribuições de varejo.

Acentuando nossa recordação acerca dos povos do oriente, existe uma lição dos povos da China que merece nossa atenção. Trata-se do "bambu chinês". O que dizem a respeito é o seguinte: plantada a semente do arbusto, durante 5 anos não se verá nada brotar evidente (apenas um pequenino germinar do bulbo exporá a existência da planta). Porém, nestes 5 anos, todo o seu crescimento é subterrâneo, invisível a olho nu. A estrutura maciça e fibrosa de sua raiz se entenderá dezenas de metros por entre a terra. Após 5 anos o bambu chinês iniciará seu processo de crescimento para cima para o lócus da superfície. Ao final de um ciclo, uma gigantesca planta ficará visível às pessoas na sua fabulosa altura de 25 metros lançado ao ar.

Japoneses, chineses, enfim. Talvez a sabedoria desse povo esteja conjugada na estratégia que lhes pondera o crescimento: o tanto que eles se desenvolvem para cima, o fazem para baixo. E o "para baixo" bem podemos empreender um conjunto de acepções alternativas. Que tal tentarmos algumas?!

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A introspecção daquela gente, é possível, derive de tantas dores e guerras e angústias. Obviamente, o caráter das várias centenas, milhares de anos de aprendizado também os conjecturam maiormente convencionais. Não obstante, este acúmulo lhes permite um colegiado social mais estático e um escambo cultural sem medidas. O "para baixo" pode ser sintetizado em dor (quanto às pestes, guerras, invasões etc.); reflexão (quanto à clareza de para onde se deve ir a partir de um ponto); e poder do aguardo (capacidade óbvia de esperar cada tempo das coisas sem, contudo, perder tempo em nada). É exatamente neste instante em que se pode compreender o "para cima". Querem crescer, querem galgar outros acúmulos (desconsidere em grande parte a tese econômica do acúmulo de capital, de bens; aqui nos reportamos ao acúmulo com os pressupostos em outros valores além). E por isso têm tanta pressa e tanta disciplina para se desenvolverem.

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Vamos ousar propor um novo termo (neologismo) apenas a título de fomentar bem seu contrário, qual seja, a "extrospecção". Somos um povo – brasileiro – que, bem menos que alimentar os conteúdos que nos dizem respeito, observá-los a partir do interior de nossa mente, envolvemo-nos numa espécie de histeria coletiva pela qual nos demove a estabilidade emocional-pragmática, consequentemente, tardia nosso desenvolvimento (pessoal, social, econômico e, por que não, institucional-político).

Ora, chegamos ao ponto que nos devota a real intenção deste texto. Que fazer com uma sociedade que, de tanto imediatismo, recorre ao clamor do "Volta Ditadura Militar" (como se isso não se transfigurasse num trauma abreviado e de tamanho desespero no construto de nação-Estado)? Como acreditar numa gente que a menos de 30 anos – vamos repetir pra ficar claro: a menos de 30 anos – consolidou-se como "País Democrático" e agora anseia pela retirada abrupta da Presidência da República alguém que – podemos até ter raiva disso, mas – foi eleita pela soberania do povo; pelo voto; pela maioria? Há que se ter respeito com uma sociedade que vai ao escárnio de 10 em 10 minutos com as suas instituições? Ou mesmo os detentores de mandato e de poder junto a essas instituições, que o exercem de "brincadeira", a seu bel-prazer na esbórnia de seus deleites retóricos, conceituais evasivos, ou de interesses medíocres e apequenadas decisões? Que nação será respeitada se as instituições são tão frágeis, tão sensíveis, tão insipientes? Temos tão pouco tempo de democracia e já a desejamos limada dessa maneira, tão rápida? Não temos paciência para construir novas hegemonias, novas teses, novos projetos, novas maiorias, e a nossa única arma óbvia é o "Golpe"?

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Pensemos, minha boa gente brasileira. Pensemos como brasileiros – e com orgulho disso –, todavia, também com a destreza e o acúmulo de outras nações, dos povos do oriente (como os sul-coreanos, que nem citamos seus rígidos investimentos na educação, os chineses, os japoneses), por exemplo. Vale mesmo a pena após incontáveis sacrifícios nos desmoralizarmos tanto aplicando um remédio tão ruim e tão oportunista (irresoluto, no médio prazo) ao ponto de destruir tudo o que foi construído nestes últimos 30 anos? Por que não tirar a Dilma (e o PT) no voto, na democracia? Por que não lutam por um novo projeto que tenha novos líderes e justos (se é isso que estão buscando de fato)? Por que arriscar outro atentado à Constituição e seus institutos cidadãos? Por que Golpe? Quatro anos passam rápidos. A ruptura, a quebra de contrato social (desrespeito à democracia) é traumática e dura para sempre. Não envergonhem seus filhos e sua pátria perante outros países e, sobretudo, perante a história que está chegando bem ali. E por favor, dêem um recado a estes deputadozinhos e juizezinhos que temos no Brasil (somente àqueles que brincam de fazer política e justiça e não a condizem): respeitem-nos! Não somos seus fantoches. Parem de nos usar a seu júbilo mesquinho e seus deboches (e risos) demagógicos.

O provérbio do bambu chinês nos ensina outra lição: que embora rígido, duro, este arbusto não é inflexível. Quando a ventania é intensa ele enverga o quanto for preciso para não quebrar. Estamos em meio a uma crise econômica internacional. Aqui no Brasil, não bastasse a crise que atrapalha a produção e o emprego das pessoas, ainda temos de conviver com uma crise política pouco vista em nossa história. Apequenada pelos interesses de uma minoria egoísta – mas que domina. Somente a sabedoria do povo valerá de esperança para este País. E voltando aos japoneses, a sua devoção a uma árvore – insígnia daquela nação –, a cerejeira é algo que merece ao lado do encanto, uma abordagem crítica. Durante todo o ano por tantos séculos, uma das festas mais aguardadas pelos milhões de japoneses é a festa da floração da Sakura (como a chamam). Não é somente pela beleza (que por si só valeria), contudo, pelo simbolismo daquela cultura. Cada primavera marca um evento necessário àquele povo. Trata-se da noção de "esperança" de "renovação" da vida e das hipóteses postas para o japonês.

Pretendo encerrar meu texto aludido de metáforas da Natureza – bem utilizadas nos rincões do oriente aqui citados – certo de que a principal lição que devemos obter enquanto povo pertencente a um dos maiores e melhores países do mundo vivenciando este lastimoso momento de nossa história é a seguinte: ou temos paciência, firmeza, flexibilidade e sabedoria para enfrentar a crise; ou sucumbiremos na vergonha de uma gente que só é capaz de resolver seus próprios problemas recorrendo sempre a rupturas traumáticas em desdenho à evolução que nos é merecida. E como há muito que se aprender com nossa própria gente: aqui no interior do meu Brasil se diz que "o apressado come cru". E não se trata de nenhuma iguaria de refinado sabor. Comeremos "crua" nossa próxima involução.

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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