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Pedro Benedito Maciel Neto

Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007.

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Praia, Pelé, AI-5 e cartões perfurados

Memórias de infância

O ano era 1970 e, naquele janeiro, meu pai alugou um apartamento no litoral, na cidade de São Vicente, para as férias; fomos de Kombi, o “piloto” foi o Jesus, marido da Yara, prima do meu pai.

Naquele tempo ninguém usava cinto de segurança, os adultos fumavam no carro e em lugares fechados; as crianças brincaram a viagem toda, a Kombi parecia enorme e cheia de possibilidades.

Para os mais jovens que não sabem o que é uma Kombi, podemos dizer que ela é a bisavó das vans; foi produzida entre 1950 e 2013 e saiu de linha quando freio ABS e airbag frontal duplo tornaram-se obrigatórios, exigências incompatíveis com um projeto de quase setenta anos.

Estávamos superanimados e ansiosos, não sei quantas vezes perguntamos: “- já está chegando?”, afinal, queríamos “nadar no fundão” com meu pai, rever o tio João, irmão de minha mãe, e a tia Ivani.

Com o tio João ao nosso lado havia certeza de grandes aventuras e impunidade absoluta; hoje sei que a nossa felicidade contrastava com um tempo de trevas, sobre o qual meu pai e meu tio conversavam reservadamente. Exatamente um ano depois, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, cuja história é retratada no filme "Ainda Estou Aqui", foi assassinado pela ditadura militar.

Voltando à viagem.

Além dos meus pais, minha avó Maria e a tia Neuza também participaram da aventura ou desventura, pois cuidar de seis crianças, por certo, exigia muita energia.

Chegamos a São Vicente “armados” com pranchas de isopor, baldinhos e pazinhas coloridas, bolas de futebol, raquetes e petecas de plástico, além de uma disposição enorme para desbravarmos cada infinito espaço imaginário daquela que era a maior e mais bonita praia do mundo.

Riamos à toa e de tudo, por isso ouvíamos dos mais velhos: “quem ri muito acaba chorando”; quase sempre eles estavam certos.

Bem, enquanto os adultos descarregavam a Kombi — malas, mantimentos, roupa de cama, muitos brinquedos e jogos (para os prováveis dias de chuva) — nós brincávamos e corríamos na frente do prédio. Nos despedimos do Jesus, cujas tarefas eram: nos conduzir com segurança à praia e levar a Kombi para atender às demandas do dia a dia do pequeno negócio do meu pai.

Meu pai foi a pessoa mais bonita, forte e inteligente do mundo e, nessa viagem, pude observá-lo pescando. Ele saía bem cedinho, ia à ponta da praia e eu o acompanhava e, em silêncio, observava o seu cuidado na preparação das iscas e a paciência monástica necessária para o sucesso dessa atividade (tive certeza de que esses não seriam talentos que eu desenvolveria).

O Brasil ainda não era tricampeão do mundo, o Pelé estava sendo questionado na seleção, o AI-5 era cruel realidade e a loteria esportiva era feita em ‘cartões perfurados’ (um cartão perfurado contém informação digital representada pela presença ou pela ausência de furos em posições predefinidas; eram usados no ‘século passado’ para processamento e armazenamento de dados).

Pelé voltou tricampeão do mundo do México.

E, apesar do revisionismo vil que se instalou no Brasil a partir de 2013, o relatório final da Comissão Nacional da Verdade reconheceu oficialmente 434 casos de mortes e desaparecimentos políticos durante a ditadura militar brasileira; dos 434, um grande número corresponde a pessoas cujos corpos nunca foram entregues às famílias, permanecendo como desaparecidos políticos. A mesma ditadura criou a “Vala de Perus”, uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus (SP), que é um dos maiores símbolos, onde foram encontradas centenas de ossadas, incluindo desaparecidos políticos. Estudos posteriores à Comissão da Verdade indicam que o número de vítimas, especialmente no campo, pode ser drasticamente maior. Uma pesquisa aponta mais de 1.600 camponeses mortos ou desaparecidos entre 1964 e 1988 e, segundo a organização Human Rights Watch, estima-se que cerca de 20 mil pessoas foram torturadas durante o regime, sem contar que pesquisas indicam que 41 lideranças do movimento negro foram assassinadas ou desapareceram.

Mas nós, como tantas outras pessoas da minha geração, estávamos alheios a tudo isso.

Não sei se as férias foram ‘fantásticas’ para minha mãe, pois, apesar da ajuda, éramos crianças de seis anos a um ano e três meses, demandando a atenção tão própria dessas idades. Mas eu só tenho na memória o seu sorriso, a revelar sua principal virtude: a generosidade.

Não sei quantos dias ou semanas ficamos lá, mas, na minha lembrança, foi muito tempo.

Aos finais de semana, o tio João aparecia por lá com a tia Ivani, era uma alegria.

E naquele verão fui promovido pelo tio João de “simples sobrinho” para “sobrinho secretário”, ou apenas “secretário”, como ele passou a me chamar. Como “sobrinho secretário”, minha incumbência era, principalmente, manter-me atento à beleza em movimento, o que seria censurado hoje.

A beleza, como me ensinou o tio João, está sempre a caminhar e a distribuir sorrisos e oportunidades, os quais, com bondade de ânimo e respeito, podemos apreender e desfrutar.

Foram férias inesquecíveis, simples, como eram as coisas antigamente, mas maravilhosas, mesmo que num tempo de medo e maldade.

Essa é a história das nossas férias em São Vicente, contida na História do Brasil, num tempo de paradoxos e dores esquecidas ou, injustamente, mitigadas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.