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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Precariedade do Sistema Cantareira pode agravar efeitos do El Niño em São Paulo

O maior problema da Região Metropolitana de São Paulo é que seus reservatórios ainda não se recuperaram totalmente da fatídica seca de 2014

Sistema Cantareira (Foto: Sabesp)
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A proximidade do El Niño e a possibilidade de o fenômeno ser o mais forte dos últimos anos gera indesejável sensacionalismo na imprensa. A população precisa dar tempo ao tempo antes de se assombrar. O Poder Público, este sim, deve se antecipar e trabalhar para evitar, ou ao menos amenizar, possíveis catástrofes. É preciso que se diga, no entanto, que as últimas tragédias causadas por ventos, chuvas ou secas  relacionam-se muito mais com o aquecimento global do que com “o menino”.

“É para este cenário que nós devemos estar preparados: seca nas regiões Norte e Nordeste, chuvas na região Sul e ondas de calor. Isso significa que teremos desastres de grandes proporções? Não, não significa. Significa que vai se repetir o evento de 2024, no Rio Grande do Sul? Não, não significa. Aquele evento foi resultado de uma combinação de fatores, e, para acontecer de novo, precisa ocorrer de novo aquela mesma combinação. O El Nino foi um dos ingredientes”, explicou à coluna Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. 

Norte e Sul, portanto, são as regiões brasileiras mais suscetíveis aos efeitos do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, fenômeno batizado de El Niño. Mas São Paulo, especialmente a Região Metropolitana, onde os cidadãos vivem o caos a cada chuva mais forte, não está imune.

“Normalmente, a chuva se torna mais irregular em toda a Região Sudeste com o El Niño. Isto é, há momentos com muita chuva, momentos mais secos dentro da estação chuvosa, algumas áreas mais vulneráveis do que outras. Nós temos histórico de casos de seca com episódios do El Nino, e outros em que houve chuvas acima da média com episódios semelhantes. Não dá para prever”, esclarece Seluchi.

O maior problema da Região Metropolitana de São Paulo é que seus reservatórios ainda não se recuperaram totalmente da fatídica seca de 2014. O El Niño, ao provocar a elevação da temperatura, contribuirá com uma maior evaporação das águas dos lagos que abastecem a região. “Outro aspecto que pode prejudicar São Paulo é que, se houver um atraso do início da estação chuvosa não região Norte, isso pode causar também um atraso do início da estação chuvosa no Sudeste”, alerta o cientista do Cemaden.

Uma situação de atraso da estação chuvosa, agravado por temperaturas elevadas, pressionará o sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Nesse sentido, portanto, o El Nino é uma péssima notícia. “Depois, na estação chuvosa, nós não sabemos como será, até poderá ser uma estação favorável e os reservatórios ganharem uma recarga, por exemplo. A estação chuvosa passada não foi muito boa. O reservatórios não estão numa situação crítica, mas também não estão numa situação confortável”, avalia Marcelo Seluchi.

O Sistema Cantareira, desde o colapso de 2014, vive uma situação de fragilidade, porque as chuvas estão se tornando cada vez mais fracas - se for considerado o total de chuva anual nas últimas seis décadas no Sudeste, o volume só decai. E isso nada tem a ver com El Nino, mas com outras questões de longo prazo como mudanças climáticas e alterações no uso do solo. Em síntese, a precariedade do sistema é um fator agravante dos possíveis efeitos do El Niño.

O governo Tarcísio de Freitas argumenta que, com a privatização da Sabesp, a nova estrutura de saneamento permitirá acelerar investimentos em segurança hídrica. Nada de concreto nesse sentido foi visto até agora. Tecnicamente, o Sistema Cantareira não está em colapso permanente, mas opera com vulnerabilidades estruturais. Em 2025 e 2026, houve momentos em que os reservatórios ficaram em faixas de "atenção" ou até "restrição", mostrando que a segurança hídrica da região ainda depende fortemente do regime de chuvas e de obras complementares.

Super-El Niño?

Em termos nacionais, o grande temor é que se tenha a partir de julho-agosto um Super-El Niño. Porém, segundo Seluchi, ainda não é possível afirmar categoricamente que isso ocorrerá. “Sobre a intensidade do fenômeno, existem alguns modelos indicando temperaturas até 3 graus acima do normal na região central do Pacífico, sendo que com 2 graus já é considerado um Super-El Nino. O problema é que há uma disparidade muito grande entre esses modelos de previsão, e todos eles, absolutamente todos eles, neste momento têm baixa capacidade de prever a intensidade. Então, a gente deve esperar mais perto para saber qual será a força do El Niño”, detalha o especialista. E prossegue: “Existe hoje 35% de chance de, lá pelo fim de 2026, o fenômeno atingir a categoria de Super-El Nino, mas essa previsão tem baixa confiabilidade ainda. Sem muito risco de me equivocar, eu diria que a menor probabilidade é a de ele ser fraco - deve ser de moderado para cima, não será um El Nino de fraca intensidade”.

Quando o El Niño é mais mais intenso, ele predomina sobre outros fatores meteorológicos e climáticos, portanto seus impactos se tornam mais presentes. Por exemplo, tem-se seca nas Regiões Norte e Nordeste e mais chuvas na Região Sul. Esses são os impactos  mais  claros. Em princípio, não existe, segundo Seluchi, uma correlação entre a intensidade do El Niño e a intensidade dos impactos - mesmo acontecendo um Super-El Niño, não há garantia de uma super-seca ou uma super-chuva.

O coordenador do Cemaden finaliza de olho na mídia: “Há muita incerteza ainda, há muito sensacionalismo infundado, porque as previsões ainda não têm confiabilidade suficiente. Mas, certamente, precisamos estar preparados. Não podemos descartar um Super-El Nino, de forma nenhuma. E não podemos descartar impactos graves em decorrência disso. Não podemos descartar, mas não temos uma previsão confiável. Sair publicando, anunciando impactos catastróficos, é no mínimo improcedente e até um pouco irresponsável”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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