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Paulo Silveira

Sócio fundador do Observatório das Adições Bruce K Alexander (www.observatoriodasadcoes.com.br). Membro fundador do movimento "respeito é BOM e eu gosto!" (www.reBOMeg.com.br)

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Psicoterapia Corporal em Grupo III

Um paciente em um processo psicoterapêutico deve ser igual a um espectador na plateia de um concerto de música

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Dando prosseguimento ao texto que vem sendo publicado, refletiremos sobre duas questões fundamentais no processo terapêutico: a relação psicoterapeuta / paciente e o psicoterapeuta em grupo.

Como vocês devem ter observado, não temos a intenção de produzir reflexões profundas e/ou complexas e/ou... nossa intenção não vai além de problematizar alguns aspectos que considero relevantes para uma melhor compreensão do tema central de nossas reflexões.

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4) A Relação Psicoterapeuta / Paciente

Imaginemos o seguinte diálogo entre o paciente e seu psicoterapeuta:

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paciente:  Decidi me separar.

psicoterapeuta: Se separar?

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ou

psicoterapeuta:  Por que você quer se separar?

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ou

psicoterapeuta:  Por que você não quer continuar casada?

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ou

psicoterapeuta:  Permanece em silêncio

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O que determinaria ao psicoterapeuta qual seria a abordagem mais correta, nessa situação hipotética descrita acima?

Se observarmos bem, cada uma das respostas do psicoterapeuta poderá conduzir o diálogo para uma direção totalmente distinta da outra, então o que fazer?

Será que se poderia responder a essa pergunta sem antes analisar-se em que contexto se dá esse diálogo?

Na busca de fórmulas mágicas como respostas de perguntas sem soluções, fazem-se afirmações de todo o gênero. A sede por estabelecer verdades e conceitos é enorme. Mas o que são verdades e conceitos senão acordos realizados entre indivíduos que os permite referirem-se a um mesmo objeto ou fato de uma mesma forma.([1])

A própria psicanálise, ao pretender se estabelecer como ciência, comete o equívoco de achar que tem que estabelecer conceitos classificatórios a respeito dos indivíduos e procedimentos.

".. a Ciência é como o amor; um interesse exclusivo pelos aspectos técnicos, certamente conduz à impotência." ([2])

Muitas vezes percebo que o psicoterapeuta fica tão preocupado em classificar seu paciente e estabelecer o procedimento "mais correto" que se esquece do paciente. Acaba por cuidar da doença e abandona o doente.

 Sempre que eu entro em meu consultório, procuro deixar do lado de fora tudo que eu li, estudei, ou refleti em minhas supervisões, cursos, etc. Procuro me concentrar naquela pessoa que está a minha frente, com a consciência que ela é única e o que viveremos nos momentos seguintes, nunca mais se repetiria.

Isso se deve ao fato de ter sempre acreditado ser fundamental a qualidade da relação entre o psicoterapeuta e seu paciente. É em decorrência dela que o paciente se permitirá aprofundar mais ou menos em suas questões, se expondo ou não durante a sua terapia. Sem a confiança mútua e a cumplicidade, todas as abordagens estarão incorretas. Com elas, salvo posições extremadas, a vivência será preponderante e o paciente poderá saciar sua sede na fonte da relação.

Acredito, sinceramente, que o psicoterapeuta tem o papel central na construção da relação com seu paciente e é fundamental que o psicoterapeuta tenha a consciência da importância de seu papel na relação com o paciente.

Podemos perguntar: como a separação de sujeito e objeto, de bebê e mãe, parece de fato acontecer, e acontecer com proveito para ambos, na grande maioria dos casos? E isso, apesar da impossibilidade da separação? (O paradoxo tem de ser tolerado.)

A resposta pode ser a de que, na experiência que o bebê tem da vida, na realidade em relação à mãe ou figura materna, se desenvolve geralmente certo grau de confiança na fidedignidade da mãe, ou (em outra linguagem, própria da psicoterapia), o paciente começa a sentir que o interesse do terapeuta não se origina necessariamente de um dependente, mas de uma capacidade, nesse terapeuta , de se identificar com o paciente, a partir de um sentimento do tipo 'se eu estivesse em seu lugar'...

Em outras palavras, o amor da mãe, ou do terapeuta, não significaria apenas o atendimento às necessidades da dependência, mas vem a significar a concessão de oportunidade que permita ao bebê ou ao paciente, passar da dependência para a autonomia.

Um bebê pode ser alimentado sem amor, mas um manejo desamoroso, ou impessoal, fracassa em fazer do indivíduo uma criança humana nova autônoma. Onde há confiança e fidedignidade há um espaço potencial, espaço que pode tornar-se uma área infinita de separação, e o bebê, a criança, o adolescente e o adulto podem preenchê-la criativamente com o brincar, que, com o tempo, se transforma na fruição da herança cultural.” ([3])

Durante todo o processo, eu tenho cuidados especiais com a minha relação com o paciente. A cada etapa do processo concluído, a cada degrau que subimos, eu e o paciente, faço questão de voltar lá para relação, com um carinho especial.

Frequentemente, faço avaliações do meu trabalho junto a meus pacientes, escutando suas sugestões, o que me é de enorme valia.

Costumo dizer para meus pacientes que não estou ali para agradar a ninguém. Acredito que quanto mais delicada for minha relação com os pacientes, mais fácil será a relação deles com suas vidas. Não quero dizer com isso que, "quanto mais sofrida for uma sessão de terapia, melhor para o paciente". Em minha opinião, a aplicação dessa regra transforma o processo psicoterapêutico em uma relação sadomasoquista. Delicada é diferente de sofrida.

Penso que quanto pior a sessão, pior o terapeuta terá feito o seu trabalho. 

O psicoterapeuta é pago para auxiliar ao paciente a aprender a lidar com seus medos de tal maneira que deixem de ser seus adversário e passem a ser seus aliados, o que acredito que será muito mais fácil se evitarmos a dor. Só que para se mexer em uma ferida aberta, muitas vezes não se têm como evitar a dor e aí, a sessão se torna sofrida por contingência e não por objetivo, até porque o sofrimento vem acompanhado por um sentimento de alívio e não de angústia.

Outra questão que costumo levantar, é que provavelmente iremos conviver por mais tempo que os pacientes desejam. Vejo essa questão assim:

Na sociedade em que vivemos, infelizmente, não se tem o hábito de recorrer a profissionais da área de saúde preventivamente, salvo raríssimas exceções. A psicoterapia seria bastante mais produtiva e prazerosa se fosse realizado de uma forma preventiva. Frequentemente as pessoas procuram a psicoterapia com comprometimentos bastantes sérios. Essas questões trazem para o processo um sentimento de ansiedade, tornando, tudo, urgente e emergente. Devido a isso, a primeira etapa do processo fica praticamente sendo uma etapa para se trabalhar essas questões objetivas, em outras palavras, uma arrumação da casa. Só depois de concluída essa etapa é que é possível se iniciar o processo psicoterapêutico propriamente dito, de questionamento e transformações. Algumas pessoas se dão por satisfeitas quando essa primeira etapa é concluída, principalmente os homens, e se dão alta. Acredito que o consumismo desenfreado em que vivemos e o custo bastante alto do processo terapêutico são dois fatores que contribuem, também, para a condução do processo dessa forma pelo paciente.

Outro fator que contribuía, consideravelmente, era a minha filosofia de trabalho. Acredito que quanto menos tempo o processo terapêutico levar como um todo, melhor psicoterapeuta estou sendo. Mas, de nada adiantaria se subir apressadamente uma escada e, ao chegar lá em cima, descobrir-se que se tem medo de altura. O melhor, é ir subindo degrau a degrau, e a cada etapa concluída, parar para refletir sobre todo o caminho percorrido. Assim, temos tempo para refletir sobre o que está sendo feito, nos apropriando do processo, nos possibilitando regressar ou mesmo interromper o processo a qualquer momento.

Quero, porém, chamar a atenção que o que ”dava certo” na minha relação com meus pacientes não necessariamente estava certo ou o que “dava errado” estava errado. Vejo assim essa questão: o que dava certo era o que eu e eles soubemos ou podemos fazer naquele momento e o que não dava certo é o que não soubemos ou não podemos fazer naquele momento. Em qualquer uma das situações, aprendemos alguma coisa. Pelo menos, aprendemos, como não podemos ou não devemos proceder em uma determinada situação.

5) O Psicoterapeuta em Grupo

De acordo com a minha experiência, atuar como psicoterapeuta em grupo, é bastante difícil, uma vez que:

· as relações entre o psicoterapeuta e cada um dos integrantes do grupo são independentes, o que proporciona uma intensificação da transferência na relação com o psicoterapeuta e entre os componentes do grupo, intensificando muito todo o processo terapêutico;

· o psicoterapeuta se expõe a críticas dos integrantes do grupo, ficando sob o olhar de todos os participantes do grupo e a disputa por atenção é intensa, até porque o psicoterapeuta opera como a vela em um barco à vela;

· é favorecida fortemente a situação transferencial de pai-filho-irmãos, o que ocasiona uma permanente luta, entre os pacientes, pela liderança, o que determinaria o lugar do “herdeiro”, e pelo lugar de filho dileto, o qual seria o “abençoado”;

· abre-se espaço para situações transferenciais entre os integrantes do grupo e é muito interessante que aconteça, pois faz parte do processo. Cabe ao psicoterapeuta saber conduzir as situações de tal forma que a transferência se torne positiva e não destrutiva;

Uma das questões básicas em um grupo de psicoterapia e, que procuro tomar cuidado, é com a exposição dos participantes. A exposição em grupo é inevitável. Essa exposição é agravada pela disputa natural ou da liderança ou de ser o paciente preferido. Alguns participantes acreditam que, uma vez estando em grupo, aquele que tiver mais "clareza" a seu respeito e mais "coragem" de se expor, será o "melhor" paciente. 

Salvo raríssimas exceções, esse movimento acaba sendo suicida, não só para o indivíduo como também para o grupo. Se mais alguém do grupo resolve participar da competição dessa forma, essa competição pode não só inibir os demais, como também, quando os dois ou mais "heróis" vierem a se perceber, poderão estar em um lugar perante ao grupo que não terão como sustentar.

Lidar com essa situação é extremamente difícil e delicado. Tanto se pode estimular a exposição, como pode-se esvaziá-la, deixando para mais tarde, o trabalho mais contundente a esse respeito. 

· deve-se tomar muito cuidado com as interpretações, raramente as faço. Primeiro por não acreditar na eficácia delas, prefiro que o próprio paciente possa chegar as suas conclusões através de vivências. Segundo por correr o risco de se tornar invasiva e expositora demais. Quando as faço, procuro ter o cuidado de não só não invalidar o que está sendo dito pelo paciente, quanto de deixar claro que é uma suposição minha.  

Sobre essa questão também concordo com Sandor Ferenczi e com Winnicott quando afirmam:

"Tanto para o médico quanto para o paciente, a convicção do bem fundamentado da interpretação analítica dos sintomas neuróticos só se adquire pela transferência. As interpretações analíticas, mesmo que pareçam cativantes e notáveis, não poderão levar à convicção somente por meio do material psíquico suscitado pela associação livre, mesmo que o paciente deseje e se esforce nesse sentido. Tal convicção não implica a impressão do caráter indiscutível, exclusivo da verdade. Tudo se passa como se a reflexão lógica, a compreensão intelectual não permitissem chegar, por si só, a uma verdadeira convicção. É preciso ter tido uma vivência afetiva, ter experimentado na própria carne, para atingir um grau de certeza que mereça o nome de "convicção". Assim, o médico que só estudou a psicanálise nos livros, sem se ter submetido pessoalmente a uma análise profunda nem adquirido a experiência prática junto dos pacientes, dificilmente poderá estar convencido da correção dos resultados da análise. Pode conceder-lhes um certo crédito, ao ponto de se avizinhar, às vezes, da convicção, mas a dúvida recalcada subsiste em segundo plano." ([4])

"Interpretação fora do amadurecimento do material é doutrinação e produz submissão (Winnicott, 1960a). Em consequência, a resistência surge da interpretação dada fora da área da superposição do brincar comum de paciente e analista. Interpretar quanto o paciente não tem capacidade para brincar, simplesmente não é útil, ou causa confusão. Quando existe um brincar mútuo, então a interpretação, segundo os princípios psicanalíticos aceitos, pode levar adiante o trabalho terapêutico. Esse brincar tem de ser espontâneo, e não submisso ou aquiesceste, se é que se quer fazer psicoterapia." ([5])

6) Os recursos terapêuticos

Durante todo esse processo tem sido importantíssimo a possibilidade de utilizar de recursos da "dita" terapia corporal. Digo "dita", porque para mim toda terapia é corporal.

Não que a possibilidade da utilização da psicanálise seja menos importante. No trabalho que realizo, a psicanálise e a terapia corporal, tem igual importância, ocupando, porém, espaços diferentes. Me utilizo dos recursos da psicanálise durante o processo de investigação e dos da terapia corporal para a vivência. Tenho muito cuidado na utilização dos recursos que a terapia corporal trouxe para dentro do consultório psicoterapêutico. Acredito que é o paciente quem tem que ser o condutor do processo. Eu, como psicoterapeuta, devo acompanhá-lo, aonde me fosse possível estar, e ir, simultaneamente, oferecendo os recursos que disponho para facilitar seu caminhar, dentre eles a massagem, exercícios, meditação, etc.

Uma outra alternativa de trabalho que encontrei foi a de indicar livros para a leitura. Nunca indico livros técnicos de psicologia. 

Como me disse uma vez um supervisor meu (Paulo Blank), um paciente em um processo psicoterapêutico deve ser igual a um espectador na plateia de um concerto de música. Não precisa saber ler as partituras, basta gostar ou não do que está vivendo.

Existem livros que indico com muita frequência, como por exemplo: 

A Bolsa Amarela, de Ligia Bojunga Nunes, ed. Agir; 

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, ed. Francisco Alves; 

As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, ed. Companhia das Letras; 

Sidarta, de Herman Hesse, ed. Record

1984, de George Owell, ed. Global.

Mantenho um quadro em meu consultório, que define bem minha filosofia de trabalho. 

 "É preciso sonhar,
mas com a condição de crer em nosso sonho.
De examinar com atenção a vida real.
De confrontar nossa observação com nosso sonho.
De realizar escrupulosamente nossa fantasia.
Sonhos, acredite neles." 
Lenin

[1]Costa, Jurandir F.; A Face e o Verso; ed. Escuta [2] Japiassu, Hilton; Introdução as Ciências Humanas; ed. Letras & Letras [3] Winnicott, D.W.; O Brincar & a Realidade; ed Imago [4] Ferenczi, Sandór; Coleção Completa, Psicanálise I, Sintomas Transitórios na Decorrer de uma Psicanálise; ed. Martins Fontes [5] Winnicott, D. W.; O Brincar e a Realidade; ed. Imago

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