Quaest mostra Flávio preso à bolha enquanto Lula avança entre independentes
Pesquisa Quaest aponta virada do presidente em segmento decisivo e mostra senador forte no núcleo bolsonarista, mas com dificuldade fora dele
A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) mostra que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) preserva o eleitorado bolsonarista, mas perde força fora da redoma ideológica da direita mais fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O dado central está entre os independentes: Lula (PT) passou de 29% para 37%, enquanto Flávio caiu de 31% para 24% no cenário de segundo turno.
A virada nesse segmento abriu 13 pontos de vantagem para Lula entre eleitores que não se declaram lulistas, bolsonaristas, de esquerda ou de direita. É nesse público que costuma morar a eleição real, longe das torcidas organizadas da política.
No quadro geral, Lula aparece com 44% contra 38% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 5 e 8 de junho, tem margem de erro de dois pontos percentuais e foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07661/2026.
O problema de Flávio não está apenas na dianteira aberta por Lula. Está no mapa interno da pesquisa.
Entre os independentes, Flávio perdeu sete pontos de maio para junho. No mesmo intervalo, Lula ganhou oito. O movimento indica que parte do eleitorado sem identidade partidária rígida migrou para o presidente ou deixou de ver o senador como opção competitiva para derrotar o petista.
Na direita não bolsonarista, o sinal também acendeu. Flávio recuou de 88% para 82%. Continua majoritário nesse campo, mas perdeu seis pontos justamente no espaço em que precisava crescer para transformar fidelidade ideológica em maioria eleitoral.
O contraste está no eleitorado bolsonarista raiz. Nesse grupo, Flávio não desabou. Ao contrário, oscilou positivamente dentro da margem de erro, segundo a leitura do levantamento. Isso sugere que o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master e o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro não produziu, até agora, ruptura visível no núcleo duro do bolsonarismo.
A consequência política é direta: Flávio resiste dentro da bolha, mas sangra fora dela.
A pesquisa não permite afirmar que todo bolsonarista ignore acusações de corrupção ou suspeitas de irregularidade. O que os números mostram, com mais segurança, é que o noticiário negativo ainda não rompeu a fidelidade eleitoral do grupo mais identificado com Bolsonaro.
Fora desse cercado, o efeito parece outro.
Entre independentes e direitistas não bolsonaristas, o caso BolsoMaster aumenta o custo político da candidatura. A direita que quer derrotar Lula, mas não quer carregar todos os passivos do bolsonarismo, começa a olhar para outras alternativas ou a recuar diante de Flávio.
Esse é o ponto que interessa à eleição de 2026. Uma candidatura presidencial pode largar com uma base fiel. Mas não vence apenas com ela.
Para chegar ao Palácio do Planalto, Flávio precisaria atrair o eleitor conservador não bolsonarista, reduzir rejeição entre independentes e disputar votos fora do cercado familiar, ideológico e militante.
A Quaest mostra que esse caminho ficou mais estreito.
O dado mais duro para o senador é que Lula não cresceu apenas entre lulistas. Cresceu entre quem não se define pelo lulismo. Isso muda a qualidade da vantagem, porque mostra avanço no eleitor que decide por avaliação de governo, economia, medo de instabilidade, rejeição ao adversário ou comparação direta entre candidatos.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, aparece como candidato forte para manter o bolsonarismo mobilizado, mas ainda fraco para reorganizar a direita nacional em torno de si.
A redoma protege. Mas também limita.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




