Quando a democracia resolve brigar consigo mesma
São os próprios instrumentos democráticos — maioria, liberdade de expressão, eleição — que podem ser usados para corroer a democracia
Quando Alexis de Tocqueville foi estudar a democracia americana no século XIX, ele não estava encantado com o experimento. Estava desconfiado. A Revolução Francesa tinha começado prometendo liberdade e terminou em terror. A pergunta dele era simples: como evitar que a democracia use as próprias regras para se sabotar?
Dois séculos depois, a pergunta continua atual — e barulhenta.
Tocqueville percebeu algo que até hoje incomoda: democracia não é sinônimo automático de liberdade. Ela pode proteger direitos, mas também pode esmagá-los. O perigo não é só um ditador clássico com tanques na rua. Às vezes, o risco nasce no voto, cresce na maioria e se apresenta como vontade popular.
Ele chamou isso de “tirania da maioria”. É quando a maioria deixa de ser um critério numérico e passa a se achar dona da verdade. Quem discorda não é adversário — é traidor.
O debate vira ofensa. A divergência vira ameaça. O trumpismo encosta exatamente aí. A maioria vira identidade: “o verdadeiro povo”. E tudo o que não confirma essa identidade — tribunais, imprensa, eleições, organismos internacionais — passa a ser visto como sabotagem. A democracia continua sendo citada nos discursos. Mas começa a ser tratada como detalhe burocrático. O voto só é legítimo quando produz o resultado correto.
Tocqueville também falava de outro problema menos dramático, mas igualmente perigoso: o cidadão cansado. Gente que prefere cuidar da própria vida e deixar a política para depois.
Aos poucos, cada um se fecha no seu mundo, na sua bolha, na sua pequena sobrevivência cotidiana. Esse isolamento não produz autonomia — produz solidão política. E solidão coletiva tem consequências.
Esse cenário prepara o que, décadas depois, Hannah Arendt chamaria de atomismo: indivíduos isolados, desconectados uns dos outros, sem vínculos coletivos sólidos. Gente sozinha é mais fácil de mobilizar pelo medo e pela raiva do que pelo debate. Regimes autoritários não começam com campos de concentração. Começam quando a política vira guerra moral, quando a verdade vira opinião do líder e quando o limite jurídico passa a ser tratado como frescura liberal.
O trumpismo não é um regime totalitário. Mas flerta com o clima. Testa fronteiras. Empurra os limites para ver até onde dá.
A ironia é quase literária. Tocqueville estudou os Estados Unidos para entender como impedir que a democracia repetisse o desastre francês. Agora, são os próprios instrumentos democráticos — maioria, liberdade de expressão, eleição — que podem ser usados para corroê-la.
Não são tanques nas ruas. É algo mais sofisticado: desmontar a democracia dizendo que está salvando-a do inimigo interno.
No caso brasileiro, a ironia ganha um toque quase cômico. Jair Bolsonaro, pouco afeito aos livros — com exceção declarada das palavras cruzadas — provavelmente jamais leu Tocqueville, desconhece a Revolução Francesa como dilema político e nunca passou por
Hannah Arendt. Ainda assim, encaixa-se com precisão inquietante nos fenômenos que eles descreveram. Não é preciso entender teoria para produzir seus efeitos. Basta agir como se limites fossem opcionais e imaginar o povo como uma unanimidade moral — de preferência com megafone.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
