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João Feres Júnior

Instituto de Estudos Sociais e Políticos - IESP / Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

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Quando a economia não explica o voto

Como a identidade política e os filtros informacionais blindam o eleitorado contra indicadores positivos

Quando a economia não explica o voto (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil | Valter Campanato/Agência Brasil | REUTERS/Paulo Whitaker | Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
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1.

Apareceram nas últimas semanas dois textos que se propõem a explicar o paradoxo do terceiro mandato de Lula: indicadores macroeconômicos sólidos, com desemprego em mínima histórica, PIB acima da média do G-20 e salário real em recuperação, convivendo com avaliação popular medíocre e desempenho de campanha pior do que se esperaria.

O primeiro é o ensaio de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado na Folha de S. Paulo, “Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade”. O segundo é o artigo de Carlos Pinkusfeld Bastos e Luis Berner no Jornal dos Economistas, que abre com o título irônico “Não é a economia, estúpido??”.

Além do diagnóstico, os dois textos partilham um movimento argumentativo. Ambos começam reconhecendo, em algum nível, que o vínculo entre desempenho macroeconômico e voto é mais complexo do que sugere o aforismo de James Carville. Carvalho e Klein dedicam dois parágrafos a recusar a leitura simplista da inflação. Pinkusfeld e Berner colocam dois pontos de interrogação no próprio “é a economia, estúpido” e mencionam de passagem que valores morais ou religiosos “podem influenciar de maneira relevante o voto”, para em seguida declararem que essa é “uma discussão complexa que não nos atrevemos a entrar”.

E aí está o problema: os textos refutam retoricamente a tese do voto econômico e, em seguida, apresentam com outras roupas uma leitura economicista da questão fundamental da ciência política: a formação das preferências eleitorais.

Argumento que essa operação não é cosmética. Ela é uma maneira de manter o econômico como variável independente única e remeter o ideológico para o limbo daquilo que existe, mas não se mensura. A inflação vira “patamar de preços ainda elevado”. O desemprego cai, mas o problema agora é o da “qualidade do emprego gerado”. O salário real cresceu, mas a “janela de aspiração” se globalizou.

A “experiência subjetiva do custo de vida” entra como mediadora entre indicadores e voto. As redes sociais aparecem, mas como fator na transformação de padrões de consumo, não como infraestrutura de produção ideológica. O resultado é uma teoria do voto econômico ampliada para acomodar o que o voto econômico clássico não explicava, sem precisar trocar a moldura.

Esse movimento é compreensível quando vindo de economistas, que treinaram a vida inteira para tratar variáveis econômicas como explicação de outras variáveis econômicas. O problema é que ao tentar explicar uma variável politológica, ele descarta evidências robustas e convergentes, produzidas nos últimos anos pela ciência política brasileira, sobre a dinâmica das preferências eleitorais em nosso país.

2.

Comecemos pelo dado mais conhecido. Em todos os modelos de regressão multivariada aplicados aos dados do Estudo Eleitoral Brasileiro de 2018 e 2022, os preditores mais fortes do voto em Jair Bolsonaro não são renda, escolaridade, desemprego ou avaliação econômica. Os trabalhos de Oswaldo Amaral, Jairo Nicolau e Lúcio Rennó convergem sobre isso, com diferentes matizes metodológicos. Nos modelos que esses autores produziram, renda é apenas uma variável entre outras, e nem é a mais forte.

Religião, gênero e raça apresentam, cada uma, efeitos líquidos sobre a preferência por Bolsonaro superiores a dez pontos percentuais quando controladas pelas demais. Nenhuma delas é redutível à economia. Tratar a renda como porta de entrada privilegiada para a explicação do voto é uma decisão teórica, não um espelho da evidência.

Há que se levar em conta também o recrudescimento do antipetismo, em boa medida, produto da Operação Lava Jato e da cobertura midiática que a transformou em paradigma interpretativo da política brasileira entre 2014 e 2018, assunto sobre o qual o LEMEP, o Manchetômetro e o Monitor do Debate Político no Meio Digital têm vasta evidência publicada.

Essas primeiras constatações já desorganizam o quadro economicista. Se a variável que melhor explica o voto bolsonarista é uma adesão ideológica produzida por uma operação judicial-midiática iniciada em 2014, qualquer modelo que tente derivar o desempenho eleitoral de Lula em 2026 a partir da execução macroeconômica recente está perdendo o objeto.

Convém ser claro sobre o que essa expressão, adesão ideológica, significa e o que não significa. Ela não implica que o eleitor bolsonarista vote movido por uma paixão irracional, em estado de polarização afetiva, como sugerem leituras psicologizantes hoje em voga na literatura nacional e internacional sobre populismo. Implica apenas que ele adere a um conjunto coeso de valores e narrativas sobre como a sociedade brasileira deveria se organizar que têm pouco a ver com a economia.

O descolamento do eixo exclusivamente econômico não redunda, portanto, em irracionalidade ou em pura emoção. A adesão a valores culturais e o apoio a políticas públicas a partir deles está diretamente ligada à formação de preferências eleitorais em qualquer regime democrático. Esse assunto precisa ser estudado de maneira adequada e não simplemente tomado como epifenômeno de variáveis macroeconômicas.

3.

Há um achado ainda mais perturbador. Em análise de cluster que publiquei recentemente na Revista Opinião Pública, identifiquei três perfis distintos entre os eleitores que votaram em Bolsonaro no primeiro turno de 2022. Um deles, isolado de longe pelos parâmetros estatísticos do agrupamento como o mais coeso, é o de eleitores liberais nas questões de valores familiares, francamente progressistas em política social, majoritariamente favoráveis ao controle da venda de armas e nada golpistas. É também o cluster menos evangélico da amostra, com incidência dessa religião muito abaixo da observada na população brasileira em geral.

O que explica esse grupo numeroso de bolsonaristas? Não é a economia. Não é sequer a adesão a valores conservadores, como nos outros dois grupos identificados na análise. Não é a religião. É o antipetismo, em estado quase laboratorial, sobrevivendo ao próprio Jair Bolsonaro como objeto positivo de preferência. Esse cluster é uma evidência negativa frontal contra as teses economicistas: são eleitores que, pelo que demonstram preferir como política pública, deveriam votar em Lula, e votaram em Jair Bolsonaro. Nenhuma “janela de aspiração globalizada” explica isso. Nenhum “patamar de preços ainda elevado” explica isso. Há um ato político-identitário, formado por uma trajetória de comunicação política específica.

Chegamos assim ao segundo bloco de evidências, que desestabiliza o quadro dos textos em questão de modo ainda mais radical. Em pesquisa qualitativa nacional com 24 grupos focais espalhados por todas as regiões do país, e em análise quantitativa por regressão logística com 2.558 respondentes do survey do INCT-IDDC, encontrei algo que precisa ser dito com todas as letras: a própria percepção das condições econômicas é endógena à filiação ideológica.

Em meados de 2021, com PIB estagnado e desemprego ainda alto, bolsonaristas renitentes nas classes C e D declaravam aos grupos focais que a economia estava melhorando, que 2021 estava “muito melhor que 2020”, que o pior já havia passado. Os dados da economia real não permitiam essa leitura. A leitura vinha de outro lugar: do que chamei de “esfera comunicacional bolsonarista”, uma infraestrutura de mídia composta por Record, SBT, CNN-Brasil, Jovem Pan, grupos de WhatsApp evangélicos e perfis nas redes sociais, que processa os fatos econômicos e devolve uma narrativa de recuperação sob ataque de inimigos.

Na análise feita em outro artigo, utilizando a técnica de regressão logística, controlando por renda, religião, região, raça e gênero, os preditores mais fortes do voto em Jair Bolsonaro em 2022 foram (i) ter como canal de TV preferido um canal favorável a Jair Bolsonaro como Record, SBT, CNN-Brasil ou Jovem Pan (coeficiente 1,21), (ii) ter como canal menos favorito um canal hostil a Bolsonaro (coeficiente –0,88) e (iii) atribuir imagem negativa à Rede Globo (coeficiente 0,70). Renda apareceu sim como variável significativa, mas em valores menores.

4.

Em outras palavras: o que organizou a preferência eleitoral em 2022 não foi primordialmente o que aconteceu com a renda ou com os preços. Mesmo as percepções sobre a economia dependem da esfera comunicacional na qual o cidadão obtém suas informações sobre o que aconteceu com a renda e com os preços.

É claro que os preços nas gôndolas dos supermercados têm efeito eleitoral, mas eles devem ser mensurados em conjunto com os fatores ideológicos e demográficos já identificados pelos trabalhos de ciência política. A percepção de “vida difícil” não é uma resposta a estímulos econômicos universais filtrados por psicologia universal; é uma resposta a estímulos econômicos reais filtrados por uma esfera de comunicação ideologicamente carregada. Tratar a percepção como variável intermediária neutra entre indicadores e voto, como fazem os textos em questão, é não enxergar esse dado básico.

Dada a assimetria da polarização ideológica em nosso país, com a extrema-direita golpista de um lado e a centro-esquerda democrática, liberal e institucional do outro, devemos inclusive considerar uma hipótese contraintuitiva: fatores econômicos provavelmente movem mais os eleitores progressistas do que os bolsonaristas. O cluster antipetista descrito acima não é mobilizado pelo bolso; é mobilizado por uma adesão identitária que o atravessa há mais de uma década, blindada da economia pela mesma esfera comunicacional que reinterpreta cada indicador.

O eleitor de centro-esquerda, menos travado em uma identidade política durável e mais responsivo às condições materiais cotidianas, é o que de fato cobra do governo a tradução dos números em vida vivida. Se isso estiver correto, a leitura economicista da impopularidade de Lula está olhando para o lado errado do espectro: explica melhor a desmobilização eventual do eleitor lulista do que a permanência do eleitor bolsonarista. O problema estratégico não é convencer o bolsonarista de que a economia melhorou, esforço que bate contra parede comunicacional. O problema é não perder o eleitor de Lula em 2026 por desencanto com o ritmo da entrega.

Há um terceiro problema, este interno ao próprio quadro economicista. Pinkusfeld e Berner anotam, fazendo “papel de advogado do diabo”, que mesmo em 2023 e 2024, quando os indicadores foram, em suas próprias palavras, “muito mais expressivos”, não houve melhora robusta na avaliação do governo. É um dado importante. E é um dado que decreta o fim da explicação economicista, porque desfaz a sequência temporal causal proposta: indicadores ruins em 2025 não podem ser causa de desaprovação que já estava posta em 2023, quando os indicadores eram bons.

Os autores percebem o problema e tentam absorvê-lo num argumento estrutural de longo prazo: o governo Lula III “não representou uma ruptura radical com um passado de quase uma década de baixo crescimento, fragilização das capacidades estatais, precarização do mercado de trabalho e queda dos salários”.

A observação é correta no plano descritivo, mas é normativamente injusta, pois adotam um padrão ideal de política pública como parâmetro de comparação, para em seguida constatarem que o governo Lula III promoveu inclusão pela renda e pelo crédito, mas foi incapaz de reformas estruturais. Do ponto de vista da filosofia moral e da ciência política, o problema desse raciocínio é que trata o presidente como se agisse em um vácuo político, no qual a única força eficiente é sua própria vontade. Cobrar de Lula que, no contexto político de seu terceiro governo, com o Congresso dominado pelo Centrão, e grande imprensa e mercado militando diariamente em prol da agenda fiscalista, fizesse grandes mudanças estruturais, não me parece razoável.

5.

A “ironia da história” com que Pinkusfeld e Berner encerram o texto, o fato de que o grupo político responsável pelas políticas econômicas malsucedidas desde 2015 é precisamente o mais bem posicionado da oposição no atual contexto eleitoral, é a maior evidência possível contra a moldura escolhida pelos próprios autores. Se a economia explicasse a formação das preferências eleitorais, esse grupo não estaria liderando coisa alguma.

Concordo que a economia importa, e concordo até com a especificação proposta: é a percepção subjetiva que toca o voto, não os indicadores agregados em si. Contudo, o ponto é outro. Tratar a percepção subjetiva como uma função relativamente direta da experiência econômica vivida, modulada por aspirações, memórias e comparações sociais, sem teorizar a infraestrutura comunicacional que produz e estabiliza essa percepção, é insistir no erro que se pretende superar.

O eleitor brasileiro de 2025 não experiencia o custo de vida sozinho; ele o experiencia mediado por um campo informacional que o ensina a interpretar a fila do supermercado em termos políticos pré-fabricados. Pinheiro-Machado e Scalco, citadas no texto de Carvalho e Klein, descreveram exatamente isso para o bolsonarismo nas periferias de Porto Alegre: a frustração de consumo se desloca para a adesão a um campo identitário-comunicacional que oferece a explicação. A observação está nas próprias fontes que Carvalho e Klein citam. Mas foi subutilizada.

O que está em jogo, portanto, não é uma disputa acadêmica de paradigma. É uma disputa sobre prescrição política. Se a impopularidade de Lula é fundamentalmente um problema de tradução macro-micro, mais entrega econômica, mais redução de juros, mais serviços públicos, então a estratégia para 2026 está dada, e basta executá-la. Foi essencialmente isso que a equipe econômica tentou de 2023 para cá. O texto da Folha, na sua reta final, é literalmente uma lista de medidas econômicas e suas potenciais conversões em “experiência cotidiana de bem-estar”. Três anos depois, com indicadores entre os melhores da década, a estratégia produziu o resultado que conhecemos.

Se, em contrapartida, a “impopularidade” de Lula, que, diga-se de passagem, continua a liderar as pesquisas eleitorais, é em larga medida o efeito de uma esfera comunicacional construída ao longo da última década contra ele e seu partido, sustentada por um cluster antipetista que não responde a sinais econômicos, por uma rede de mídia evangélica que opera fora do alcance do governo, por canais de TV abertos cooptados e por uma vasta infraestrutura de redes sociais de extrema-direita, então a estratégia política precisa se mexer em um terreno que a entrega econômica não toca.

Precisa disputar o acesso aos meios de comunicação, reorganizar a comunicação política e enfrentar diretamente a esfera adversária. Sem isso, qualquer reforma do imposto de renda e qualquer fim da escala 6×1 serão metabolizados pela esfera bolsonarista e pela em mais um sinal de que Lula “não está deixando o brasileiro de bem trabalhar em paz”, e pela mídia tradicional como “mais uma medida populista eleitoreira do petista”.

Não é a economia, estúpido. É a comunicação política, e ela foi bastante descuidada ao longo do governo Lula III. Esse é o problema cuja gravidade ambos os textos perceberam pela metade, o suficiente para o aforisma de Carville como gancho de seus textos, não o suficiente para deixarem de lados os vícios economicistas que baseiam sua análise de uma variável política: a preferência eleitoral.

*João Feres Júnior é professor titular de ciência política do IESP-UERJ. Coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público (LEMEP).

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.