Quando a polarização se desloca: pais e filhos atravessados pela mudança
'A polarização segue sendo um traço central do nosso tempo, mas ela não produz apenas rupturas', escreve a colunista Sara York
A polarização política e cultural que marca o Brasil contemporâneo não se expressa apenas nas urnas ou nas redes sociais. Ela atravessa o cotidiano das famílias, reorganizando vínculos, afetos e identidades. Pais conservadores e filhos progressistas - ou o inverso - passaram a conviver com tensões que já não cabem na ideia simplista de "conflito geracional". Trata-se, antes, de uma disputa entre paradigmas de mundo.
Dados analisados por Felipe Nunes, da Quaest, ajudam a compreender esse processo. O distanciamento crescente entre homens, que tendem a posições mais conservadoras, e mulheres, que se deslocam à esquerda, revela um movimento estrutural: quanto mais protagonismo político e social as mulheres conquistam, mais parte dos homens reage com conservadorismo. Essa reação não é apenas ideológica, mas defensiva, ligada à perda de privilégios e à reconfiguração das hierarquias tradicionais. No espaço doméstico, esse mesmo mecanismo se reproduz nas relações entre pais e filhos.
Quando filhos e filhas se assumem progressistas - especialmente filhos trans - , a família se torna um campo de negociação intensa.
Para muitos pais, a identidade trans dos filhos desestabiliza expectativas profundas sobre gênero, futuro e pertencimento. O conservadorismo, nesse contexto, aparece como tentativa de restauração de uma ordem simbólica ameaçada. No entanto, a experiência concreta mostra que esse não é um caminho único nem inevitável.
Pesquisa realizada pelo coletivo Mães da Resistência, em 2022, aponta um dado fundamental: diante da abertura e da afirmação de filhos trans, muitos pais e mães passaram também por deslocamentos subjetivos importantes, tornando-se mais inclusivos e ampliando seus próprios limites paradigmáticos. O contato com a realidade dos filhos produziu, em diversos casos, não fechamento, mas transformação.
A trajetória da ativista Thamirys Nunes é exemplar nesse sentido. Inicialmente uma mãe cis-heterossexual, casada e movida pela preocupação com sua criança trans, Thamirys tornou-se referência no ativismo LGBTI+, autora do livro Minha Criança Trans. A inserção nesse campo de luta e conhecimento produziu mudanças profundas em sua própria vida: reconheceu seus contrastes, reorganizou sua trajetória afetiva e, desde 2023, vive uma relação com sua companheira. Sua história evidencia que a convivência com a diferença não transforma apenas os filhos - transforma também os adultos.
O dado mais promissor, contudo, vem das gerações mais jovens. Entre pessoas nascidas após os anos 2000, a polarização de gênero observada entre adultos praticamente desaparece. Meninas influenciam meninos em direção a visões mais tolerantes e menos discriminatórias, indicando que novas formas de socialização estão em curso.
A polarização segue sendo um traço central do nosso tempo, mas ela não produz apenas rupturas. Em muitos lares, ela também inaugura deslocamentos, aprendizados e novos sentidos para a vida. Compreender essas dinâmicas é essencial para pensar um Brasil em transformação - um país que, aos poucos, aprende que conviver com a diferença é também uma forma de amadurecimento coletivo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




