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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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Quando o crédito vira armadilha, o perdão vira necessidade

Defender políticas de alívio da dívida é, hoje, defender a dignidade

Cartões de crédito (Foto: Pexels - Pixabay)

Foi identificado um momento alarmante no Brasil, no qual o endividamento das famílias atingiu um recorde histórico. Segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Confederação Nacional do Comércio, mais de 80% dos lares brasileiros estão hoje comprometidos com dívidas. Não se trata de um detalhe estatístico, mas de um retrato fiel de um país no qual a sobrevivência passou a depender do crédito. E o fato é que essa situação não surgiu por acaso.

Mesmo com as bravas lutas das instituições sindicais e do próprio Governo Federal contra a precarização do trabalho - herança da reforma trabalhista de Temer e dos anos sombrios do governo Bolsonaro - e mesmo com melhorias nas taxas de emprego e renda, o fato é que os juros dispararam.

A elevação da taxa Selic a partir de 2021 fez com que os juros bancários saltassem de uma média de 38,5% ao ano para impressionantes 61%. Na prática, isso significa que aquela dívida contraída para pagar uma conta básica rapidamente se transforma em uma bola de neve. E nós sabemos bem como isso funciona, a pessoa parcela, depois renegocia, depois entra no rotativo e, quando percebe, está presa em um ciclo quase impossível de romper. É o que especialistas vêm chamando de armadilha do crédito.

E essa armadilha tem consequências profundas. Não se trata apenas de nome sujo. Trata-se de famílias inteiras comprometendo uma parte crescente da sua renda apenas para pagar juros. Trata-se de gente abrindo mão de consumo básico, de lazer, de qualidade de vida. Trata-se, em última instância, de um país que cresce menos porque sua população está sufocada financeiramente.

É justamente nesse cenário que ganha centralidade a iniciativa do Governo Lula de construir um novo programa de renegociação de dívidas, com possibilidade de perdão de até 80% dos débitos. A proposta, que vem sendo elaborada pelo Ministério da Fazenda em diálogo com o sistema financeiro, prevê descontos proporcionais à renda, prioridade para quem ganha até três salários mínimos e a oferta de crédito mais barato para quitar o restante das dívidas.

Além disso, o programa pretende ser mais simples e acessível do que experiências anteriores, permitindo que trabalhadoras e trabalhadores reorganizem sua vida financeira com menos burocracia. Nesse contexto, também está em debate a possibilidade de uso do FGTS para quitação de dívidas e a criação de mecanismos para evitar o reendividamento, como restrições ao uso de crédito em apostas online.

Não estamos falando de um gesto isolado, mas de uma política pública que reconhece a gravidade da situação e busca enfrentar o problema de forma concreta. E o Brasil precisa encarar esse debate com honestidade.

Perdoar parte das dívidas não é premiar quem deve, como Bolsonaro fez com seus comparsas empresários e banqueiros. Perdoar parte das dívidas é reconhecer que milhões de brasileiros e brasileiras foram empurrados para uma situação insustentável por um modelo econômico que privilegia o sistema financeiro em detrimento da renda oriunda do trabalho. É dar uma chance real de recomeço para famílias que hoje estão presas a contratos abusivos.

Medidas como a criação de linhas de crédito mais baratas, o foco em quem ganha menos e a possibilidade de reorganização das dívidas são fundamentais para quebrar o ciclo do endividamento e recolocar essas pessoas na economia de forma ativa.

Mas sabemos que o enfrentamento precisa ir além. É preciso atacar a raiz da questão que são os juros elevados e a lógica de um sistema financeiro que lucra com a inadimplência. O Brasil precisa continuar com o plano de fortalecimento da renda, de valorização do salário mínimo, de garantia de empregos de qualidade e de uma regularização severa das práticas que incentivam o endividamento, como o crédito fácil e as apostas online, principalmente. Sem isso, qualquer programa de renegociação será apenas um alívio temporário.

Estamos, portanto, diante de uma escolha de modelo de país. Um país onde o crédito serve para impulsionar a vida das pessoas ou um país onde o crédito tem a finalidade de aprisionar com uma corda cada vez mais curta. Defender políticas de alívio da dívida é, hoje, defender a dignidade. Mas ir além disso é defender um Brasil onde as pessoas não precisem se endividar para viver.

E é preciso ter clareza. Nada do que está sendo construído agora é irreversível. O Brasil já viu, em um passado recente, direitos serem desmontados, políticas públicas serem interrompidas e a vida da população ser empurrada para a precarização e o abandono.

Faz-se urgente alertar que o caminho que começou a ser reconstruído exige continuidade. Exige compromisso com quem trabalha, com quem produz e com quem sustenta esta nação todos os dias.

E 2026 é um ano decisivo, onde não há espaço para neutralidade. Cada escolha feita nas urnas define se avançamos na construção de um país mais justo ou se despencamos em outro abismo de desigualdades que transforma o crédito em instrumento de opressão.

Não é apenas sobre dívida, é sobre qual tipo de Brasil escolhemos construir — e essa escolha se define no voto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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